Conecte-se conosco

Morre o ministério de Teich, mas os negócios não podem parar

Publicadoo

em

 

 

 

Mateus Pereira e Valdei Araujo são professores de História na Universidade Federal de Ouro Preto, em Mariana*  

 

#Sextou. Falecimento. Viemos informar que hoje, 15 de maio de 2020, veio a óbito o ministério do senhor Nelson Sperle Teich à frente da pasta da Saúde. Mais uma sexta-feira de exonerações. Nesse ano, desde a Sexta-Feira da Paixão, esta é a segunda Sexta-Feira da Exoneração. Mandetta quase sai na sexta, pois saiu na quinta à tarde. Será que Bolsonaro cairá numa sexta-feira? Brasileiro: profissão esperança.

Nelson Teich teria sido apresentado ao presidente pelo ministro da Economia, Paulo Guedes. Além da relação com Guedes, o médico também tem outras proximidades com a economia, a ver pelo seu currículo: além de ter se formado na Universidade Estadual do Rio de Janeiro, em Medicina, e ter se especializado em oncologia no Instituto Nacional de Câncer (Inca), ele possui especialização em Economia da Saúde pela Universidade de York, na Inglaterra, e vários cursos de formação complementar em economia ou administração na área da saúde. Atualmente é diretor executivo da empresa de consultoria MedInsight – Decisions in Health Care e presidente da COI – Clínicas Oncológicas Integradas. Foi sócio do Secretário de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde, Denizar Vianna, na empresa MDI Instituto de Educação e Pesquisa, que funcionou entre 2009 e 2019, empresa esta que, de acordo com uma reportagem da BBC Brasil, trabalhava com “pesquisa e desenvolvimento experimental em ciências sociais, humanas, físicas e naturais e treinamento em desenvolvimento profissional e gerencial”.

Já na época da campanha, o médico apoiou Bolsonaro, atuando como seu consultor na área de saúde. Era um nome bem cotado para o Ministério, já no início do mandato, mas acabou sendo preterido em favor de Luiz Henrique Mandetta – a quem mais tarde substituiria. Tornou-se ministro com o apoio de nomes importantes como o de Meyer Nigri, dono da empresa Tecnisa, que atua no mercado imobiliário, e de Fábio Wejngarten, secretário de Comunicação do atual governo.

Em seu discurso de posse, Teich havia dito que não haveria nenhuma mudança brusca e que as decisões deveriam ser tomadas com base em informações sólidas, não em emoções. Também disse que saúde e economia não competem entre si, mas se complementam. Defendeu um grande projeto entre o SUS, o empresariado e o governo, para se realizarem os testes e mais pesquisas sobre o novo coronavírus. Por fim, disse que havia um “alinhamento completo” entre ele e o governo e que pretendia fazer de tudo para que o país possa voltar o mais rápido possível à normalidade, com o fim do isolamento.

Pelo jeito o “alinhamento completo” não era tão completo assim. Teich e Bolsonaro discordavam em relação ao uso da cloroquina: para o primeiro, a substância ainda deveria ser melhor estudada; para o segundo, o tratamento com este medicamento deveria ser imediatamente ampliado e já começar a ser utilizado no princípio da doença. Além disso, os dois divergiram em relação ao isolamento social: Teich só descobriu que o presidente havia permitido que salões de beleza, barbearia e academias voltassem a funcionar durante uma coletiva de imprensa, quando foi perguntado por um repórter sobre a medida. A resposta, um tanto desconcertada, e depois de muito balbuciar, foi a de que esta decisão não havia partido do Ministério da Saúde.

As redes sociais continuam não perdoando e, parafraseando a letra de uma canção sertaneja, soltam um meme onde se lê: já foram três os que caíram na ilusão de exercer um cargo “técnico”.

Atualização da situação da pandemia, em números, durante a curta vida do ministro: em 17/4 haviam 34.221 casos confirmados e 2.171 mortos no Brasil; em 15/5 são 218 mil casos confirmados e 14.816 mortos no Brasil. Os dados deixam claro que o fim do isolamento só aumentará o número de mortes, que crescem, a cada dia, dada a crise política e a flexibilização do isolamento, que é a única política efetiva, comprovada para redução do número de vítimas. É bom lembrar que diversas pesquisas têm mostrado a ineficácia da cloroquina para o tratamento da Covid-19.

