Salve Geral

A coluna “Café com muriçoca” é um espaço de compartilhamento literário dos Jornalistas Livres. Hoje a crônica “Salve geral” de Dinha

Quatro P não é só poder aquisitivo.
Poder para o povo preto tem que ser com equilíbrio
pra sacudir, pra abalar as bases do imperialismo

Clã Nordestino

Vai ver que é por isso, né não? que a gestão Paulo Maluf criou uma política pública de esterilização compulsória pra mulheres pobres – leia-se negras. O bichinho, eu soube que tá internado, vai morrer se sentindo frustrado por a gente parir tanto e a pretaiada brasileira já ser mais da metade da nossa população”

Salve, meu povo! Como vai essa força que andam sempre querendo tirar de nóis?

Num é? O sistema tenta, tenta sim… tenta muito. .. Mas cê vê como a gente ainda consegue se multiplicar? Nosso povo só aumenta, apesar das armadilhas e genocídios óbvios.

E, olha… por mais que eu também caminhe pelo vale da sombra da morte, sei que tu estás comigo. E assim como dizia o Sabotage, nóis é “tipo formiga, é o enxame, é a zika”.

Ou, ainda, como diria o Clã, e o saudoso Preto Ghóez, a “Peste Negra do nordeste continua sua marcha”.

Então nóis é tipo praga.

Mas também somos sementes. E a cada um de nós que cai, nascem outros quinhentos.

Vai ver que é por isso, né não? que a gestão Paulo Maluf criou uma política pública de esterilização compulsória pra mulheres pobres – leia-se negras.

O bichinho, eu soube que tá internado, vai morrer se sentindo frustrado por a gente parir tanto e a pretaiada brasileira já ser mais da metade da nossa população… e isso sem contar a pretitude não declarada.

É que no Brasil é assim, gente: vc se autodeclara pobre, pra casar sem ter dinheiro, se autodeclara preta, pra ter direito à reparação por meio de cotas, se autodeclara inocente, até que se prove o contrário… e é certo isso.

O problema é que se abrem brechas pra uns trouxas virem confundir nossa cabeça, misturando e igualando diversidade cultural à pobreza: como se fosse escolha nossa nos reunirmos em volta de fogueiras, à mercê dos pés-de-pato, ao invés de usar uma sala aquecida, ou com lareira pra socializar com as amizades …

Como se fosse escolha nossa se humilhar pra alcançar o que é nosso por direito e ter que conviver com panacas que se acham porque mamãe e papai podem pagar cursinho.

Mas eu chamei vocês aqui pra outra coisa.

Não sei se ceis viram. Ceis viram? o Salve geral que circulou essa semana?

Eram três vídeos curtos. Em dois deles tinha cenas de assalto praticados contra pessoas de aparência normal, tipo, pobre e trabalhadora.

Mas o terceiro continha só um símbolo em tons de cinza e aquela voz ridícula do Google, aquele baita zé povim, lendo um texto digitado.

A voz do Google dizia que o Salve Geral tava dado e que, quem fosse pego roubando pobre, ia se ver com os “disciplina”.

Meu primeiro Salve Geral foi em maio de 2006. Tava eu, Du, Tânia e Rodrigo no Sarau da Cooperifa. Foi lá que soubemos que a cidade tava parada, as cadeias caindo e os busão sendo queimado.

Naquela semana, que começou no dia 12 de maio, com ataques à polícia, agências de banco incendiadas e a retaliação das chacinas na quebrada, foi naquela semana que eu conheci o que era esse Salve.

Mas, voltando ao dessa semana, ninguém nunca sabe quando é que é de verdade, ou quando são os vermes, tentando usar a autoridade que o crime tem pra fazer o trampo que em tese era pra ser deles: prevenir e proteger.

Não acredita?

Digita nesse Zé povo do Google “policial ameaça chamar PCC”. Ceis vão ver vídeo de coxinha, fardado e tudo, ameaçando “levar pro debate”, em vez de pra delegacia…

Pode rir… seria mais cômico ainda se não fosse tão trágico.

Fora a proibição de roubar pobres, quem anda na favela também pode ver umas faixas enormes, toda furadinha, onde se lê:

PROIBIDO TIRAR GIRO E CHAMAR NO GRAU.

E, logo abaixo, a ameaça:

SUJEITO A CACETE.

O aviso é pra ver se acaba aquele bololô das motos, aquela barulheira horrível que tira todo mundo do sério, acorda criança e não deixa ninguém dormir.

Eu soube que teve gente que desacreditou… e ficou sujeito ao tal do cacete…

Verdade ou não, graças a Jah, faz uma cota que eu não ouço um bololô.

Mas deixa eu tomar meu café. Falei pra caramba já.

Até semana que vem.


Dinha (Maria Nilda de Carvalho Mota) é poeta, militante contra o racismo, editora independente e Pós Doutora em Literatura. É autora dos livros "De passagem mas não a passeio" (2006) e Maria do Povo (2019), entre outros.

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