Tremei portugueses, os brasileiros estão chegando!

Dinheiro injetado no mercado imobiliário português antecipa a chegada de uma cultura violenta, desmedida e que, em médio e longo prazos, irá se infiltrar na estrutura de Estado
MintPress News/Reprodução

Por Homero Gottardello, jornalista

A crise desmedida pela qual o Brasil passa e que, muito em breve, pode respingar nos portugueses, não advém só de fatores políticos, de um processo de desindustrialização, de uma orientação econômica neoliberal, da decadência moral ou do avanço da pobreza no hemisfério Sul. A crise que se aproxima da inconversão é fruto do empobrecimento cultural, da inanição intelectual que acomete a esmagadora maioria da população brasileira e que avançou na velocidade da luz, na última década.

O mundo ainda tem uma visão romântica do país, um olhar complacente que foi influenciado pelo livro “Brasil, País do Futuro”, escrito por Stefan Zweig no final dos anos 30 do século passado. Trata-se de uma obra de cunho ufanista, que enaltece as virtudes que, à época, o autor – um judeu-austríaco que fugiu do nazismo e se radicou no Rio de Janeiro – enxergou em uma nação ainda estranha para o mundo desenvolvido, cercada de exotismo, mas que, hoje, não encontra o menor fundamento.
O brasileiro se firmou, nas duas últimas décadas, como um povo violento, corrupto, impolido e que, quando pode, foge de si mesmo. A elite rastaquera – do francês “rastaquoére”, que remete aos estrangeiros que vivem à grande, com rendimentos de origem suspeita – está, agora, fazendo o caminho inverso de Cabral, gastando parte de sua dinheirama em imóveis lisboetas, para garantir uma distância de segurança em relação ao Brasil, sem ter que cortar o cordão umbilical que nutre suas contas bancárias.

Os portugueses, desavisadamente, não fazem ideia do perigo que correm, do estrago que, em muito ponto tempo, essa aristocracia tupiniquim fará em sua terra. Infelizmente, os portugueses desconhecem por completo o poder de destruição dos fidalgos brasileiros, bem como as formas pouco republicanas que usam para invadir, tomar e dizimar a estrutura de Estado.
Esta gravíssima ameaça pode ser atestada, quando confrontamos as impressões de Zweig com a situação que o Brasil atravessa, hoje, contrapondo as perspectivas do autor com a inegável realidade que, não à toa, motiva o êxodo daqueles que têm condições de fugir. Zweig afirmava “gozar”, no país, da “segurança da paz”, o que é compreensível para quem fugira de um dos mais violentos teatros de operações da Segunda Guerra Mundial. Mas o Brasil está longe de ser um lugar seguro e pacífico. Ao contrário, foram registrados mais de 65 mil homicídios no país, em 2017, e no ano passado, em plena pandemia, as vendas de armas de fogo cresceram 120%. Em 2020, o Brasil registrou 181 estupros por dia – um ano antes, em 2019, o país registrou um estupro a cada oito minutos.
Estes são números oficiais do Anuário Brasileiro de Segurança Pública e do Datasus, do Ministério da Saúde. Sabe-se, no entanto, que as próprias dimensões continentais do país, bem como a precaríssima estrutura de Estado nas regiões de menor densidade demográfica, acarretam a subnotificação destes números que, na prática, são ainda mais alarmantes.
Zweig também alardeou as riquezas naturais brasileiras, seu “solo opulento e intacto, do qual apenas a milésima parte foi explorada”. O autor, se estivesse vivo, ficaria alarmado com a degradação ambiental que se seguiu, em apenas oito décadas. Nem a pandemia impediu que, em 2020, o Brasil registrasse um recorde no desmatamento da Amazônia, que cresceu 30% em relação ao período anterior. Mais de 8 mil quilômetros de área verde da floresta, simplesmente, desapareceram. É como se todo o “Baixo Alentejo” fosse reduzido a pasto para a pecuária, em 12 meses. Hoje, só Filipinas e África do Sul ficam atrás do país, como os três últimos colocados de um ranking (global) ambiental, social e anticorrupção.
E é exatamente essa mentalidade que aporta em Portugal, aquecendo o mercado imobiliário naquilo que, em princípio, parece ser um bem-vindo aporte para a economia local.

Oscar Pereira da Silva retratou em 1904 o desembarque de Cabral na região de Porto Seguro. Agora o desembarque se dá em Portugal

Religião

O que os portugueses sequer desconfiam é que, assim que firmar o pé em solo europeu, a “elite” brasileira vai implementar, na terra de Camões, seu modelo de negócio no próprio setor imobiliário. No Brasil, a Lei 8.245, de 1991 (a Lei dos Aluguéis) é omissa quanto ao índice de reajuste anual, deixando para o mercado a escolha de um indexador. Só nos últimos três anos, os reajustes chegaram a 30% e não há o que os inquilinos possam fazer, além de procurar a Justiça – que, no país, não é gratuita para toda a população e, quando o assunto é moradia, impõe custos para o reclamante. Não há que se esperar nada diferente da rapinagem, quando legisladores “made in Brazil” conseguirem vaga na Assembléia da República – o que não será difícil, a médio e longo prazos, para quem possui a “expertise” política brasileira.
A tolerância religiosa também foi pintada em cores de uma aquarela por Zweig, que viu na “gente de boa índole, a religião indissoluvelmente presa a alegria”. A morte prematura – Zweig suicidou, em 1942 – livrou o autor da visão cataclísmica do avanço das igrejas neopentecostais que, no Brasil, são uma espécie de versão ainda mais odienta das seitas cristãs norte-americanas. Parece mentira, mas já existem igrejas evangélicas que controlam o tráfico de drogas, nas favelas do Rio de Janeiro. Ou seja, não bastasse a forma absurda com que estas verdadeiras quadrilhas extorquem dinheiro dos fiéis, algumas delas vêm se juntando ao crime organizado para acobertar ilegalidades das mais variadas, do comércio de cocaína e crack à venda de áreas públicas e construção de imóveis (prédios com até cinco andares) em terrenos invadidos.
Portugal é um país pequeno, diante da extensão do Brasil, e sua população é menor que a das regiões metropolitanas de São Paulo e do Rio de Janeiro. A mudança de 10 mil, 15 mil brasileiros para Portugal, o que seria muito fácil de vir a ocorrer, se uma guerra civil eclodisse no país, representaria uma verdadeira invasão. E isso não é difícil de ocorrer, até porque os brasileiros já respondem pela aquisição de 20% dos imóveis portugueses vendidos a estrangeiros. É preciso, urgentemente, se dar conta de que a “elite” brasileira que ameaça aportar em Portugal não é formada por um substrato diferente do que compõem as estatísticas acima. É um povo descomedido, hostil e indomesticável – só que com dinheiro para gastar.
Ignorar o risco de sua chegada e deixar de impor limites, preventivos, a essa horda é o mesmo que entregar uma sociedade e sua cultura milenar à barbárie. E que ninguém espere nada diferente disso…

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornalistas Livres

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