Mas, por que o genocida mantém a sua “convicção”?

No momento, é possível pensar nessa pergunta por meio de uma outra: o que a “morte” desse empresário da saúde, como ministro, pode revelar?

A historiografia profissional já demonstrou, amplamente, que a ditadura de 1964 só foi possível pela aliança criminosa entre empresários e militares. Os primeiros sempre se direcionaram em busca de vantagens e maiores lucros para os seus negócios, e os segundos, sempre em busca de fama e protagonismo, mas também de dinheiro e poder. O resultado foi um dos episódios mais sombrios de nossas história, repletos de casos de corrupção e violência, que comprometeram a democratização da sociedade brasileira e aprofundaram as desigualdades sociais que nos impedem, até hoje, de progredir em direção a um mundo mais sustentável e justo.

Mas, como bem nos mostra Maria Victória Benevides, “Os empresários acreditavam que os militares agiriam como ‘restauradores da ordem’ e depois desalojariam o poder em seu benefício, no papel de eficientes “leões de chácara” das grandes finanças. O que, obviamente, não ocorreu”. Será que haverá uma reatualização da história em breve?

Ainda não é possível saber. O que se sabe é que, ao contrário do que pensam alguns intelectuais, essa conjunção entre empresários e grupos políticos para saquear a sociedade e o Estado está longe de ser uma jabuticaba. Em um certo sentido, as elites brasileiras estavam na vanguarda das mutações mais recentes do capitalismo global.

Em livro esclarecedor, publicado em 2016, com o título “Dinheiro Sombrio: a história secreta dos bilionários por trás da ascensão da direita radical”, a jornalista Jane Mayer revela, com detalhes, como os grandes empresários sequestraram a democracia para promover políticas públicas que só atendem aos seus próprios interesses. 

A autora descreve, logo no começo de seu livro, um encontro promovido pelos bilionário Charles e David Koch, em 2009, enquanto Barack Obama tomava posse como presidente dos Estados Unidos. A agenda do encontro, que reuniu um seleto grupo de bilionários e representantes políticos conservadores, era impedir que o novo presidente democrata, eleito em um clima de grandes expectativas, pudesse implementar políticas que contrariassem os interesses desses grandes capitalistas.

Charles e David Koch são donos da Koch Industries, a segunda maior companhia privada dos EUA que possui negócios envolvendo petróleo, carvão, produtos químicos e outros. Em 1980 David Koch concorreu à vice-presidência dos EUA pelo Partido Libertário, mas recebeu apenas 1% dos votos. Esse fracasso reforçou a ideia de que a forma de chegar ao poder seria promovendo intelectuais e políticos que apoiassem a sua agenda “anarco-totalitária”. Nas eleições de 2016, em que foi eleito Trump, o grupo Koch investiu 886 milhões de dólares em seus candidatos.

Com amplo apoio financeiro de diversos outros grupos econômicos, os irmão Koch aceleraram uma agenda ideológica que vinha sendo construída desde os anos 1970. Essa agenda propagava a ideia de um governo limitado, menos impostos, assistência social mínima, menos supervisão e regulação das atividades industriais, especialmente em relação ao meio ambiente.

Se achou tudo isso muito familiar, você não está confundindo, essa versão de um capitalismo sem freios é a mesma defendida pelo governo Trump e adaptada ao Brasil por setores empresariais, que podem estar representados por Dória, pelo Partido Novo, por Luciano Huck, por Nelson Teich ou mesmo Bolsonaro. A estratégia empresarial é fazer valer sua agenda, indireta ou diretamente, pouco importando quem estiver à frente do governo. Mas, por vezes, o interesse militar pode falar mais alto, ainda que ele não seja excludente em relação à agenda atualizada do capitalismo.

