XUXA x MARLENE

Quem será que vence este duelo?

Por Antônio Isupério*

O duelo cibernético que só vence o patriarcado

Acabo de assistir o quarto episódio do documentário da Xuxa e estou pensativo. Nas redes sociais percebo que as discussões sobre a estrutura social dos anos 80/90 está sendo tratada de forma superficial. Existe um enredo onde o patriarcado se apresentava na época e não pode ser ignorado. Então, vim aqui transcrever as reflexões que acredito serem importantes partindo de um olhar interseccional de um homem negro periférico lgbt+ que estuda sobre estruturas sociais de opressão e que experimenta transpassar alguns pontos cegos desconsiderados. Não é um artigo de repostas mas sim de perguntas.

Um mundo governado por homens brancos cisgênero

Se é sabido que o mundo é patriarcal hoje, sobretudo nos domínios dos sistemas de comunicação, imaginemos nós naquela época e suas configurações de poder. O patriarcado, como sistema estruturante de poder, tem os seus limites muito rígidos. Esse dispositivo sofisticado de organização social só permite devaneios que favorecem a sua operação plena. E deste ponto de observação convido os leitores a questionarem o nascimento de duas mulheres que são duas figuras das mais emblemáticas da história da TV brasileira.

Não existe o desejo de vilania e/ou construção de uma narrativa angelical das personagem do título. O que existe, sim, é a perspicácia do descobrimento de camadas e vieses inconscientes da construção destes dois arquétipos como figuras públicas. Também irei explorar seus papéis sociais naquele determinado tempo e suas dinâmicas de representação.

XUXA, o arquétipo da branquitude

Uma mulher branca, loira e de olhos azuis no país mais negro do mundo fora da África. Não é possível mensurar os traumas gerados em toda uma geração de crianças quando existe um corpo desejado que representa essa ferramenta de supremacia. Essa figura sempre foi maior que a Xuxa como um indivíduo, e não faz sentido individualizar culpa na pessoa dela. Quem traça esse caminho esvazia todo aparelhamento complexo vigente. Xuxa era parte de uma mecanismo muito maior.

Vejam no vídeo abaixo, “as pessoas lá fora que acham que aqui só existe mulatas e negro nesse país, sabem hoje que existem loiros, loiros como muitos aqui de nós gaúchos.” Isso é o resumo de uma país construído na eugenia. Quando ela diz que era uma figura que momento pedia – que de fato era – , quem determinava estes critérios?

Sua imagem é uma figura simbólica de poder que carregava (e carrega) muitas camadas e a maioria delas de materialização da branquitude. Era a representação da supremacia, que em forma de rainha era a impressão do desejo construído no imaginário coletivo. É importante compreendemos que existiram políticas públicas deliberadas nesta construção. A Barbie viva. Um arquétipo que já era nocivo para o coletivo e ainda contava com seu “exército” de loiras para seu auxílio. Uma percepção de valor simbólico, para aquela época, destruidor de estimas de toda uma geração de pessoas negras, sobretudo de mulheres pretas. Justificar que as paquitas eram uma extensão da Xuxa (proferido por Marlene) é somente a reprodução do racismo puro e cruel.

As paquitas / imagens duvulgação

Mas Xuxa é uma mulher, e como grande quantidade das mulheres de nossa geração, foram submetidas a terríveis abusos de todas as formas, incluindo o graves abusos sexuais. Assim também como os cruéis abusos submetidos de sua então parceira profissional Marlene Mattos, que falaremos adiante. Esse recorte me lembra toda a historia de abusos vividos por Britney, onde percebemos que o privilégio das mulheres brancas vão até onde os limites que o patriarcado demarca. Observamos que sempre existem homens brancos cis capitalizando por trás destas dinâmicas de opressão.

Mas o que acredito ser importante é nos perguntar: A quem esse arquétipo operava? Por mais que estamos discorrendo sobre duas mulheres da alta liderança, elas não eram de fato o topo da cadeia e estavam em constante observação e controle. E é nas cabeças que sempre sempre devemos nos conduzir para encontrar as raízes do problema.

