Da Bahia não via, vejo

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Quando pisei na Bahia tudo desdizia, pois só via exclusão. Não fosse Iemanjá, que vi sair das águas, voltava, retornava.

Mulher, lua cheia te anuncia. Doce delírio não me inspira ternura, mas a luta entre a cura e as doenças da alma.

Ah, Iemanjá, teus pretos e brancos que saúdam, por mais que doa e aprece. Te desejo para mente de presidente; que limpe, liberte, desvele olhos tão cegos.  Águas tão fartas afirmam, o sal, areia de Orixás e peixes, que de tão inteligentes, saltam, alimentam, querem sim mar com flores, país livre.

Iemanjá saindo das águas vi, visão coronária em meu peito, aorta, transes do corpo e horizonte mítico que persiste, não arreda. 

Jogaram flores nas águas, oferendas femininas, batom vermelho. Ouvi vozes doces em caras barbadas, toda delicadeza dos gestos, sagrado rigor, panos coloridos sobre as cabeças, velas acesas.

Iemanjá tem a arte, lhe amo como posso, faca, regaço, rainha das águas, nossa senhora que flore.

Baiano é um solo de martírios, entendo agora sem transcendências, apenas pó e chão, areia fina, projeto calado de águas e vento, beijo roubado, duras penas, Orixás e cangaceiros nos ombros, Caribé ou os Cravos.

Mulher das águas, tão nua, tão limpa, seus panos azuis e máscara que revela, não exclui, gira, afoga, asas na face tal borboleta que no Xingu revela, também água que une, formas obtusas.

imagens por helio carlos mello© e desenhos de Caribé©

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