Viva o jornalismo econômico!

Qual é o efeito da taxa de juros na atividade econômica e no emprego? Taxas mais altas prejudicam o crescimento e aumentam o desemprego. Procure em qualquer manual de economia e é isso que encontrará. Não é por outro motivo que, desde o início da crise de 2008, EUA e UE praticam taxas próximas de zero. Mas no Brasil…

O presidente do Banco Central sinalizou ontem (28/06) que manterá a taxa de juros em 14,25% ao ano por período maior do que o esperado. O Jornal Valor Econômico, os, apressou-se em tranquilizar a nação e, em artigo de primeira página, Novo discurso do BC adia início da queda dos juros, afirmou que isso não afetará a retomada do crescimento.

Quais são as previsões do próprio boletim Focus divulgado pelo BC? A inflação prevista para os próximos 12 meses é 6%. Se a taxa de juros básica é 14,25% ao ano, o ganho acima da inflação (ganho real) para quem aplica em títulos do governo indexados à taxa básica é 8% ao ano.

O artigo do Valor admite que a taxa é absurdamente alta, e comete um errinho na conta: “O juro real (descontada a inflação) também deve se manter entre os mais altos do planeta, em 6% ao ano.”

Imagine que você tem recursos para investir em um negócio. Você olha para a previsão de crescimento do país e descobre que os economistas acham que o PIB vai cair 3,4%. Daí, você olha para taxa de juros, percebe que pode ganhar 8% acima da inflação. Sem risco e com liquidez, pois pode vender os títulos a qualquer momento se mudar de ideia. O que você decide?

meio

Ilan Goldfajn, presidente do BC, diz que assim a inflação irá mais rapidamente para o centro da meta e com “menos custos”. Os economistas de bancos e administradoras de recursos vibram e dizem que ele está sendo cauteloso e conservador. E dane-se o emprego. O juro real nesse nível sacia plenamente a voracidade do mercado financeiro. Só o governo Federal paga ao redor de 600 bilhões de reais por ano de juros. É muita grana para a gente ainda ter que se preocupar com o emprego, não é?

Todos os países desenvolvidos do mundo, na iminência de recessão, baixam os juros. No Brasil, a taxa é aumentada, mantida por longo tempo. O Valor até concorda que o mundo caminha no sentido contrário: “A tendência brasileira é contrária à do ambiente global.” Segue o artigo dizendo que a saída do Reino Unido da União Europeia deve provocar a queda de taxas de juros na Europa e que o Fed, banco central norte-americano, pode estancar seu movimento de alta de taxas.

No entanto, não precisamos nos preocupar muito, pois: “A provável manutenção dos juros em 14,25% ao ano no Brasil pelo menos até outubro terá pequeno impacto sobre a atividade econômica, segundo analistas.” O Brasil manter a maior taxa de juros real do planeta não é um grande problema, não é mesmo?

O incrível artigo é encerrado com a pérola: “O novo discurso do BC, portanto, não comprometeria a retomada da economia, que começa a aparecer nos indicadores de confiança, principalmente na indústria.”

ilustrações Joana Brasileiro

O jornal e os jornalistas contam com a vantagem de que, daqui a duas semanas, ninguém se lembrará do que foi dito. A certeza de que agora estamos em boas mãos, por outro lado, permanecerá por período um pouco maior. Torçamos para que a peripécia não tenha custado um mau jeito na coluna.

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