Marlene Mattos, uma mulher negra e lésbica

Existem muitas camadas na construção de uma pessoa como a Marlene naquele tempo e isso não pode ser desconsiderado. É desonestidade intelectual. Não existe nenhum interesse na conivência com relação aos abusos que cometera com a Xuxa. Mas o convite que faço é considerar todas as camadas de violência que constroem uma mulher negra lésbica em um Brasil que é o país mais homofóbico e racista do planeta, de acordo com sérios órgãos internacionais de direitos humanos. Por que não se considera as mazelas produzidas pelo racismo e lgbtfobia na construção de uma pessoa? A quem serve ignorar essas subjetividades?

A quem servia a Marlene abusar de Xuxa e explorar o trabalho, a vida, assim como também ela mesma era completamente esgotada em suas funções? Quem eram os diretores das gravadoras musicais, os diretores dos canais de televisão, os donos das agencias de publicidade e os reais capitalistas que abocanhavam na exploração de ambas? A quem servia a loucura de Marlene autorizar cirurgias não consentidas em Xuxa?

Essa dinâmica entre as duas encampam a esfera do individuo e não da coletividade. Xuxa tem todas as razões de requerer dignidade perante a violência e endereça-las. Entretanto, a demarcação da violência da Marlene como mulher negra e lésbicas em uma situação de poder abusando de uma mulher branca não é representativa quando mapeamos as estruturas sociais e os gráficos e isso deve ser compreendido. Esse caso é, sim, grave, mas é uma exceção à regra.

Marlene era uma mulher que apresentava resultados constantes e relevantes. Será que teria permanecido em seu posto se não reproduzisse um estereótipo de masculinidade? A quem servia esse papel de gênero? Acredito que se não formos às reais raízes das questões ficaremos sempre criando antagonistas nas superfícies dos fatos.

A quem esse sistema operava?

Como o documentário não deixa muito claro quem eram o grandes beneficiários, vou me reduzir a trazer provocações a dois personagem que estão envolvidos com o documentário. Pedro Bial e Boni.

Será que se Boni tivesse sido responsabilizado por ter manipulado as primeiras eleições pós ditadura teríamos gerações de seus descendentes na TV brasileira? Como seria o Brasil se Lula tivesse sido eleito sem ter que fazer alianças posteriores com o PMDB? A que serve a aparição de idoso “enfofecido” neste documentário de amplo veiculação nacional?

Será que se Bial fosse responsabilizado pelo antiprofissionalismo ao tecer perguntas extremamente machistas e racistas, como ao perguntar a Roberto Carlos se tinha perdido a virgindade com uma prostituta ou empregada doméstica? Se todos os homens brancos de alta liderança foram responsabilizados pelo que fizeram, como seriam as configurações de poder no mundo hoje?

A quem serve o enfraquecimento da reputação de ambas? Quem era o chefe da Marlene? Marlene tinha todas esta autonomia da Rede Globo? Vemos no Documentário que a Globo abria várias exceções para Xuxa, mas será que Marlene recebia o mesmo tratamento? Ou será que acontece como vemos comumente nas empresas que possuem um intermediário para nos cobrar a métricas desumanas, enquanto os barões ficam de bons moços e de bolsos cheios? Marlene tem a renda compatível com os lucros que gerava? Ficaremos com todas estas questões em aberto.

Um país extremante conservador como os Estados Unidos teve o ex-diretor da Fox News (Roger Alias) e membro do partido republicano acusado de assédio sexual por duas décadas. O que saberíamos se as caixa de pandora dos poderosos brasileiros fossem abertas? Vocês perceberam como as vivências absolutamente complexas de duas mulheres com histórico de violência são destrinchadas quando os homens posam de fofos, historicamente profissionais e ilibados?

A rivalidade feminina segue firme, sendo reconstruída a cada produto criado pela mídia, ao passo que que repertórios angelicais mascaram o envelhecimento dos homens brancos.

Nem Xuxa e nem Marlene Mattos seguem as mesmas nitidamente, mas, as atualizações do patriarcado seguem produzindo as suas últimas versões antes do declínio. Porém, existem reputações protegidas para serem enterradas antes dele. Fiquemos atentos às reais cabeças, porque não teremos documentários produzidos sobre eles.

(*) Antonio Isuperio é arquiteto brasileiro, negro, periférico, lgbt+ que mora em New York. Ativista de direitos humanos por quase 15 anos, é filho de empregada doméstica e graduado em Arquitetura pela Universidade Estadual de Goiás, com MBA em varejo pela FGV-SP. É especialista em Design de Varejo e pesquisa e tendências de futuro e membro do Núcleo Negro do Jornalistas Livres

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornalistas Livres

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