Ao tornar evidente a necessidade de políticas públicas e de um Estado organizado, a pandemia da Covid-19 colocou em xeque diversos elementos da ideologia do anarco-capitalismo, mas por si só não será suficiente para quebrar sua força discursiva e o poder político e econômico acumulado. No Brasil, em particular, nas últimas décadas empresários e grupos políticos locais descobriram como mobilizar a guerra ideológica e cultural para chegar ao poder.

Assim, a cultura do empreendedorismo, a celebração heroicizante de empresários do passado e do presente, a glamourização do risco e da precariedade abriram caminho para uma adesão inédita de novos setores sociais à falsa utopia do anarco-capitalismo. As grandes transformações no mundo do trabalho, com a expansão da terceirização e da gig-economy ou uberização, contribuiu para a ilusão de que somos todos capitalistas. De que o grande inimigo é o estado cobrador de impostos.

É apenas com a crise que o motorista de aplicativo pode descobrir que no fim das contas ele vai precisar do Estado, do SUS, do cheque de 600 reais etc. As relações precarizadas de trabalho geram a ilusão de não ter patrão. Na verdade, em um mundo em que no meio de uma grande crise estamos às vésperas ver o primeiro ser humano a acumular sozinho 1 trilhão de dólares, Jeff Bezos, da Amazon, é muitas vezes difícil experimentar individualmente a extensão das desigualdades e injustiças sociais.  

Esses grandes empresários, que os letrados da direita tentam transformar em grandes heróis, são, muitas vezes, herdeiros mimados, acostumados com todo tipo de ilegalidades e mamatas, que odeiam o Estado e a política sempre que se tornam forças que ameaçam seus interesses comerciais. Uma das estratégias desses homens é o segredo, o agir nas sombras enquanto os letrados e empresas que estão em suas listas de beneficiados fazem o debate público. Teich parece que fracassou nessa missão, pois há um obstáculo frente a essas ‘demandas’, a saber: o projeto de poder autoritário de Bolsonaro.

E, para efetivar esse projeto autoritário, pelo menos nesse momento, há um grupo com bastante experiência: os homens de farda, tendo as polícias militares como retaguarda, bem como as milícias digitais. Como se vê, olavismo e militarismo são as duas faces da mesma moeda. O artigo publicado ontem por Mourão deixa isso bem evidente. O serviço pode ser feito via golpe ou apenas assegurando a continuidade do governo. Enquanto isso, o governo é edificado em cima de milhões de cadáveres. O que também parece ser uma atualização negativa de um passado que não enfrentamos como se deveria.

Por outro lado, Bolsonaro precisa do apoio empresarial para se sustentar no poder. A atual dissociação entre capitalismo e democracia não significa que projetos autoritários, dentro, nas margens e fora da própria democracia, se sustenta apenas pela força, violência e por “pequenas maiorias”. É preciso apoio do grande capital e, também, dos “pequenos”, isto é, os precarizados: como barbeiros, donos de salão, motorista de uber etc. 

Há ainda esperança. A análise das redes e as pesquisas mostram que cada vez mais Bolsonaro perde apoio. A sociedade civil e os setores democráticos precisam reagir rápido e em meio à pandemia.  De todo modo, se Deus for mesmo brasileiro ele deve estar escutando Elis Regina cantar para ele:

Cai o rei de espadas

Cai o rei de ouros

Cai o rei de paus

Cai não fica nada

 

(*) Autores do livro Atualismo 1.0: como a ideia de atualização mudou o século XXI

Esse artigo contou com a colaboração de Mayra Marques, doutoranda em História pela UFOP

Continue Lendo
2 Comments

2 Comments

  1. Bernardo dos Santos melo

    16/05/20 at 3:01

    Jornalistas Livres , Avante !
    Juntos bateremos panelas contra o clã miliciano .

  2. Riler Scarpati

    16/05/20 at 13:42

    Muito bom. Foram meus professores.

