Esse ano eu não morro

Um texto sobre Belchior, um poema inspirado em AmarElo e uma foto do Emicida em manifestação contra a morte de jovens pretos e periféricos. É tudo pra ontem.

“Exu matou um pássaro ontem com a pedra que só jogou hoje”

Quem ainda não assistiu AmarElo, não sabe o que está perdendo. Além de ser um documentário sensível e muito bem produzido, resgata histórias fundamentais para esses tempos de ressignificação de um mundo que ainda não é pós-pandemia.

O documentário está mexendo com muita gente. Um exemplo é o jornalista Kerison Lopes, que escreveu o texto abaixo sobre a importância do documentário e, claro, de Belchior. Outro é poema de Bruno Michelletti que aproveitamos para publicar nesse post.

Somos todos e todas elos nessa necessária corrente de amor e luta contra o fascismo e o retrocesso.

Emicida em evento das Mães de Maio na Praça da Sé, São Paulo, maio de 2015. Foto: www.mediaquatro.com. Veja matéria completa dessa foto em https://medium.com/jornalistas-livres/%C3%A9-a-m%C3%A3o-do-capit%C3%A3o-do-mato-que-est%C3%A1-atr%C3%A1s-de-cada-homem-fardado-c06645393e70

Sujeito de Sorte virou hino de uma geração

Por: Kerison Lopes – ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas MG e fundador do bloco carnavalesco “Volta Belchior”

“Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro”. O Theatro Municipal de São Paulo lotado entoa uníssono o verso que virou símbolo de uma geração. Era show do Emicida, que lançava seu novo trabalho: AmarElo. Transformado em documentário do Netflix, a emocionante cena está correndo o mundo. (veja trailer aqui https://www.youtube.com/watch?v=FQ9hCN0ZYSg)

Emicida poderia ter um verso seu como destaque daquela noite. Mas foi o trecho da música de Belchior que ecoou naquele coro de fãs. Talvez porque Sujeito de Sorte deixou de ser música e passou a ser hino. Antes de chegar naquele palco, ela tem sido cantada aos milhões Brasil afora.

Emicida foi contagiado pela onda da música e fez um sampler sobre a letra de Belchior. Mas eis que o cearense já tinha sampleado aquele verso de Zé Limeira, um violeiro negro e analfabeto que nasceu e viveu até 1954 em Teixeira, na Paraíba. Numa de suas obras, Zé Limeira, que ficou conhecido como Poeta do Absurdo, recitou:

Eu cantei lá no Recife
perto do Pronto Socorro:
ganhei duzentos mil-réis
comprei duzentos cachorro;
ano passado eu morri
mas esse ano eu não morro.

Aquelas palavras escritas no início do século passado foram incorporadas na letra de Sujeito de Sorte, no disco Alucinação de 1976. Agora, foi parar em Amarelo, onde Emicida as mistura com seus versos ao lado das cantoras Majur e Pablo Vittar. E o sucesso atual mostra que a frase foi escrita para os nossos dias.

A frase virou símbolo de uma forma de resistência, beirando resiliência. Passou a ser esculpida em tatuagens, camisetas, souvenirs, virou nome de bloco carnavalesco. O verso que virou grito ajudou a tornar Sujeito de Sorte um hino da nova geração. “As pessoas reconheceram nas palavras um tipo de urgência, uma exaltação à reação, à resistência”, me diz o jornalista Jotabê Medeiros, biógrafo de Belchior.

“As canções têm esse mistério. Por que ‘Pra não dizer que não falei das flores’, do Geraldo Vandré, foi um símbolo? Porque as pessoas quiseram que aquelas palavras representassem o que elas estavam sentindo. Acredito que Sujeito de Sorte tenha esse mesmo apelo”.

Apagada durante sua vida, a música virou hit depois da morte de Belchior. Aliás, arrisco-me a datar a sua redescoberta. Quando em 2016 criamos o Bloco Volta Belchior, ela nem estava entre as principais do repertório. Mas aos poucos foi crescendo, sendo pedida e hoje é a mais festejada. Esse tempo coincide com o período em que o Brasil entrou em decadência política, passando pelo golpe até chegar na fase sob o genocídio de Bolsonaro. Portanto, desde 2016 sonhamos em ter um ano melhor que o que se passou.

Para Jotabê, a música traz a mensagem de “decretar que esse ano você vai vencer. Que tudo que aconteceu de ruim ficou para trás. Ao mesmo tempo que ela é otimista, ela é realista em relação à brasilidade.”

Como estamos a poucos dias da virada, não existe verso mais apropriado para terminar o catastrófico 2020 no Brasil. Gritemos: Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro.

Bônus: poema inédito de Bruno Micheletti inspirado no documentário

Queria ter o dom desse Elo
de AmarElo com Mar e Rio
ou Mar ou Rio – Do Mário
de Andrade, aquele da preguiça
Brasileiro, herói, de mil características,
Aí, que preguiça!
Que segue, de sol ao sol
diariamente no trabalho
Mário que foi-é-será 300 e 350
Sou 300, Sou 350,
Porque Exu matou ontem,
o pássaro com a pedra que jogou hoje
Porque quando falo FU-TU-RO
a primeira sílaba já se perdeu no passado
Desse resgate necessário,
Para reviver Mineirinho, de Clarice,
Marielle, semente, para sempre um presente,
Mariguela, no filme à espreita da estreia.
Desse Brasil URGENTE
Que URGE tudo pra ontem,
AmarElo Emicida, obrigado
Que ninguém solte a mão de ninguém
para juntos impedirmos que consigam,

EleNão

Eles não possam,
Não passarão…
Nem matarão mais jacarés,
No reencontro, da festa pós vacina.
Para que nossas almas demorem para perseguir a lua do céu,
e que nosso corpo alcance a lua no mar
apenas para um alegre banhar.

Bruno Micheletti
21/12/2020

COMENTÁRIOS

POSTS RELACIONADOS

A POSSE, COMO CULTURA

Augusto Boal (in memoriam 2002) nos lembra a importância da ocupação das ruas e espaços públicos pela cultura. E por meio dela, transmitir pelos sentidos – e não só pela razão – a transformação de palavras e promessas.