Teatro com recorte político em tempos de golpe

Razão Social, peça de Gero Camilo. Foto: Raquel Wandlli

Por Raquel Wandelli, para os Jornalistas Livres

“Desde que o samba é samba, desde que o golpe é golpe”, como diz a letra criada por Gero Camilo para o final da peça “Razão Social”, a música popular brasileira está ligada a um histórico de opressão e resistência. E se é verdade que o poético escapa ao ideológico, é verdade também que, nos tempos de hoje, a estética está como nunca implicada nas questões políticas. Isso explica a reação quase apoteótica do público no encerramento do espetáculo, quando os atores provocam um uníssono “Fora Temer” ao percorrerem a plateia cantando esse samba que escancara a atualidade do Golpe de 64.

 

A peça de Camilo Gero, que encerrou no domingo, 22/1 sua última apresentação no SESC Bom Retiro é, por si só, um gesto de resistência e de exaltação ao samba. Desde o golpe de 64, como mostra o enredo, o samba foi duramente golpeado por uma cultura imposta que tenta separar o povo brasileiro da expressão artística mais forte e significativa da cultura popular. E se os maiores talentos do samba estavam acima dos discursos ideológicos, não ficaram à parte das consequências devastadoras do golpe sobre a cultura popular e seus atores sociais, na maioria negros e pobres moradores dos morros, como Cartola. Fatalmente o samba foi engajado pela própria história nas grandes lutas contra a ditadura e resistiu, tornando-se hoje uma voz de resistência que o novo golpe não poderá calar,  como explica o diretor nesta entrevista concedida após a apresentação de domingo.

Não se pode dizer que o enredo esteja em função do musical, preponderante na execucão ao vivo de sambas memoráveis que a plateia cantarola junto com os atores-músicos. Nem, ao contrário, que as músicas estejam subjugadas à história, pois ambos são imbricados como forma e fundo, como o ético e o estético também o são na história cultural do Brasil. A casa de Cartola (Adolfo Moura) e de sua mulher Dona Zica (Fabiana Cozza), é cenário da ebulição da produção criativa dos anos 60, onde convivem Carlos Cachaça, Nara Leão, Zé Keti, entre outros artistas. Esse paraíso musical acaba sendo o esconderijo de um militante estudantil (Juscelino, vivido por Victor Mendes) e de um operário (Sabino, vivido por Gero) após o incêndio e ataque da ONU pela repressão. Simbolizando a aliança e a comunhão entre o intelectual e o trabalhador na arte e na política, o palco é o encontro dessas duas dimensões celebradas em sambas como “O sol nascerá” e outras maravilhas resultantes da reunião de talentos inestimáveis num país sempre ameaçado pela miséria dos colonizadores e do autoritarismo.

“Razão Social” entrará em cartaz nas próximas semanas em outro teatro do Sesc, com uma programação indefinida ainda. “Vamos dar continuidade e resistir até onde for possível”, sinaliza Gero.

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