Surpresa com ladrão branco desvela o racismo estrutural brasileiro

Assombro com a prisão de um rapazola alourado, evidencia preconceito medular de uma sociedade: expectativa era de que verdadeiro larápio de bicicletas fosse outro negro
Igor já havia sido preso sete vezes por furtos - Reprodução de TV

Por Homero Gottardello, jornalista

É realmente uma pena que Sigmund Freud não tenha vivido até hoje, para ver o assombro com que muitos brasileiros receberam a notícia de que o verdadeiro ladrão de bicicletas do Leblon, no Rio, é um rapaz branco – aliás, branquíssimo. O médico austríaco, considerado o “criador da psicanálise”, iria se deleitar com o estudo de uma sociedade que, ao se espantar da forma que se espantou, revela seu racismo estrutural sem perceber, sem se dar conta do verdadeiro “ato falho coletivo”.

É que por trás da surpresa há uma verdade desconcertante: esperava-se que o ladrão fosse outro negro, jamais um branco. Presumia-se que fosse um traficante, um trombadinha ou um “noiado” qualquer – tudo, menos um rapazola alourado, um cidadão de bem ou um policial militar. Contanto que fosse negro, não haveria nem destaque na mídia e o racismo estrutural brasileiro transformaria a detenção do verdadeiro larápio no mais normal dos acontecimentos – algo inconcebível.

O mais curioso de tudo é que na mesma tarde em que Igor Martins Pinheiro, de 22 anos, foi preso dentro de casa, em um apartamento de Botafogo, também na Zona Sul carioca, 44 dos mais alvos senadores da República deram seu aval para a privatização da Eletrobras. Sobre eles, ninguém dirá nada e, não por mera coincidência, os holofotes se voltarão única e exclusivamente para Igor. Já o instrutor de surfe Matheus Ribeiro, acusado injustamente por Tomás Oliveira e Mariana Spinelli, terá cobertura televisiva para sua indignação, contanto que ela não afronte doutores e tribunais. É muito provável que, para disfarçar o racismo que sempre pautou suas novelas e seus noticiários, a Rede Globo o convide para participar do “Encontro com Fátima Bernardes”, que é o espaço multirracial da emissora – já uma entrevista no “Conversa com Bial” está fora de cogitação.

Da mesmíssima forma e apesar de todas as provas reunidas em relação ao casal que o acusou, Matheus Ribeiro nunca receberá um centavo a título de indenização. É que aqui no Brasil o dano moral é um direito dos brancos, da Casa Grande. Qualquer constitucionalista sabe, no seu íntimo, que é mais fácil Igor, o ladrão, ser compensado pela exposição negativa de sua imagem, de sua “branquitude”, do que Matheus ser reparado, em uma eventual ação judicial. O injustiçado neste caso deve, mesmo, se dar por satisfeito, já que não deu tanto “azar” quanto Lucas Moreira de Souza, que mofou no Complexo Penitenciário da Papuda durante três longos anos, cumprindo pena por um crime que não cometeu – e vale lembrar que a Papuda fica a 17 quilômetros, menos de 20 minutos de carro, do Supremo Tribunal Federal (STF).

Seja nos grandes portais, nos jornalões ou na TV, será seguido um roteiro daqui para frente: Tomás e Mariana, que acusaram Matheus, serão providencialmente esquecidos (para o bem do “establishment racial”), enquanto ao assaltante Igor caberá a “missão” de esconder o saque da Eletrobras. Afinal de contas, um sujeito que se especializa no furto de bicicletas no Leblon, com quase 30 passagens pela polícia, desperta mais interesse nos internautas, leitores e telespectadores brasileiros do que um aumento de até quatro vezes na conta de luz. Aqui resta claríssimo, mais uma vez, o descaso da população em relação à causa nacional, sua mais transparente omissão frente às matérias republicanas, seu absoluto desinteresse pelas questões civilizatórias. Para além do efeito opiáceo do futebol e das mais superficiais discussões partidárias, o Brasil não consegue se enxergar – fica olhando apaixonado para a Europa e para os Estados Unidos, enquanto dá as costas para si mesmo.

O triste e previsível é que, quando o apagão e o racionamento de energia chegarem, ninguém se lembrará nem de Igor, nem dos senadores que entregaram a Eletrobras, nem de Matheus Ribeiro e nem do casal que o acusou, apenas e tão somente, por ser negro. Até lá, muitos outros serão presos em função do racismo, muitos boletos irão para o prego sem terem como ser pagos e muitas bicicletas serão furtadas e trocadas por ‘crack’. Esta é a roda viva que mantém o povo entretido, que faz do Brasil um porto seguro para o despojo das megacorporações e de nossos legisladores, verdadeiros Césares.

Infelizmente, parece que nosso fracasso é irreversível…

Obs. Foto – Reprodução de TV

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornalistas Livres

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