Água contaminada é distribuída a população na bacia do rio doce

Foto: Danilo Candombe

Reportagem especial da cobertura da Marcha realizada pelo Movimento dos Atingidos por Barragens, um ano após a tragédia de Mariana (MG), que refaz o trajeto da lama de Regência (ES) até a barragem em Minas Gerais.

Foto: Lidyane Ponciano/ CUT Minas
Foto: Lidyane Ponciano/ CUT Minas

A pequena comunidade do Vale do Aço mineiro é uma das 11 cidades que continuam sendo abastecidas pela água do Rio Doce depois do rompimento da Barragem de Fundão em Novembro do ano passado. Situado as margens do rio, o vilarejo possuí uma estação de tratamento de água que supostamente a tornaria própria para consumo humano. No entanto, a população permanece receosa em relação a qualidade do que saí de suas torneiras.

Foto: Mídia NINJA
Foto: Mídia NINJA

“Olha minha mão!” exclama Sueli, mostrando as palmas descamadas pelo rejeito. Ela diz que só molha as mãos com a água do rio ao lavar suas roupas, mesmo assim isto já bastou para manchá-las. “Eu até já liguei há pouco tempo para a Samarco e o cara falou que a água aqui é potável. Eu disse para ele vir aqui e beber da minha torneira que eu quero ver.”

Todos da comunidade se recusam a beber a água ou usá-la no preparo de alimentos. E não é por menos, em Agosto deste ano, um laudo técnico do Ministério Público de Minas Gerais e Federal afirmou que a água distribuida em Governador Valadares – que utiliza o mesmo tratamento de Belo Oriente – é imprópria para o consumo devido a alta concentração de alumínio.

Adenilson, socorrista do Samu, de Governador Valadares, 40 anos, diz que mesmo depois de um ano a população que ele atende ainda sofre com os problemas de saude causados pela lama contaminada, principalmente os moradores perto do rio, que bebem a agua e tem diarreia. Foto: Maxwell Vilela/ Jornalistas Livres
Adenilson, socorrista do Samu, de Governador Valadares, 40 anos, diz que mesmo depois de um ano a população que ele atende ainda sofre com os problemas de saude causados pela lama contaminada, principalmente os moradores perto do rio, que bebem a agua e tem diarreia. Foto: Maxwell Vilela/ Jornalistas Livres

“Considerando que os rejeitos das barragens apresentam em sua composição elevadas concentrações deste metal, é bem possível que o alumínio tenha sido transportado ao longo do rio Doce, ocasionando alterações na composição química em diversos trechos deste curso d’água, conforme a direção dos ventos, os índices pluviométricos e a vazão do rio”, explica o documento.

A investigação acrescenta que o consumo desta água pode levar a sérios problemas de saúde: “Inúmeros estudos demonstram que a presença do alumínio na água, em concentrações superiores ao padrão de potabilidade, pode contribuir para o aparecimento de algumas doenças no organismo humano, tais como a osteoporose e doenças neurológicas e alterações neurocomportamentais, incluindo a encefalopatia, esclerose lateral amiotrófica, doença de Parkinson, demência dialítica e mal de Alzheimer”.

 

Foto: Maxwell Vilela/ Jornalistas Livres
Foto: Maxwell Vilela/ Jornalistas Livres

O governo dos municípios e de Minas, em conjunto da Samarco, argumentam que os rejeitos da Barragem de Fundão é inerte, não sendo tóxica. Segundo a mineradora, a lama derramada é constituída apenas de água, silica e minérios de ferro e manganês, que realmente não são danosos para a saúde humana. O tratamento de água, feito tanto em grandes cidades como Governador Valadares, com quase 300 mil habitantes, quanto pequenas comunidades como Cachoeira Escura, busca separar a água do barro, utilizando de agentes floculantes que combatem a turbidez do rio. De fato, o processo consegue dar uma aparência de pureza à água, que saí dos canos limpa e transparente.

Porém, este processo desconsidera a contaminação da água por lixo, esgoto e outros materiais que foram carregados pela corrente de lama. Substâncias que, apesar de não estarem inicialmente dentro da barragem, são altamente tóxicas ao ambiente e às pessoas. Mesmo cientes disto, o serviço público e a mineradora insiste em distribuir essa água contaminada a população.

Foto: Guiga Guimarães
Foto: Guiga Guimarães

Sem acreditar ingenuamente nas corporações, a população local improvisa para conseguir água potável.  A alternativa encontrada por Evangelista Luis é gastar suas reservas para construir um poço artesiano. Outra moradora da cidade, Dona Maria José Carvalho fez uma Mina D’água nos fundos de sua casa. Porém, os mais pobres, sem recursos para reformar o estoque de água de seus domicílios, ainda dependem de algumas bicas espalhadas pela cidade. Estas fontes funcionam por bombas manuais, sendo que a vazão também varia muito conforme as chuvas. Uma pessoa pode ficar horas enchendo garrafas pet ou baldes para conseguir prover sua família.

Foto: Guiga Guimarães
Foto: Guiga Guimarães

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