Notas sobre a fome

O Café com Muriçoca de hoje traz uma resenha literária de "Notas sobre a fome", de Helena Silvestre, além de reflexões sobre a virada do ano no país e nas quebradas.
Helena Silvestre - Notas sobre a fome

Cumprindo as promessas que fiz, trago pro nosso Café com Muriçoca de ano novo Helena Silvestre. Tomo a liberdade, Helena querida, de escrever a nota a seguir pra nós, por nós, pra você.

Nota 31 – A fome ronda o ano bom

Em 2019, Helena Silvestre, intelectual periférica, militante de diversos movimentos sociais e artista cria do Sarau do Binho, publicou Notas sobre a fome (via selo do próprio Sarau, em parceria com a Ciclo Contínuo Editorial). 

É um livro de textos curtos, porém densos, como as pontadas que sentimos na boca da alma, quando acordamos bem cedo e o cheiro de café e pão não vêm do nosso fogo. O livro, no ano seguinte, foi um dos finalistas do Prêmio Jabuti – um dos mais importantes prêmios literários do país, mas do qual só podem participar escritores e escritoras que superaram a miséria mais absoluta e têm os mais de 300 contos pra pagar a inscrição, ou uma editora por trás de si. Helena tinha.

Mas, antes de ter essa condição, ela soube bem o sentido de ausência: de alimento, de moradia digna, de acesso à educação e até mesmo o não lugar que pessoas pretindígenas, ou amefricanas, como diria a grande Lélia González, ocupam, na sua não branquitude e não negritude indigenista. O projeto eugenista de branqueamento do nosso povo não eliminou a população negra, mas empalideceu peles e ampliou conflitos, gerando não-lugares entre os privilégios de não sermos homens e mulheres retintas, e o desprivilégio de também ocuparmos as favelas e termos os seguranças nos seguindo dentro dos comércios.

E por falar em conflitos, é entre contos, crônicas, poemas e pequenos ensaios, que Notas sobre a fome captura alguns monstros das histórias populares – os amazônicos lendários, como o Mapinguari, ou os pés-de-pato urbanos: justiceiros a mando do ciclope capitalista, caçadores de ativistas e de outras pessoas não plenamente ajustadas ao Sistema.

Helena traz pra sua obra a beleza do nosso povo, assim como nossas infâncias pobres, nossos desejos frustrados de doces, de frutas, de leite, de léguas de direitos violados e faz do objeto-livro o próprio Mapinguari: uma vez aberto, destrói certezas e nos devora.

Depois de muito ouvir falar de Helena, foi nesse ano de 2022 que nos encontramos pela primeira vez: duas mulheres negras, de peles pardas, ascendência indígena, intelectuais, militantes e de quebrada, com origens nordestinas. Foi como se, separadas por longas outras vidas, finalmente nossas almas tivessem se reencontrado nesta. Foi forte. Foi bom.

Mas o ano não.

O ano que nem precisava

Tirando esse e alguns outros pontos e encontros, 2023 poderia nem existir.

Esse não foi um ano bom, exceto porque um genocida saiu do poder e um novo presidente se elegeu – o que é um alívio, depois de tanto veneno. 

Foi um ano de fome e de doença – tanto que Helena publicou livro novo “Quem me dera quedas d’água”, ou “Notas sobre a Peste”. Quando terminar de ler, volto aqui e conto a vocês sobre ele. 

Pelé morreu, Elza morreu, Gal morreu, Isabel do Vôlei morreu, Boldrin, Jô… e a lista fúnebre é longa…

Na quebrada as coisas só pioraram. A peste, a fome e o desemprego encheram mais de pólvora o barril que é nosso coração periférico e as tretas aumentaram muito.

De outubro pra cá, um alívio chegou no Parque Bristol: um caminhão do Bom Prato Móvel- programa de combate à fome do governo do Estado – passou a estacionar diariamente, com 300 marmitas ao preço de um real cada. Pessoas acompanhadas de crianças com menos de 6 anos de idade tinham direito a duas – pelo valor de uma só. A previsão era de que ficasse por apenas 30 dias, mas, diante da mobilização da quebrada, o prazo foi estendido para 90. Foram três meses em que pessoas idosas, mães de família e jovens desamparados puderam se alimentar dignamente ao menos uma vez por dia, em vez de eles mesmos servirem de alimento ao ciclope assassino. Foram três meses sem ter que depender de salsicha, linguiça ou ovos como fontes de proteína, como disse minha amiga, Driely.

Meninas carregando marmitas
Meninas carregando marmitas no último dia do Bom Prato Móvel no Jd. São Savério.

Então, nesta última sexta-feira, o caminhão foi embora porque o Boqueirão – nossa quebrada vizinha – também tem mapinguaris, pés-de-pato e ciclopes comedores de povo. 

Pois então o ano virou e trouxe fome. Veio com derrota embrulhada pra presente, e uma crônica depressiva, sem graça e sem gosto.

Ano que vem vai ser melhor, te juro.

Vou me juntar com Helena e escrever umas “notas sobre a revolução”.

Se depender da força e do talento dela, o ano finalmente vai dar bom. Sente o drama da escrita da nega:

Nota 7: Só um golinho de café

Quarta carta

Eu não podia acreditar  no que estava ouvindo.

  • Como assim, amputaram a perna errada?
  • Assim, minha filha, não foi de outro jeito. Tá todo mundo revoltado, morrendo de pena… O Mardini é mesmo um açougue… Eu é que prefiro morrer do que ir parar naquele hospital.
  • Eu ainda não entendo. Queria conversar com ele.
  • Ele está em casa, né? Não sai porque na viela não passa cadeira de rodas. Então ele fica só dentro de casa.

Saí da cozinha e atravessei a sala azul onde Fidel Castro era vizinho de Jesus na mesma parede descascada e úmida.

As casas são mesmo muito assemelhadas. Certa penumbra de janela pouca sempre habita as paredes que são feitas encostadas nos barrancos onde só os engenheiros da fome podem construir.

Mesmo na pobreza, a casa é o santuário dos pobres e toda sorte de tecnomandinga são utilizadas para afastar as misérias para fora dos quintais. (SILVESTRE, 2019, p.41)

Simbora terminar a leitura?


Dinha (Maria Nilda de Carvalho Mota) é poeta, militante contra o racismo, editora independente e Pós Doutora em Literatura. É autora dos livros "De passagem mas não a passeio" (2006) Zero a zero: 15 poemas contra o genocídio da população negra (2015) e Horas, Minutas y Segundas (2022), entre outros. 

Nas redes: @dinhamarianilda

LEIA TAMBÉM algumas das crônicas anteriores:

Café com Meritocracia

Eu queria ser boçal ainda

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornalistas Livres

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