Carolina e Maria Firmina

A resenha de hoje apresenta os livros Onde estaes Felicidade?, de Carolina Maria de Jesus e Úrsula, de Maria Firmina dos Reis.
Carolina
Carolina Maria de Jesus e Maria Firmina dos Reis. Print de tela.

Procure saber que dá bom.

Bem vindes ao Café com Muriçoca.  Eis-me aqui ainda na missão de trazer literatura negra e periférica pra geral. 

Hoje eu decidi roubar um pouco, mas é por um bom motivo.  Prometo.

Os livros de hoje serão lançados no próximo sábado,  dia 11, no Museu das Favelas, e eu acho até maldade não convidar vocês, considerando que Vera Eunice de Jesus vai estar lá autografando exemplares do Onde estaes Felicidade?, de Carolina Maria de Jesus,  sua mãe.

Eu disse que ia roubar porque dos três livros que serão lançados nesse dia, no Museu, dois deles têm a minha mão na massa, porque  sou editora e organizadora do Onde estaes Felicidade? e vice presidenta da Estação Povoar – que é a editora responsável pela versão de Úrsula que vou apresentar a vocês no texto de hoje.

Na real, o evento vai ser um lançamento coletivo que inclui o livro lindíssimo “Punhais e bolinhos de chuva”,  de Evania Vieira (Selin Trovoar, 2022). “Punhais” tá na minha listinha de obras a resenhar. Qualquer dia, trago ela aqui pra vocês.

Onde estaes Felicidade? 

Isso é o que todo mundo quer saber. Tem gente que disse que sabe, mas aposto que era ilusão…

No ano de 2014, uma parceria entre as Edições Me Parió Revolução,  a Fundação Cultural Palmares, sobretudo na figura de Cidinha da Silva,  e a Ciclo Contínuo Editorial resultaram na primeira edição desta obra que é  marco absoluto no renascimento de Carolina para o cenário nacional e internacional. 

Era o ano do seu centenário de nascimento e então nos juntamos com a família para publicar uma obra inédita da autora. Dessa primeira versão, participaram muitíssimas pessoas, seja ajudando a financiar a obra, seja colaborando com textos teóricos e literários que revalidavam a importância da nossa querida vedete da favela.

Nesta segunda edição,  que comemora não mais seu centenário, mas sim uma década do aquilombamento das mulheres da Me Parió, mantivemos apenas os textos de autoria de Carolina, assim como sua ortografia apretuguesada e a seção de imagens de Sandrinha Alberti. Pra gente ler o texto da mestra e comparar a favela dela com a nossa, pensando no que mudou e no que segue nos oprimindo. 

Enfim, nele vocês vão encontrar o prefácio de Raffaella Fernandez, o conto que dá nome à obra – e que era um dos preferidos de Carolina,  segundo nos conta a dona Vera e, ainda, o relato intitulado “Favela”.

Neste último, Carolina nos conta de sua chegada à metrópole paulistana, e nós testemunhamos o nascimento da Favela de Canindé.  Uma das primeiras, da cidade.

Já no conto “Onde estaes Felicidade?”, temos uma Carolina menos documental e mais literária. O texto, ficcional, conta a história da busca do camponês José dos Anjos pela sua esposa, Felicidade. 

Deles, deixo um pequeno trecho com a grafia e dicção conforme constam nos manuscritos da autora, para que – se acaso duvidaram algum dia da potência dessa mulher –  nunca mais caiam no mesmo engano. 

Neste primeiro, José dos Anjos vai pela primeira vez à cidade grande, em busca da sua esposa desaparecida e, ao perguntar por ela, recebe como resposta apenas zombarias:

“Aquelas casas agrupadas, tantas gentes nas ruas. Muitas musicas. Ele atrapalhava porque não sabia ler. Pagou um menino para conduzi-lo ao hospício. Olhóu assustado para aquela casa enórme de vários andares e perguntou ao porteiro. _A Felicidade esta aqui? O pórteiro sórriu. Depôis ficou sério e respondeu-lhe: _Meu filho! A Felicidade nunca passóu pór aqui. Os que aqui residem são todos infelizes.

 -Ela ha de estar em outro hospício e eu, vóu procura-la. 

Ele se foi. Quando chegóu procurou o hospicio e perguntou ao porteiro: 

-O senhór pode fazer-me o favôr de dizer-me se Felicidade passóu por aqui? _

-Não! Não passóu por aqui.  Então o senhór esta procurandó a felicidade? Se o senhór encontra-la diz-lhe para vir visitar-me” (JESUS, 2022, p. 49)

Neste segundo, retirado de “Favela”, após ter sido intimada a ir à polícia por causa de desentendimentos com as vizinhas, uma Carolina altiva e insolente enfrenta o delegado:

“Eu recebia outra intimação. A Florenciana dizia vae Carolina. O delegado disse que vae mandar um carro de preso para te levar. Eu já estava cheia de ouvir o disse, disse. Fui e levei meus filhos. O Dr. Binidito de Carvalho Verás disse:

 – Quando eu lhe mandar chamar, venha! A senhora comigo não tem cartas. A senhora anda dizendo que tem cartas com a policia. 

