Léo Péricles, candidato à presidência, sobre o debate: “Reprodução do racismo”

Léo Péricles, da Unidade Popular, denuncia o debate presidencial da Band, que deixou de fora candidaturas negras e socialistas
Leo Pericles, candidato a presidência pela UP - Foto: Motoca (UP)
Leo Pericles, candidato a presidência pela UP - Foto: Motoca (UP)

O debate presidencial que ocorreu na noite de domingo (29) contou com seis candidatos. Léo Péricles (UP) não foi um deles. Os critérios das emissoras Band, TV Cultura, o portal de notícial UOL e a Folha de S.Paulo foram responsáveis pela exclusão das candidaturas negras e de esquerda. Dessa forma, o público assistiu a um programa em que a pluralidade de ideias e de vozes foi extremamente reduzida. Com apenas candidatos brancos, e maioritariamente neoliberais, Léo Pericles acredita que o primeiro debate presidencial representou a reprodução do racismo.

Léo, uma das únicas candidaturas negras à presidência, concorre pelo partido Unidade Popular (UP). Criada informalmente em 2016, a legenda iniciou o processo de registro em 2018. Foi apenas em dezembro de 2019 que o TSE aprovou oficialmente o partido que, em 2020, já concorreu às eleições. A UP defende a tarefa histórica de levar o poder aos pobres, às mulheres, à população negra, aos indígenas e à classe trabalhadora. O programa da UP tem como base o combate ao capitalismo, a luta pelo socialismo e a planificação da economia como forma de colocar um fim nas desigualdades sociais. Para as eleições de 2022, a UP lançou oficialmente o candidato Léo Pericles que, com R$197,31 de bens declarados no TSE, vem para representar os negros trabalhadores de periferia. Entretanto, no debate da Band de domingo (29), esse grupo infelizmente não se viu retratado.

Debate contou com a participação de todos os candidatos com representação no Congresso Nacional — Foto: Miguel SCHINCARIOL / AFP
Debate contou com a participação de todos os candidatos com representação no Congresso Nacional — Foto: Miguel SCHINCARIOL / AFP

As emissoras Band, TV Cultura, Uol e Folha de S.Paulo seguiram regras próprias. Embora a Lei das Eleições de 1997 assegure a participação de candidatos dos partidos com a representação no Congresso Nacional de, no mínimo, cinco parlamentares, a participação dos demais fica a critério dos canais. Léo Péricles relembra que essas emissoras são concessões públicas, ou seja, apenas podem existir por terem autorização governamental. Mas esses grupos de mídia acabam contrariando o sentido de concessão pública, que é a prestação de um serviço de comunicação, visando aos interesses de todos. O que acontece é que os concessionários (como a Band e demais redes) usem a concessão para beneficiar a difusão das ideias de seus donos milionários, que a gerem como se fosse uma empresa privada. É dessa forma que, para Léo Péricles, essas emissoras continuam não abrindo espaço para aqueles que contestam e “colocam o dedo na ferida, falando que existe outro caminho”, sem ser o que está posto.

Asssim, o debate na Band ocorreu sem se preocupar com a exclusão dos negros e socialistas, o que apresentou como resultado o escandaloso silêncio sobre o racismo e a violência policial.

“Não estivemos presentes entre os candidatos e isso escancara o racismo no Brasil. Inclusive, pautas centrais, não pautas secundárias, como a enorme violência que a população negra pobre vive nesse país, nessas periferias, isso não foi dito, né? E chacinas no interior do país contra os nossos irmãos e irmãs indígenas, quero ressaltar que isso também não foi tocado no debate”, disse Leo Pericles

Léo Péricles contou aos Jornalistas Livres quais pontos, que considera fundamentais, faltaram no debate de domingo (29). Além da falta de uma discussão sobre o racismo no país, o candidato também lembrou que nenhum convidado falou em mudanças estruturais profundas, como seu partido defende. Para o político da UP, a defesa da revogação das reformas que aconteceram nesse governo, como a trabalhista e da previdência, é essencial para que o Brasil possa ser governado a favor da maioria da população. Entretanto, as soluções para o país, num geral, caminharam de acordo com as pautas neoliberais. Não se falou em reforma agrária e tampouco sobre quais os rumos da dívida pública. Péricles apresenta como uma das principais propostas a suspensão imediata do pagamento de juros e amortização da dívida pública.

Quando os Jornalistas Livres perguntaram ao candidato o que ele gostaria de ter dito caso estivesse no debate, Léo respondeu que teria denunciado o golpe que o alto comando das Forças Armadas, Bolsonaro e o Centrão estão armando, com apoio de grandes empresários.

“Como é que não se fala disso no debate, que tem um candidato que faz apologia da tortura? Eu queria dizer inclusive que o Brilhante Ustra, que o Bolsonaro defende e elogia, torturou até crianças, era um facínora, né? Era um torturador. Como não se fala disso, frente à frente com o Bolsonaro? O grande problema que enfrentamos hoje é o fascismo, e esse é o discurso que se faz no campo da esquerda. Então, como não se fala disso no debate?” (Léo Péricles, UP)

Nenhum dos cinco candidatos questionou Bolsonaro sobre os constantes ataques à democracia, embora o tema seja de urgência. A verdade é que sem as candidaturas negras e socialistas muitas das pautas cruciais para a defesa da Democracia e dos Direitos do povo trabalhador foram silenciadas. Léo Péricles acredita que o debate, de fato, poderia ter sido outro, mas, infelizmente, não foi. Por outro lado, o programa na Band foi exatamente a cara do Brasil: um país de poucos e para poucos.

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