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Geral

A satanização do Irã pela mídia ocidental, um processo em desconstrução

Publicadoo

em

Eduardo Nunes Campos*

Desde 1979, ano da Revolução Islâmica, o Irã e a sociedade iraniana são rotulados mundo afora como símbolos de terrorismo, de crueldade, de violência, de preconceito. Essa imagem foi sendo sistematicamente construída pelo mainstream ocidental, através das grandes mídias e do cinema, sobretudo a partir dos Estados Unidos e da Europa, em especial o Reino Unido, de seus aliados em outros continentes e dos vizinhos árabes da civilização persa.
Para além das mudanças internas promovidas pelas lideranças xiitas que assumiram o poder, o Irã, antes totalmente subjugado aos interesses dos Estados Unidos e da Inglaterra, tornou-se o país mais anti-imperialista do mundo, minando o poder do Império na Ásia Ocidental. A região passou a ser taxada de Oriente Médio a partir do final do século XIX, refletindo a visão eurocêntrica do continente, que se considerava a grande referência histórica e cultural do planeta.
O isolamento do país na região se expressa na criação do Conselho de Cooperação do Golfo, em 1981, constituído pela Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes, Kwait e Omã. O surgimento da instituição reflete a desconfiança desses países em relação à Revolução Islâmica, mas é instigado pelos Estados Unidos. Em 1980 emerge a “Doutrina Carter”, segundo a qual o país usaria força militar para defender seus interesses no Golfo Pérsico, mirando sobretudo o petróleo e em contraposição à invasão do Afeganistão pela União Soviética. A partir da chamada “Guerra do Golfo” (1990-1991), bases estadunidenses foram instaladas em todos os países do Conselho.

Irã Mall Foto: Eduardo Campos

A construção da imagem do Irã como um Estado terrorista contradiz sua história. Desde o final do século XVIII o país não ataca nenhum outro, a não ser revidando agressões sofridas. É oponente declarado das facções islâmicas extremistas e sectárias, como os salafistas, aos quais se vinculam o Al-Qaeda e o Estado Islâmico.
Essa falsa imagem do país forjada pelo Ocidente atingiu diretamente os iranianos, que passaram a ser vistos como um povo violento, atrasado e preconceituoso. A iranofobia é uma junção de estereótipos, xenofobia e islamofobia. O que a torna mais grave ainda é o fato de ter sido assimilada por parte expressiva do mundo progressista, em função da escassez ou mesmo da inexistência, até recentemente, de canais globais de alcance significativo capazes de fazer uma contraposição efetiva ao mainstream.
Ao contrário da visão propagandeada, os iranianos são muito inteligentes e cultos. Amantes das artes, são historicamente conhecidos por sua tapeçaria única, destacando-se também sua arquitetura, a poesia, a música, a caligrafia como arte visual e a produção de filmes excepcionais. Seu lazer inclui também a prática sistemática dos piqueniques envolvendo familiares e amigos.

Destaca-se ainda em sua cultura a celebração do Ano Novo, o Nowruz, que se inicia entre 20 e 21 de março, quando começa a primavera, e se estende por 13 dias. Na véspera da última quarta-feira do ano persa realiza-se um ritual de fogo por todo o país, chamado “Chaharshanbe Suri”, que tem origem no zoroastrismo. As pessoas acendem fogueiras em espaços abertos ao longo da noite e saltam sobre as chamas para se purificar e afastar o que de negativo aconteceu no ano que se passou e emanar energias positivas e saúde para o ano que se inicia.

Ritual de fogo “Chaharshanbe Suri” Foto: Eduardo Campos

A sociedade apresenta traços de modernidade que contrastam com outros de natureza conservadora. O homem é considerado o provedor da família e tem que oferecer um dote à mulher quando se casam, mas contingente significativo de mulheres já tem seu lugar no mercado de trabalho. As mulheres, a despeito das restrições que lhes são impostas pela República Islâmica, cujas normas têm forte componente machista, ocupam posição de relevo em várias áreas, constituindo cerca de 60% dos estudantes universitários do país, com destaque para sua presença nas áreas de Engenharia e Ciências.

