Mães da redução

 


O Capão de um dos meus escritores favoritos, Ferréz, tomava forma a cada estação que o trem avançava. Sempre por motivos festivos, era a segunda vez que eu me dirigia para lá, agora para o Festival Amanhecer Contra a Redução da Maioridade penal


Ainda no vagão, uma moça jovem, negra, de pele manchada pelo sol e vestes detonadas, pedia qualquer tipo de ajuda — sua mãe a abandonara, deixando dois irmãos mais novos em seus cuidados. Só que aquela história não era nova. Era uma narrativa infeliz, com final incerto, que as mulheres do meu povo tradicionalmente carregam como um fardo desde os tempos de escravidão.

 
Foto: Mídia NINJA

Durante os debates acalorados sobre a PEC 171, que tem como principal objetivo seguir negando cidadania e dignidade aos jovens negros periféricos , é muito comum ouvir que “educação vem de casa”. Aí eu me pergunto: que tipo de casa?

Casa de mulheres totalmente ignoradas pelo Estado e pela sociedade, que age confortavelmente destinando uma falha do poder público à vida privada, na qual a figura da sobrecarregada por todo tipo de responsabilidade é e sempre foi a mulher.

No sábado (15/08), muitas mães compareceram acompanhadas por seus filhos e pouquíssimas por seus pais.

Tive a oportunidade de conversar com algumas delas e, apesar do tema do festival, todas se posicionavam a favor da redução da maioridade penal, ressaltando todas as dificuldades que já passaram e que, mesmo assim, jamais pensaram em se enveredar pelo caminho do crime.

“É preciso ampliar o debate e a participação dessas mulheres, para que adquiram consciência crítica, pois são os seus filhos que estão correndo perigo e não os garotos das classes mais abastadas, que têm como pagar um bom advogado. Realizamos ações que visam essa inclusão, mas é evidente que precisamos de mais. Os universitários precisam ser mais presentes, voltar os olhos para a periferia.” Neide Abati, Presidente da União Popular de Mulheres do Campo Limpo e Adjacência.

Foto: Mídia NINJA

Pessoas que vivem em condições precárias e apoiam uma lei que vai à contramão de todas as conquistas do CONDECA (Conselho Estadual do Estatuto da Criança e do Adolescente), jogando para além do esquecimento a vida de milhares de jovens que só interessam aos senhores que lucram com a privatização dos presídios, mostram quão importantes são os nossos esforços. Neste momento, é urgente reforçar a importância do protagonismo dessas mães e empoderá-las para que cobrem satisfações a quem lhes deve: o Estado.

 

 

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