– Tenho muito senso. Sou poetisa. E o poeta não diz futilidade. 

– A senhora é turbulenta, anda perturbando estas senhoras honestas. Sem vergonha! 

– O senhor é o primeiro homem no Brasil que me chama de sem vergonha. Sua fraca opinião não me abala.” (JESUS, 2022, p.94)

Úrsula, romance abolicionista

Maria Firmina dos Reis é, até o presente momento,  vista como a primeira romancista brasileira. Negra e abolicionista, chegou a ter sua imagem embranquecida, assim como Machado de Assis.

Nesse país,  não se concebe que pessoas negras, sobretudo mulheres, possam ser reconhecidas como grandes prodígios. Mas ela foi. E sobreviveu ao constante apagamento que atinge nossas mulheres e as populações negras e indígenas, em seus variados tipos de protagonismo.

Nóis é foda. Desculpem a expressão.  E por mais que a história de muitas de nós tenha sido sistematicamente ignorada, sempre tem gente como a pesquisadora Fernanda Miranda, por exemplo,  pra nos resgatar das garras dos projetos de genocídio contra nossos povos negros e originários. 

O romance Úrsula, publicado pela primeira vez em 1859,  conta a história de um casal formado a partir das desgraças dos traumas individuais e poderia ser considerado até trivial, com seu pé no Romantismo, se não contivesse também um Realismo altamente afiado, abolicionista e, sem dúvida, esteticamente relevante. 

Fica aí um trecho pra vocês, em que a personagem Susana relembra o sequestro, crime hediondo, do qual foi vítima:

“— Sim, para que estas lágrimas?!… Dizes bem! Elas são inúteis, meu Deus; mas é um tributo de saudade, que não posso deixar de render a tudo quanto me foi caro! Liberdade! Liberdade…  ah! Eu a gozei na minha mocidade! — continuou Susana com amargura — Túlio, meu filho, ninguém a gozou mais ampla, não houve mulher alguma mais ditosa do que eu. Tranquila no seio da felicidade, via despontar o sol rutilante e ardente do meu país, e louca de prazer a essa hora matinal, em que tudo aí respira amor, eu corria as descarnadas e arenosas praias, e aí, com minhas jovens companheiras, brincando alegres, com o sorriso nos lábios, a paz no coração, divagávamos em busca das mil conchinhas, que bordam as brancas areias daquelas vastas praias. Ah! Meu filho! Mais tarde deram-me em matrimônio a um homem, que amei como a luz dos meus olhos, e como penhor dessa união veio uma filha querida, em quem me revia, em quem tinha depositado todo o amor da minha alma: uma filha, que era minha vida, as minhas ambições, a minha suprema ventura, veio selar a nossa tão santa união. E esse país de minhas afeições, e esse esposo querido, e essa filha tão extremamente amada, ah Túlio! Tudo me obrigaram os bárbaros a deixar! Oh! Tudo, tudo até a própria liberdade! 

Estava extenuada de aflição, a dor era-lhe viva, e assoberbava-lhe o coração.

— Ah! Pelo céu! — exclamou o jovem negro, enternecido — Sim, pelo céu, para que essas recordações!?

— Não matam, meu filho. Se matassem, há muito que morrera, pois vivem comigo todas as horas.

Vou contar-te o meu cativeiro” (REIS, 2022, p.96)

Carolina e Maria Firmina, procure saber que dá bom. Print de tela.

Suas próprias conclusões

E se você acha que isso tudo é caô pra fazer propaganda do evento,  eu vou te pedir duas coisas. 

Primeiro: me dá um desconto aí, vai… porque todas as resenhas que fiz são propagandas para que vocês leiam autores e autoras negras e periféricas. 

Segundo: estar com Vera Eunice é uma oportunidade de ouro. Eu seria muito disgramenta, se não avisasse. Daí,  se você ainda duvida de algo,  cola lá e tira suas próprias conclusões. 

Bom domingo p’á nóis tudo.

Pra quem for no encontro de sábado, a gente se vê logo menos.


Dinha (Maria Nilda de Carvalho Mota) é poeta, militante contra o racismo, editora independente e Pós Doutora em Literatura. É autora dos livros "De passagem mas não a passeio" (2006) Zero a zero: 15 poemas contra o genocídio da população negra (2015) e Horas, Minutas y Segundas (2022), entre outros. 

Nas redes: @dinhamarianilda

LEIA TAMBÉM algumas das resenhas e crônicas anteriores:

Notas sobre a fome

Na medula do verbo

Café com Meritocracia

Eu queria ser boçal ainda

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornalistas Livres

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