Bolsonaro em tarde de muita expectativa e poucos resultados

"Tenentão do povo" repete discurso feito em Brasíllia no ato de Copacabana e omite piada de mau gosto com a primeira dama
Manifestantes pró Bolsonaro pedem o fim do "STF Comunista". Foto: Bia Abramo
Manifestantes pró Bolsonaro pedem o fim do "STF Comunista". Foto: Bia Abramo

Rio de Janeiro, 14h. Copacabana verde-amarela espera o “capitão do povo” – Bolsonaro. Não são poucas as pessoas que enfrentam – ou se animam – com o sol forte e o calor, depois de dias cinzentos. Chegam em grupos, ade familiares ou de amigos & vizinhos – e, ao contrário do que se vê em manifestações de esquerda, descolados de identificação com categorias profissionais ou movimentos sociais ou filiação partidária. 

São mônadas grupais ou, no máximo, militância voluntária ou paga de candidatos locais ao Legislativo. Em comum, o verde-amarelo sarapintado de azul e branco, as cores da bandeira brasileira. Dentro desse código de cores, vale a criatividade, a malemolência e o poder aquisitivo dos manifestantes. Os poucos que fogem das cores pátrias ou bem desfilam com uniformes reais ou emulados de militares, de policiais – vários clones do personagem ficcional capitão Nascimento circulavam de preto dos pés à cabeça, com boinas bordô de lã –  ou bem são os deserdados de sempre, tentando fazer uma graninha vendendo cerveja, água, comidas de rua ou camisetas e adereços.

Mais cedo, a fala de campanha de Jair Bolsonaro, o presidente que tirou a faixa presidencial em data cívica & efeméride histórica para vestir a fantasia do candidato à reeleição no desfile das Forças Armadas em Brasília, animou ainda mais o bolsonarismo para sair às ruas engalanados com bandeiras e camisetas pirata da Seleção Brasileira de futebol. Do palanque na Esplanada dos Ministérios, o Jair candidato veio com novidades: em vez do confronto com  as instituições, ele surfou nas asserções genéricas sobre a pátria, Deus e a liberdade, mas retomou a sanha antipetista, com as tradicionais afirmações na base de mentiras, fake news e exageros retóricos: “Sabemos que temos pela frente uma luta do bem contra o mal. O mal que perdurou por 14 anos em nosso país, que quase quebrou a nossa pátria e que agora deseja voltar à cena do crime. Não voltarão. O povo está do nosso lado, o povo está do lado do bem, o povo sabe o que quer.”

O exagero retórico das asserções sobre a “vontade do povo” apontam para o desprezo  de Jair e de seu núcleo duro da campanha pelas pesquisas de opinião que registram uma distância ainda razoável do primeiro colocado nas pesquisas. A radicalização do discurso e a confrontação do Jair candidato, no entanto, sugerem que este menosprezo é apenas aparente, uma vez que  nos últimos dois meses, o Jair presidente não cuidou de outra coisa além de polir e direcionar seu arsenal para mirar os votos que lhe faltam para pelo menos levar o pleito ao segundo turno.

Deus, pátria e família. Foto: Bia Abramo

Para isso, além do pacote de bondades acertado com o Centrão, os canhões de Bolsonaro voltaram-se para aquilo que ele sabe fazer melhor – e que deu certo em 2018: a politização de um ressentimento difuso para o qual ele oferece um inimigo vago, ainda que facilmente identificável pelo  nome, símbolo e número e um caminho de redenção. A aposta  de um milhão de dólares – e única aposta real nesta campanha bolsonarista – é se isso ainda vai funcionar em 2022.

Por enquanto, Bolsonaro ainda acredita que sim, ainda que tendo de se adaptar ao fato de que ele precisa conquistar votos renitentes, o que, neste 7 de setembro, rendeu um momento histórico que fica entre a piada de mau gosto e o constrangimento, quando, depois de elogiar a primeira dama como “superior” à do adversário por seus atributos físicos e morais, puxou para si mesmo o coro de “imbrochável”.

E foi como o mito que acredita ser que Bolsonaro desembarcou na praia de Copacabana já mais ou menos exausta do sol no meio da tarde do feriado. O esquenta para sua chegada tinha mais do que os camelôs de sempre e o mar que não tem tamanho por companhia. Olhando para a extremidade da praia mais próxima do Forte de Copacabana, que assinala o limite com a praia do Arpoador, na direção da praia do Leme, vários carros de som e trios elétricos se alinhavam na avenida Atlântica. De um guindaste gigante, pendia um cabo de aço que tinha uma enorme  bandeira do Brasil pendurada num cabo de aço, tremulando o vento que soprava do oceano.

Na praia, não conseguíamos ver a zoada da motociata que se concentrou na praia do Flamengo. Por cima, aviões da Esquadrilha da Fumaça faziam manobras deixando riscos em verde, azul, amarelo e branco, fazendo crescer a expectativa pelo ápice de uma concentração cujo objetivo não se sabia qual que era: se era mais um grito, se era apenas mais uma exibição vulgar de patriotismo enferrujado ou se, finalmente, Bolsonaro iria dar a licença para matar, esfolar e perseguir os inimigos.

“Data Falha” é a nomenclatura dada por bolsonaristas ao Datafolha, o instituto de pesquisas do Grupo Folha. Foto: Bia Abramo

Nem uma coisa nem outra. Jair praticamente repetiu a mesma fala de Brasília, apenas num tom mais domado do que em Brasília, dado que a bravata machista para cima de Michelle a esta altura já era manchete, meme e, até, gancho para matéria de saúde sobre disfunção erétil em homens septuagenários, faixa de idade de Bolsonaro. No Rio de Janeiro, ele terceirizou a radicalização para o líder religioso Silas Malafaia, que esbravejou “o mal” personificando o mal no adversário do parceiro: “O Diabo é pai da mentira e Lula é seu filho único.”

Galvanizados por essa veemência de fancaria, do meio para o final da fala de Bolsonaro, a concentração nas proximidades do carro de som onde estava Bolsonaro e sua entourage começou a virar fluxo de saída. Afinal, todo mundo ali já tinha ouvido aquela mesma conversa nas redes sociais ou na televisão, já tinha tirado muitas selfies e, afinal, já se fazia tarde numa tarde de muita expectativa e poucos acontecimentos de grande monta.

Quando o palanque, enfim, se esvaziou, o que restava no ar, além de muita sujeira verde-amarela, eram os carros de som tocando a paródia de MC Reaça para “Baile de Favela” (funk de MC João/Kondzilla) com suas ofensas rasas e, aí sim, o verdadeiro espírito de porco do fascismo à brasileira: “Ele veio quente e hoje tá fervendo/ Quer desafiar? Não tô entendendo/ Pra votar Bolsonaro minha mão já tá tremendo/ Dou pra CUT pão com mortadela/ E pras feministas, ração na tigela/ As mina de direita são as top mais bela/  Enquanto as de esquerda tem mais pelo que cadela/ Bolsonaro salta de paraquedas/Bolsonaro, capitão da reserva/ E o Bolsonaro casou com a Cinderela”. Mas brocha.

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