Nível do ensino no Brasil desaba na pandemia; português e matemática no fundo do poço

Números divulgados pelo MEC e pelo Inep escancaram um preocupante cenário no nível de ensino do estudantes brasileiros
Baixa no nível de ensino prejudica principalmente crianças em idade de alfabetização
Baixa no nível de ensino prejudica principalmente crianças em idade de alfabetização

Na última sexta-feira (16/09), foram divulgados pelo Ministério da Educação (MEC) e o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) os resultados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) e do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) – ambos relativos ao ano de 2021. Os números anunciados pelas pesquisas garantem um entendimento maior sobre o nível de ensino e a situação dos estudantes durante o período pandêmico – que preocupa especialistas. Ao todo, 5,3 milhões de estudantes foram avaliados em 2021.

Por Camilla Almeida

O Saeb é um conjunto de provas aplicadas a estudantes a partir do 2º ano do ensino fundamental que permite ao Inep realizar um diagnóstico da educação básica brasileira. A série mais gravemente impactada foi propriamente o 2º ano, com índices preocupantes com relação a alfabetização: a taxa de crianças que ainda não sabem ler e escrever nem mesmo palavras isoladas mais que duplicou com relação a 2019, passando de 15,5% para 33,8%, em 2021. O atraso pedagógico não se limita apenas ao português. As pesquisas revelam que 22% não conseguiam fazer operações básicas, como soma e subtração – o que já é esperado de crianças dessa série.

No ensino médio, os números também revelam um cenário preocupante. 48% dos estudantes tem conhecimentos classificados como iniciais em português, o que mostra um aumento de três pontos percentuais em comparação a 2019. Já em relação a matemática, o panorama se agrava: 54% dos alunos possuem apenas noções básicas da disciplina.

Contudo, todos essas dados obtidos não são considerados confiáveis estatisticamente por conta de baixos índices de comparecimento na prova. No estado de Roraima, por exemplo, apenas 27% dos municípios entraram nos cálculos dos anos iniciais do ensino fundamental, taxa considerada insuficiente e que pode ser pouco considerada para fins de análise. Em entrevista ao G1, Gabriel Corrêa, líder de Políticas Educacionais da ONG Todos Pela Educação colocou que “é complicado comparar uma rede em que 95% dos alunos fizeram a prova com outra em que 50% prestaram o exame. Aqueles alunos que não compareceram tendem a ser os que estavam em maior vulnerabilidade, afastados da escola”.

O Ideb é calculado a partir dos dados sobre aprovação escolar, obtidos no Censo Escolar, e das médias de desempenho no Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb). O índice varia de 0 a 10. Com a a aprovação automática na pandemia recomendada pelo Ministério da Educação (MEC) e a baixa taxa de participação do Saeb, os dados do Ideb foram prejudicados e também fornecem informações com pouca confiança estatística. Contudo, não se pode ignorar os péssimos índices obtidos principalmente nos anos iniciais do ensino fundamental e ensino médio. O Ideb nacional para crianças do fundamental foi de 5,8 em 2021 – um ponto abaixo da meta estabelecida pelo MEC. Já com relação aos adolescentes, o Ideb ficou estacionado em 4,2.

Os resultados obtidos por meio do Saeb e do Ideb escancaram a defasagem educacional ocasionada pela pandemia de Covid-19 e o consequente fechamento das escolas por dois anos. A desigualdade no acesso a internet e aos materiais das aulas online, a falta de um ambiente propício ao estudo e o aumento dos índices de evasão escolar contribuíram para a deterioração do nível do ensino no plano nacional.

As crianças em idade de alfabetização foram as mais atingidas e as que mais sofrerão as consequências deste grave cenário. “Aprender a ler e a escrever envolve tentativa e erro, passa por mostrar para o outro, comparar, perguntar para a professora. Sabemos que os alunos tiveram essas oportunidades reduzidas durante as aulas on-line e que muitos nem tiveram acesso [à internet]” coloca a diretora-presidente da Comunidade Educativa Cedac, Tereza Perez.

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