O índice de natalidade é baixo e o de alfabetização próximo dos 90%, sendo de quase 100% entre os jovens. A taxa de divórcio é elevada, superior a 50% em algumas grandes cidades, sendo parte dessa taxa derivada da pressão da mulher sobre o marido para pagar o dote ou aceitar a separação. As taxas de feminicídio não são conhecidas, mas não há indícios de que sejam elevadas. A legislação, contudo, é leniente com o marido que mata a esposa quando o adultério é inequivocamente comprovado, sendo perdoado ou recebendo uma pena leve, pelo fato de a traição da mulher, e apenas dela, ser considerada crime contra a honra.
Um dado curioso é que, apesar de o aborto e a homossexualidade serem vedados, o Irã é um dos países do mundo em que mais se realizam cirurgias de mudança de gênero, parte das quais custeadas pelo Estado. Está também no topo das rinoplastias, cirurgias para remodelar o nariz, percebidas cotidianamente nas ruas de Teerã. Em sentido contrário, raramente se encontra no Irã um homem usando gravata, vista como símbolo de opressão e da influência imperialista ocidental.
Os iranianos são doces, acolhedores e generosos, talvez como nenhum outro povo em todo o planeta. Estrangeiros que visitam o país são frequentemente convidados para jantares e chás em suas casas e, por vezes, até mesmo a se hospedarem nelas. Tratamento especial é dispensado aos visitantes, quaisquer que sejam eles, parentes, amigos ou aqueles até então desconhecidos. São sempre servidos em primeiro lugar e alvos de permanente atenção dos anfitriões.
A origem dessa hospitalidade e simpatia está na cultura persa e se expressa em um gesto de cortesia conhecido como “taarof”. Quando uma pessoa oferece alguma coisa a outra a praxe é inicialmente ouvir um “não, obrigado” como resposta. Se ela insiste é uma demonstração de que não se trata de uma oferta retórica, mas efetiva. Esse gesto polido é comum até mesmo quando se tem que fazer um pagamento de uma compra ou serviço prestado, quando o credor costuma recusar o dinheiro na primeira tentativa de quitação da dívida.
Mas há um fator adicional à cultura persa que ajuda a entender a postura simpática dos iranianos em relação aos estrangeiros que visitam o país: a consciência de que são um povo estereotipado, hostilizado e objeto de profundo preconceito ao redor do mundo. Sentem-se todos extremamente injustiçados com a visão discriminatória de que são vítimas, sejam os apoiadores da República Islâmica sejam seus opositores, que concordam, em maior ou menor grau, com críticas dirigidas ao sistema de poder e não admitem ser confundidos com ele.
Nem tudo, entretanto, são flores na sociedade iraniana para os não nativos no país. Os árabes, com quem são confundidos com frequência, são alvos de um enorme preconceito, cuja origem remonta ao passado de ambas as civilizações. Pertencem a grupos étnicos, linguísticos e culturais distintas, sendo a maioria dos iranianos de origem persa, havendo também um contingente significativo de azeris e curdos e em menor grau de outras etnias. Essa diversidade inclui até mesmo árabes, que constituem cerca de 2% da população nativa.
Adicionam-se às diferenças históricas as religiosas e as disputas pela hegemonia da região. Os iranianos que professam o islamismo são adeptos da corrente xiita, enquanto a maioria dos países árabes são de maioria sunita, exceção feita ao Iraque e ao Bahrein. Há também zoroastristas, judeus e cristãos no país e um número expressivo de seculares e ateus nas camadas mais jovens.
A guerra em curso e a primeira ofensiva conjunta dos Estados Unidos e Israel contra o país, em junho de 2025, estão tendo um papel importante na desconstrução dessa falsa imagem do Irã e de seu povo. A mídia convencional do Ocidente já não consegue esconder que o Irã é a vítima e não o algoz, ainda que continue se esforçando para sustentar que, em última instância, o país é o responsável pelos conflitos na região, e não a aliança entre o Império e os sionistas.
A unidade dos iranianos contra as agressões de que são alvos é um outro fator importante de desmascaramento da mídia mainstream. Não se trata de ignorar as contradições do país, o descontentamento de parcela considerável da população com a República Islâmica, mas de defender a sua soberania e da compreensão majoritária de que cabe aos iranianos, e tão somente a eles, resolverem os seus problemas internos.
O expressivo fortalecimento da mídia alternativa tem também cumprido um papel de grande relevo nesse processo. Cresce significativamente o alcance de canais progressistas no youtube, a plataforma substack, os sites contra-hegemônicos. Não por acaso, recente pesquisa feita a partir dos Estados Unidos constatou que Israel é hoje o país mais odiado do planeta, além de ter perdido o apoio da maioria da população estadunidense, o que seria impensável até alguns anos atrás.
O resgate das enormes qualidades do povo iraniano, de sua inteligência, de sua sabedoria e de sua cultura não deve ser visto apenas como uma reparação das injustiças que contra ele têm sido cometidas ao longo das últimas décadas, mas como um aprendizado para os segmentos progressistas da sociedade mundial que se deixaram enganar pelas falácias da mídia convencional do Ocidente. Ao mesmo tempo é imprescindível reconhecer e valorizar as ações anti-imperialistas da República Islâmica do Irã, independentemente de diferenças culturais ou mesmo ideológicas que se possa ter com ela.

