Entre Missa e Copa existe sobrevivência

No último domingo, 17 de junho, faziam sete dias que meu pai, torcedor brasileiro, se foi. Era dia de estréia da Seleção Brasileira na Copa do Mundo

Ele era um daqueles torcedores fervorosos do futebol, porém, mais do que isso, era um trabalhador negro, brasileiro de esquerda, com fervor e emoção aplicados em demasia positiva toda vez que presenciava o campeonato mundial.

Embora eu e uma parcela considerável da esquerda ainda não tenhamos conseguido atingir, talvez, um tal “grau de evolução”, para vestir camisa verde e amarela, certamente meu pai, se estivesse aqui, jamais toparia a alternativa de vestir camisa vermelha só para ter um certo orgulho de não constar em sua história a marca de “parecer” um manifestoche. Essa fase ele já havia ultrapassado há tempos.

Para papai, torcer na Copa era momento de dizer que as cores verde, amarela, azul e branco eram dele, sim, e de quem se identificasse com a luta diária por um país menos desigual. Ainda mais seria em tempos tão duros – quando ele viveu para lutar nos debates, nas ruas e no Nordeste, onde vivia, contra a Ditadura por duas vezes, o impeachment de uma presidenta legitimamente eleita e a prisão do único ser que ele também chamava de “o cara”. Sobre esses dois últimos fatos, ele sempre falava: “minha filha, o que está acontecendo? Você que está aí em São Paulo, pode me explicar?”

Então, para relembrar os tantos encontros que fizemos em dias de Copa, com a casa cheia e a família reunida para assistir aos jogos, saímos da missa do 7o dia de seu falecimento com a leveza dos abraços, das palavras e das inúmeras formas de carinho que recebi dos amigos. Decidi fazer o que ele certamente faria se estivesse aqui, neste 17 de junho de 2018: ver a estréia da Seleção Brasileira na Copa do Mundo.

Estar com a família num local repleto por um misto de manifestoches, com gente de origem nordestina, roceira, gente da gente, não foi tarefa fácil. Mas foi ali que percebi que há beleza e racionalidade no luto.

No luto, mirar os olhos de um povo esperançoso pela vitória do Brasil é uma das maiores alegrias que a gente pode ter.

No único gol desse domingo, foi momento de me sentir carregada pelo meu pai; como ele sempre fazia para comemorar. Até a visão da chuva de papel picado eu tive. Deixe-me explicar: quando criança, nas semanas que antecediam os jogos, meu pai reunia na sala do apartamento os jornais velhos e nós cortávamos aquelas centenas de folhas, para depois, fazermos a tal chuva, pela janela do apê a cada gol do Brasil. Era época de uma CBF diferente da que temos hoje, ou talvez, éramos mais felizes e os paneleiros nem pensavam em existir. Tínhamos Sócrates, depois veio o Raí. Papai também me apresentou outros craques legais, daqueles, do jeito que a gente da esquerda gosta.

Hoje nós temos um Neymar, menino de origem pobre que se transformou numa das figuras mais bizarras do mundo capitalista; que joga truco e faz leque de nota de 100 reais para expor foto nas redes sociais. É, os tempos são outros e já não temos a mesma sorte. Difícil existir atletas preocupados em trazer a tão cobiçada taça só para que o povo fique feliz.

Há uma semana, meu pai assistia a bola rolar pelo Brasil, consciente de tudo isso, mas usava sua habilidade com as regras e as tabelas futebolísticas para debater política e golpe. Nos últimos tempos, mesmo doente, e embora de modo mais sútil, teve sucesso em muitas das vezes nos espaços por onde passava. Lugares muito parecidos com esse onde estive.

O jogo foi morno, mas a esperança que aprendi a enxergar pelos olhos do meu velho não morrerão. E das inúmeras lições que ficam, certamente a mais importante é essa da gente continuar fazendo o bom debate contra as desigualdades por mais vidas felizes. Quero muito continuar aqui por mais tempo para colocar em prática tudo o que um velho negro de esquerda lá do Nordeste me ensinou. E, quem sabe, encarar de novo um “local misto” para assistir a próxima partida do Brasil na Copa. Acredito que meu pai vai ficar orgulhoso e feliz de me ver fazendo uma das coisas que ele mais amava.

É tempo de renascer!

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