E o preto que se vire!

Por Ellen Moraes Senra

Estamos aí na luta diária, luta por direitos que nos são negados, luta por assistência que alguns dizem ser básica, mas eu prefiro a palavra essencial.

Não é fácil ser pobre no Brasil, mas ser pobre e favelado (opa, favelado é feio falar, né?) é pior ainda, pois se para o pobre falta poder aquisitivo para ter o que deseja ou ir a lugares específicos, ao favelado falta água, saneamento, proteção, água potável, assistência à saúde. Se o pobre é mal visto por ser pobre, ele se disfarça de classe média e vai embora, já o favelado carrega em si marcas que não o permitem ir além de certos limites.

Se o pobre tem direito ao isolamento, o favelado se isola do mundo, pois em sua casa muitas vezes tem um cômodo só, além do banheiro, onde é possível se acomodar, então, se um adoece, adoecem todos juntos.

Solidariedade?

Falta de opção, falta de cuidado, falta de respeito.

Sim, pois o favelado faz seus corres rezando para ter uma casa para voltar, enquanto a sociedade se queixa pois acha que merece mais.

Que precisa mais, que deve ter sempre mais, porém, não é para o favelado que o povo olha, não é para a favela que o mundo olha em tempos de crise, não é na favela que as pessoas agem, não é para a favela que o governo trabalha, pelo contrário, o favelado trabalha para nós, todos os dias, mas por suas vestes ou jeito de falar são discriminados, investigados, temidos, maltratados.

Quantas vezes você deu “Bom Dia” ao motoboy?

Quantas vezes você franziu o nariz para o trabalhador braçal após um dia na labuta, enquanto você vinha de um ar-condicionado para outro?

Quantas vezes você escondeu sua bolsa ao passar perto da favela?

Quantas vezes você deu “Bom Dia” ao motoboy?

Ah, mas o baile pode

Viva o baile funk, viva a favela, viva os “crias”, naquele momento quero ser “cria” também, mas só ali, naquelas horinhas em que desço do meu pedestal e subo a favela de moto, compro meu combo, danço a noite toda e mostro para o mundo através do meu celular caro.

Mas e quando acaba o baile?

Subo de volta na moto e dou as costas para o problema, pois eu subir está ok, o favelado descer, aí já não gosto não, é que esses não servem para se relacionar, namorar, apresentar para a família, esse serve para ser o amigo que me leva pro baile, mas, suave, ele sabe que o papel dele é esse e nem liga.

Liga sim!

Ele queria mais e você poderia ofertar mais do que sua companhia em noite de baile. Ele queria emprego digno, moradia digna. Ele queria não ser temido ou marginalizado. Ele queria os mesmos diretos que você, queria ser bem tratado e ter um teto para morar sem o receio de que ele pode não estar ainda no lugar quando voltar.

Ele queria ser visto, ele queria ser ouvido, enquanto isso, a vida para apenas pra você, pois ele, sim, o favelado, ele segue na luta, sem quarentena e sempre inserido num sistema, sistema de quem? Isso é você quem vai me dizer.

Menos hipocrisia, mais humanidade. Lute pelo povo de verdade!

Nota: Matéria originalmente escrita no Jornal Empoderado!

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