Réus do 8 de janeiro: quando julgaremos os peixes grandes?

Os julgamentos e as penas são capítulos importantíssimos para uma conclusão didática do atentado que sofremos em 8 de janeiro de 2023, quando milhares de pessoas de todo o país se organizaram para atentar contra a democracia. Mas e os peixes realmente grandes?
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Por Luiza Abi Saab

O STF iniciou nesta quinta (14) o julgamento dos réus envolvidos nos atos golpistas de 8 de janeiro. Aécio Lúcio Costa Pereira, primeiro réu acusado, recebeu pena de 17 anos de prisão. Já Thiago de Assis Mathar, segundo réu, recebeu 14 anos de prisão como pena. E assim seguirão julgando Joãos e Marias, como deve ser.

Os julgamentos e as penas são capítulos importantíssimos para uma conclusão didática do atentado que sofremos em 8 de janeiro de 2023, quando milhares de pessoas de todo o país se organizaram para atentar contra a democracia.

Mas o atentado de 8 de janeiro não começou nesta data, e não foi efeito apenas de “cidadãos de bem” do país que decidiram se reunir para a tal “Festa da Selma” (codinome utilizado pelos golpistas para organizar viagens a Brasília nesta data).

Aliás, foi.

Mas principalmente de “cidadãos de bem” com muito dinheiro, que não estiveram presentes na Festa da Selma e que se articularam ao longo dos últimos anos. E estes, principalmente estes, ainda não receberam julgamento ou pena.

Ataque golpista em Brasília no 8 de janeiro de 2023. Foto: Ed Alves

Os pirarucus do golpe

A corja criminosa e maior responsável por toda a desestabilização da democracia no país tem nome, sobrenome, cargo, histórico e provas contra si mesma.

Em uma curta retrospectiva, podemos trazer uma lista de pessoas que, livremente e sem prejuízo, atiçaram o povo a atentar contra o Estado Democrático de Direito.

Em agosto deste ano, o ministro Alexandre de Moraes fez uma fala interessante durante seu voto favorável à descriminalização do porte de drogas para consumo próprio, quando disse “Nós [referindo-se às instituições] triplicamos em seis anos o número de presos por tráfico de drogas, mas não triplicamos o número de presos por tráfico de droga de brancos, maiores de 30 anos, com curso superior”.

O trecho do voto dizia sobre o ciclo vicioso da Justiça em prender principalmente pretos e pardos sem instrução, que se endividam com organizações criminosas, criam dívidas com elas e acabam roubando ou furtando para se livrar do problema, que resulta na maioria das vezes em novas prisões.

É nesta mesma linha de reflexão que gostaria de também abordar as atuais condenações do STF sobre o 8 de janeiro: Sim, existem os peixes pequenos, que pode ser aquela sua tia bolsonarista do interior, o seu porteiro preocupado com o tal “kit gay” que vai chegar na escola do filho, sua irmã reaça-oculta cult-intelectual-olavista e etc. Depois, existem os peixes médios: o dono de uma rede de padaria que se juntou ao dono de alguma construtora médio-porte e fretaram um ônibus para levar a tchurma para atentar contra a democracia na Festa da Selma.

E aí, meus companheiros e companheiras, chegam os peixes grandes do Brasil. Os parlamentares, militares, ex-ministros, juízes, empresários etc. Desde o golpe da Dilma (desde bem antes, sabemos), uma corja da necropolítica organizou-se para falar e praticar os maiores absurdos, incitando loucuras, delírios e crenças.

Falo somente do que falo

Para dar um exemplo, falo ,de Abraham Weintraub, que enquanto ministro da Educação do governo Bolsonaro, já alarmava que “Eu, por mim, botava esses vagabundos todos na cadeia, começando no STF”, durante uma reunião ministerial em 2020. Nesta fase, Weintraub já trazia nas costas a ladainha da “luta pela liberdade”, bandeira ostentada até hoje por bolsonaristas, inclusive nos ataques golpistas do 8 de janeiro.

Falo de Carla Zambelli, que todos sabemos e acompanhamos todos seus crimes e atentados ao longo dos anos, mas que também marcou sua trajetória com o fato de, ao tomar posse em 2019, foi pessoalmente ao gabinete de Jair Bolsonaro pedir para ficar com o quadro de Artur da Costa e Silva, presidente que assinou o AI-5 e pendurar em seu gabinete de deputada federal.

Carla Zambelli, recém-empossada em 2019, com o quadro de ditadores na parede de seu gabinete. Foto: Cristiano Mariz

Falo também do óbvio ululante: Jair Messias Bolsonaro e sua família, que inúmeras vezes incitaram atos criminosos e estão envolvidos em diversos esquemas de corrupção.

Falo, claro, de fortes e grandes empresários do país, além de fortes e grandes lambe-botas de ditadura (que, na mesma proporção, mostraram-se fortes e grandes covardes): Luciano Hang, o véio da Havan; Afrânio Barreira, do Grupo Coco Bambu; José Isaac Peres, dono da gigante de shoppings Multiplan; José Koury, dono do Barra World Shopping, no Rio de Janeiro; Ivan Wrobel, da construtora W3 Engenharia; e Marco Aurélio Raymundo, o Morongo, dono da marca de surfwear Mormaii.

Os empresários tiveram suas conversas de grupo de whatsapp vazadas em 2022, mostrando a organização e apoio a um golpe de estado para impedir a eventual posse de Lula (as mensagens foram trocadas em julho do mesmo ano). Além disso, os empresários organizavam formas de bonificação em espécie e prêmios a funcionários das empresas que apoiassem Bolsonaro. Vale lembrar que na troca de mensagens, Luciano Hang menciona Tarcísio de Freitas (atual governador de São Paulo) como futura opção na disputa presidencial do país.

Falo da Lava-Jato, operação liderada por Sérgio Moro e Deltan Dallagnol, que conduziram de forma complemente parcial o que chamaram de “a maior iniciativa de combate à corrupção e lavagem de dinheiro da história recente do Brasil”. Operação essa que impulsionou impeachment de Dilma, prisão de Lula, eleição de Bolsonaro, e por aí vai.

Ou seja, os peixes grandes seguem aí e a nossa Justiça parece ter muitos dedos para lidar com eles. Dedos que não aparecem nos peixes pequenos e médios. Os maiores afetados e atingidos: a massa de manobra, claro. O povão, a sua tia, o porteiro etc. Mais uma vez, ressalto, que eles paguem por tudo o que fizeram.

Mas quando é que vamos, além do “povo”, dos “alvos fáceis”, julgar e punir os nossos “brancos, maiores de 30 anos e com curso superior”?

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