Como atua a ONG Saúde e Alegria, acusada de envolvimento em incêndios florestais

Saúde e Alegria teve sua sede invadida, documentos e equipamentos apreendidos, por suposto envolvimento em investigação sobre os incêndios em Alter do Chão

O projeto Saúde e Alegria trabalha há mais de 30 anos na região de Santarém (PA) e entorno com as comunidades ribeirinhas, buscando soluções para o desenvolvimento sócio-ambiental da região. Na semana passada, eles foram reconhecidos como uma das 100 melhores ONGs atuantes no Brasil, mas o projeto acumula inúmeros prêmios e reconhecimento internacional.

O Dr. Eugenio Scannavino Neto, médico sanitarista e fundador do projeto, quando foi para a Amazônia na década de 1980, queria ser verdadeiramente útil e atuar numa das regiões mais carentes do Brasil: 

A estratégia de proteção da floresta tem que ser uma estratégia de proteção da população, de apoio social a essas comunidades. Constituir-se em guardiões desta floresta, este é o objetivo do Saúde Alegria.

(Eugenio Scannavino Neto)

A saúde do corpo e a alegria da alma

Nesta região do Oeste do Pará, o projeto atua junto às comunidades que ficam em reservas extrativistas e próximas a áreas de proteção ambiental. Seu território de atuação localiza-se às margens dos rios Amazonas, Arapiuns e Tapajós, e também na zona rural de Santarém, e dos distritos de Belterra e Aveiros. É uma região que, além das dificuldades de acesso, quase todo ele por rio, tem  principalmente dificuldade de acesso às políticas públicas. O projeto procura desenvolver as comunidades de maneira integrada trabalhando os eixos: 

  • Saúde;
  • Desenvolvimento Territorial;
  • Educação, cultura e comunicação, e 
  • Integração institucional

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Atenção básica em Saúde

A Saúde sempre foi um dos carros chefes do projeto. Entre diversas ações, destaca-se a criação de um modelo de atendimento fluvial. Ele era inicialmente era feito pelo barco do Saúde Alegria, que ia percorrendo as comunidades. Além do atendimento médico, as equipes do projeto montavam grupos de trabalho relacionados à organização comunitária, agro-florestal, comunicação e educação, sendo o Circo Mocorongo um dos principais instrumentos pedagógicos. Cada tema trabalhado também era encenado e elaborado de forma lúdica e coletiva. 

O projeto Unidade Móvel de Saúde – Navio “Abaré ” surgiu através dos modelos testados pelos projeto Saúde e Alegria, e representa mais uma das importantes conquistas, além de ser referência do Ministério da Saúde para aplicação de políticas e estratégias de atenção básica em toda região. Hoje são mais barcos atuando, que fazem parte de uma parceria pública com as prefeituras locais, universidade e organizações afins. Assista o vídeo do lançamento do Abaré II:

Saneamento também é uma questão fundamental para a saúde, e desde de 2004 o projeto tem patrocinado ações, como a instalação de 5 mil sanitários com fossas rústicas, distribuição de filtros de água para praticamente 100% das famílias, implantação de microssistemas de água encanada nos pólos maiores e a perfuração de poços semi-artesianos em localidades menores.

Isso, para mencionar só alguns dos eixos, por que o desenvolvimento integral promovido pelo Saúde Alegria, apoia também a autogestão, e ações em diversas áreas.  Saiba mais em http://www.saudeealegria.org.br/ 

Coletiva em Brasília no Fórum Permanente de Defesa da Amazônia 

Caetano Scannavino coordenador do projeto, estava nesta terça-feira 26.11.2019 em Brasília, exatamente para falar, em audiência pública da Câmara dos Deputados, na Comissão de Minas e Energia, de mais uma dessas áreas, em que o projeto enfrenta o desafio de fazer chegar a energia para as populações remotas da Amazônia.

Infelizmente, isso aconteceu no mesmo dia em que a sede do projeto foi invadida pela polícia civil, armada, que aprendeu equipamentos e documentos originais, sem que houvesse uma acusação formal. A polícia alegou que foi a título de investigação de um suposto envolvimento da ONG com quatro brigadistas, que foram presos preventivamente, por serem suspeitos de envolvimento nos incêndios que ocorreram em Alter do Chão, em setembro deste ano. 

Caetano descreveu a ação da polícia e protestou contra os termos vagos do mandado de busca e apreensão. dizendo que tratava-se de uma ordem genérico. Afirmou que, assim como outras ONGs, apoia e vai continuar apoiando os brigadistas de Alter do Chão, para somar esforços contra as queimadas e incêndios da região. Que as prestações de contas sempre foram públicas e que eles são frequentemente auditados. Citou um dos últimos prêmios recebidos pela Saúde e Alegria, exatamente uma certificação em gestão.  Veja o um trecho do vídeo da própria página deles no facebook:

No site do Saúde e Alegria também foi publicado um manifesto em apoio ao projeto com a assinatura de diversas entidades da região.

http://saudeealegria.org.br/redemocoronga/manifesto-de-apoio-ao-projeto-saude-alegria-psa/


Divulgamos também, ontem a nota dos Brigadistas de Alter do Chão em:

Nota de esclarecimento sobre a prisão arbitrária de brigadistas de Alter do Chão

A pressão sobre Alter do Chão já havia sido anunciada

Além da atuação séria, reconhecida e competente do Saúde e Alegria, na construção de novas tecnologias sociais, os coordenadores fazem denúncias frequentes em seu blog e nas redes sociais sobre descasos do poder público, como neste artigo que reproduzimos, que trata especificamente da exploração imobiliária e da pressão sobre a região de Alter do Chão, a mesma que foi atingida pelo incêndio.

Santarém sofre pressão para alterar plano diretor na marra, pondo em risco mais uma área de proteção ambiental

Atenção plena na alegria e na comunicação: um testemunho

Posso dar um testemunho pessoal porque em 1999 visitei quatro comunidades, da margem esquerda do rio Tapajós atendidas pelo projeto. Trabalhamos cerca de um mês com oficinas de comunicação com jovens da Rede Mocoronga de Comunicação. 

Mocorongo é o apelido de quem nasce em Santarém. O circo, a rádio, a TV e os jornais da rede fazem parte de um ecossistema de comunicação que promove a autonomia das populações, em especial dos jovens, na construção de suas próprias narrativas. Assista um dos exemplos neste vídeo: 

Quando participei das oficinas pude acompanhar a produção dos jornais feitos à mão nas comunidades, que eram xerocados e distribuídos para as outras comunidades e depois compilados no jornal mensal O Mocorongo.

Acompanhei neste breve período os desafios diários dos moradores dessas regiões e também a dedicação integral dos participantes do projeto. Aprendi com eles que a comunicação é capaz de transpor quase todas as barreiras, e também pode ser feita com quase nada, um pouco de vontade e muito amor. A experiência que vivi no Saúde Alegria é uma semente que frutifica até hoje, e os Jornalistas Livres são pra mim uma parte dela. 

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Um comentário
  • Maria Cicera mineiro da Silva
    27 novembro 2019 at 21:12
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    Existe uma perseguição a qualquer pessoa, ONGs ou instituições que defendam o bem-estar das pessoas e a permanência do verde neste País.

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