(*) Jornalista

Continue Lendo

Internacional

IRÃ: A GUERRA DAS CRIANÇAS

Irã se prepara para receber 20 milhões de peregrinos nas cerimônias de despedida do aiatolá Khamenei, que se iniciam na próxima sexta-feira (3)

Publicadoo

em

O Irã se prepara para uma colossal manifestação de unidade nacional a ser realizada durante as cerimônias fúnebres do aiatolá Ali Khamenei, que se iniciarão na próxima sexta-feira (3), quatro meses depois de seu assassinato, no dia 28 de fevereiro, o primeiro dia da guerra mais recente dos Estados Unidos e Israel contra o país persa. Há quatro meses, o presidente Donald Trump anunciava seu principal objetivo: derrubar a teocracia xiita, que governa o Irã desde a revolução islâmica de 1979, e se apossar das suas imensas reservas petrolíferas nacionais. Quatro meses depois, o Irã segue insubmisso já que logrou impor duras derrotas à coalizão EUA-Israel. E é nesse quadro, tendo conquistado um acordo de paz ainda frágil, que o Irã se organiza para receber estimados 20 milhões de peregrinos nas cerimônias fúnebres que homenagearão Ali Khamenei.

Uma pequena amostra desses preparativos foi o que os observadores brasileiros puderam testemunhar na noite de ontem, sob lua cheia e temperatura de 34 graus Celsius. Em uma praça no norte da capital Teerã, todas as noites desde o assassinato do dia 28 de fevereiro, se reúnem iranianos — a maioria deles praticantes da fé xiita — para homenagear o aiatolá Ali Khamenei, as 168 meninas com idades entre 7 e 12 anos, mortas por bombardeio americano no mesmo dia na escola primária feminina Shajareh Tayyebeh em Minab, no sul do Irã, e centenas de outras vítimas da guerra.

A delegação brasileira está hospedada em um hotel localizado a aproximadamente cem metros de um prédio que foi destruído por um bombardeio. As ruínas são visíveis. O clima nas ruas é de calma, mas de luto evidente. As cerimônias noturnas reúnem centenas de pessoas — e, em algumas cidades, milhares. Em Teerã, cidade de 10 milhões de habitantes, essas manifestações ocorrem simultaneamente em várias praças, espalhadas por vários bairros. Os participantes cantam, empunham bandeiras do Irã e choram abertamente. É impressionante o envolvimento das crianças iranianas nessas cerimônias.

O assassinato das 168 meninas na escola de Minab, gerou uma mobilização expressiva entre o público infantil. Na praça onde estive, crianças participavam da cerimônia: agitavam bandeiras, brincavam e cantavam músicas em homenagem às colegas mortas e ao líder supremo morto. “Podia ser eu”, disse um menino de 15 anos à reportagem, depois de sair com uma miniatura do drone Shahed-136, fabricado no Irã, arma de guerra “revolucionária”, segundo o comandante Robinson Farinazzo, da Marinha brasileira. Com um custo estimado entre US$ 20 mil e US$ 50 mil, o Shahed conseguiu confundir os sistemas de defesa dos EUA e esteve envolvido na derrubada de aeronaves norte-americanas e no ataque a navios cargueiros que se aventuraram pelo estreito de Ormuz, controlado pelo Irã. Cada miniatura do Shahed, impresso em 3D, e vendida na praça, saía pelo equivalente a US$ 3, mesmo preço da miniatura do míssil Fattah-1, outra jóia do arsenal iraniano, um míssil “hipersônico” que viaja em direção ao seu alvo a uma velocidade cinco vezes maior do que a velocidade do som (cerca, 6.100 km/hora). Os meninos adoram.

