Eu pensei que os livros nem existiam mais

A coluna “Café com Muriçoca” é um espaço de compartilhamento literário dos Jornalistas Livres. Hoje a crônica é de autoria de Jaiane Batista.

Maria Zé Povo dos Santos
constrói países e lidera famílias.
É por isso que ela anda
compenetrada
na vida.

Dinha – Maria do Povo

“Maria, eu te ouvi. Os livros ainda existem. Espero que você goste desses que separei pra você, que eles sejam capazes de te falar o que eu não tive coragem…”

Por Jaiane Batista

Estava no trabalho um dia desses, no horário de almoço, conversando com uma colega. A moça da limpeza (e eu já começo abrindo um parênteses, para explicar que eu sei que ela tem um nome, mas houve mudanças repetidas e, por alguma razão, fiquei com o nome da moça anterior na cabeça que, a propósito, se chama Vanderleia. Para tornar a narrativa mais pessoal, vou dar um nome a ela, junto com minhas desculpas, pelo lapso de memória. Vou recomeçar e chamar de Maria.)

Maria parou para conversar conosco. Ela estava cheia de dores e precisava parir, jogar pra fora as palavras que doíam tanto, que ela não suportou a dor do silêncio e quis que ouvíssemos o que estava sentindo. Ela relatou ter trabalhado em uma UTI durante um ano, com pacientes com covid-19. Enquanto narrava, com os olhos marejados, os casos que presenciou, pessoas desabafando com ela, sentindo a proximidade da morte, parecia que todos os nossos ouvidos, os meus, da minha colega e agora os seus, deveriam mesmo ouvir tudo aquilo e perceber a bolha em que vivemos.

Mas a princípio, a conversa não é para falar dessas dores que, mesmo assim, achei que deveriam ser ditas, já que ainda estavam sendo sentidas por ela. Eu quis chorar com ela, quis abraçar e dizer que as coisas vão ficar bem, mas eu não consegui, não tenho certeza disso e parecia errado prometer que, de repente, o mundo adotaria um céu cor de rosa e tudo ficaria bem.

Não me interprete mal, eu sei que as coisas vão melhorar e meu pessimismo não é crônico, mas parecia muito errado prometer isso.

Em meio às suas dores, Maria parou de falar, olhou para as estantes, cheias de livros e disse: eu pensei que os livros nem existiam mais.

Eu engoli em seco, até dei risada, achei que ela estivesse fazendo uma piada, talvez. Mas ela falou sério e continuou o desabafo: eu estudo e, por causa da pandemia, faço tudo pelo celular. Assisto às aulas, faço as lições de casa e é difícil, pois tenho que mudar de tela, que procurar os livros, que são todos pelo celular. Antigamente, eu recebia os livros para estudar, agora não recebo mais nenhum, por isso pensei que não existiam mais.

Os livros ainda existem. As dores de Maria não vão deixar de existir porque ela segurou um livro na mão e teve a oportunidade de aprender, mas, cada vez mais, os livros estão distantes da realidade dos pobres, cada vez mais  estão elitizados, cada vez mais distantes de fazer parte da educação e do cotidiano de pessoas que levantam tão cedo, vivem todo dia como se fosse o mesmo e pouco sabem de seus direitos.

Se Maria pensa assim, não deve ser um pensamento isolado. Os livros existem, eu mesma tenho muitos deles e quero sempre mais. Mas ao chegar em casa, olhei para as estantes, cheias. Os livros diversos me olharam e pareciam me julgar. Pareciam desempenhar bem o seu papel de me ensinar algo.

 Eu ouvi na minha cabeça, repetidamente, sobre o que Maria disse. Não o que saiu de sua boca, não o fato que ela acredita ser verdade, de que os livros não existem mais, mas eu te ouvi, Maria.

Queria que ela soubesse disso e, muito provavelmente, direi isso a ela, se tiver oportunidade: Maria, eu te ouvi. Os livros ainda existem. Espero que você goste desses que separei pra você, que eles sejam capazes de te falar o que eu não tive coragem, não por não querer, mas porque me faltaram palavras…. essas mesmas que hoje eu te entrego, na esperança de que você abra um desses livros e encontre ali, em suas páginas abarrotadas de esperança, um caminho para dentro de si, para que em algum momento, você também possa guiar outros passos, preencher os espaços vazios, cheios de Marias, cheios de dores, cheios de lágrimas, mas ainda com ausências tão importantes. Fique bem, Maria. As coisas vão melhorar. E quando sentir que não vai conseguir mais, abra um livro, não prometo que a dor vai passar, mas prometo que o que existe ali dentro, vai te fazer companhia e até enxugar suas lágrimas, coisa que eu não fui capaz de fazer.

Os livros ainda existem, Maria.


Jaiane Batista, 32 anos, natural de Nova Soure, Bahia, é escritora estreante. Mais sobre Jaiane CLIQUE AQUI
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Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornalistas Livres

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