Segundo a organização do enterro, o corpo do aiatolá Khamenei, em caixão fechado, deixará Teerã nos próximos dias e percorrerá cidades do Irã e do Iraque (Najaf e Karbala), onde se encontram santuários sagrados do islamismo. O enterro ocorrerá no local que ele determinou em testamento.

Segundo a agência de notícias iraniana Fars, uma cerimônia de homenagem para líderes estrangeiros e autoridades de alto escalão está prevista para 3 de julho em Teerã. Cerimônias públicas de despedida estão marcadas para os dias 4 e 5 de julho no Imam Khomeini Mosalla, na capital. Uma procissão fúnebre em Teerã está agendada para 6 de julho. Outras cerimônias estão programadas para 7 de julho em Qom, 8 de julho em Najaf e Karbala, e 9 de julho em Mashhad, cidade no nordeste do Irã, terra natal de Khamenei. Ele será sepultado no Santuário do Imam Reza, um dos locais mais sagrados do Islã xiita.

Em tempo: estou usando véu, em sinal de respeito aos preceitos religiosos xiitas. Também me visto de forma respeitosa em relação dos preceitos religiosos quando compareço a cerimônias católicas, evangélicas, judaicas ou do candomblé.  Mas, andando pela cidade de Teerã, vi muitas (muitas mesmo) mulheres sem véu. Trata-se de um sinal evidente de distensão da norma.

Por Laura Capriglione é enviada especial a Teerã, para a TVT e Jornalistas Livres

Continue Lendo

Geral

O caso Mariana Ferrer, por Honoré de Balzac

Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.

Publicadoo

em

O caso Mariana Ferrer por Honoré de Balzac

Por Dirce Waltrick do Amarante*

Quando o escritor francês Honoré de Balzac teve acesso ao vídeo da audiência de Mariana Ferrer, ele decidiu escrever o Código dos homens honestos, isso nos idos de 1875, mas só agora estou tornando públicas suas palavras, que estavam sob segredo de justiça.  

Em uma análise bastante rigorosa, Balzac lembra, em primeiro lugar, que sabemos perfeitamente bem que “em princípio, ficou estabelecido que a justiça seria para todos, mas […]” . A tradução é de Léa Novaes, pois Balzac tinha dificuldade em escrever em português.

Dito isso, ele fala da figura do procurador. Em tempos idos, diz Balzac, os procuradores “levavam tão a sério o interesse de um cliente que chegavam a morrer por eles”. Além disso, eles “nunca frequentavam a sociedade”, e se a frequentassem eram vistos como “monstros”, mas hoje, “hoje tudo está monetarizado: já não se diz que Fulano foi nomeado procurador-geral, vai defender os interesses de sua província […]. Não, nada disso; o senhor Fulano acaba de conquistar um belo posto, procurador-geral, o que equivale a honorários de vinte mil francos […]”.

Balzac ia falar da figura do juiz e do defensor público, mas depois de tudo que assistiu ficou sem as palavras justas para descrevê-los.

Então, o escritor francês decidiu se debruçar sobre o papel do advogado, que “frequenta bailes, festas […] despreza tudo o que não é elegante”. E, diz Balzac, “Justiça seja feita aos advogados […]! São os decanos, os chefes, os santos, os deuses da arte de fazer fortuna com rapidez e com uma sagacidade que os torna merecedores de muitos elogios”.

Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.

Não citei na íntegra o texto do Balzac, porque foram esses os únicos fragmentos aos quais tive acesso, os outros foram apagados.  

*Formada em Direito, em 1992, na Universidade Federal de Santa Catarina

Continue Lendo

Trending