Setembro verde e o debate sobre inclusão

O Setembro Verde vem dedicado a dar visibilidade à inclusão social da pessoa com deficiência. Veja mais nesse artigo.
Share on facebook
Share on twitter
Share on whatsapp

Artigo de Maria Paula Vieira, especial para os Jornalistas Livres

As pessoas com deficiência seguem longe dos espaços de debates, veículos da mídia, editoriais e de seus locais de fala e decisão na sociedade. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), com dados de 2011, 1 bilhão de pessoas vivem com alguma deficiência, o que equivale cerca de 1 em cada 7 pessoas no mundo. No Brasil, são cerca de 45 milhões da nossa população. Apesar disso, continua sendo um grupo minoritário invisibilizado por políticas públicas, que têm direitos básicos, como educação e trabalho, negados. Para que a gente se conscientize a respeito, Setembro Verde vem dedicado a dar visibilidade à inclusão social da pessoa com deficiência.
Mas em meio a tantas cores, onde esta foi parar?

Uma palavra recente, que ainda nem está listada no nosso dicionário, pode explicar: o capacitismo. Isto é, a discriminação ou preconceito ao não enxergar capacidade na pessoa com deficiência para trabalhar, estudar ou construir relações. Dessa forma, são tratadas por muitos como alguém inferior. Acontece de forma consciente ou não, já que está enraizado na sociedade, assim como outros preconceitos.

“O capacitismo estrutural me educou forçadamente o que é sentir a solidão. A situação social que tanto nos afeta, para todas as pessoas com deficiência que enfrentam de diferentes níveis o capacitismo”, comenta Emerson Faria, 27, assistente administrativo sênior e surdo oralizado.

A estrutura capacitista faz pessoas com deficiência acreditarem o tempo todo que são incapazes, e quando rompem as barreiras são vistas como exemplo de superação, o que as desumaniza. “Além de ter uma deficiência, também faço parte do grupo periférico, o que me transformou nesse milagre social por ter conseguido acessos que deveriam ser básicos a todos. Isso me reduziu somente a minha deficiência, trazendo uma opressão durante a minha vida toda”, relata Eduardo Victor, 20 anos, criador de conteúdo, militante, que possui paralisia cerebral.

O depoimento de Stephanie Marques, 24, assistente administrativa e criadora de conteúdo digital, também mostra a dificuldade da sociedade em vê-las desempenhando funções básicas da vida adulta, como formar no ensino superior, dirigir um carro, pagar contas e namorar. Ela possui uma doença congênita que afeta sua estatura trazendo olhares invasivos por onde passa, “isso tudo começou na adolescência e conforme foram aumentando minhas responsabilidades, mais frequente ficavam os olhares e as incógnitas, diariamente e em todos os lugares que eu passo acabo escutando algo mais cedo ou mais tarde”, conta.

DEMOCRATIZAÇÃO DO ENSINO E TRABALHO

A Convenção da Organização das Nações Unidas (ONU) e a Lei Brasileira de Inclusão (LBI) consideram que a sociedade não provê à pessoa com deficiência meios de exercer seus direitos em igualdade de condições com as demais pessoas. E os dados comprovam: No mercado de trabalho possuem 1,04% das carteiras assinadas no país, de acordo com os dados da Relação Anual de Informações Sociais (Rais), em 2018. Enquanto isso, o Censo da Educação Superior de 2016 mostra que, apenas 0,45% de matrículas no ensino superior são de alunos com deficiência.

“Sempre digo que o mercado de trabalho é um reflexo da sociedade quando o assunto é comportamento. E sendo assim, está repleto de situações capacitistas e excludentes”, aponta Ana Kelly Melo, gestora de de Recursos Humanos e também uma mulher com deficiência. Segundo Melo, o capacitismo constrói uma barreira para o protagonismo da pessoa com deficiência antes mesmo da busca por um emprego, as portas se fecham desde a escola. “Isso criou uma crença falsa de que não é possível encontrar bons profissionais entre as pessoas com deficiência”, completa.

Faria, conta que trabalha desde os 16 anos e ainda enfrenta a disputa de ter um bom salário e um bom cargo.“Percebe-se o quanto é importante falarmos de inclusão, já que todas as empresas ainda segregam pessoas com deficiência no mercado de trabalho e as oportunidades ainda não são iguais de pessoas sem deficiência”, afirma.

A estudante e militante do movimento, Zannandra Caso, 18, relata que desde que entrou na fase de vestibulares, a discriminação veio logo na inscrição com formulários e exames para conseguir uma mesa acessível. Por ter uma deficiência física, além de se preocupar em passar, tem que se preocupar se os locais terão acesso. “Não nos querem nas universidades e, o que puderem fazer para evitar que entremos, vão fazer. Essa é uma realidade que já aceitei e, que uso como motivação para conseguir ser aprovada em todas as instituições que mostram como sou indesejada nela”, afirma.

Quem as escolas estão formando? Pessoas brancas e dentro do padrão, responde Luciana Viegas, professora com especialização em práticas inclusivas, além de mulher negra e com autismo. “Quem não está dentro disso, a escola não consegue formar e desenvolver, impedindo que milhares de crianças se formem e se desenvolvam. Temos a lei de inclusão, e isso é uma evolução. Mas precisamos avançar nos debates, para formar para a diversidade como um todo”, conclui.

(LUCIANA.FOTO: ARQUIVO PESSOAL)

Zannandra, complementa que, mesmo com os direitos evoluindo, ainda falta muito. Muitas das discussões sobre as minorias que ganharam visibilidade nos últimos anos foram devido a uma movimentação geral, o que não acontece com a questão da inclusão. Para ela as pessoas ainda não respeitam essas pautas, não há empatia quanto as violências que sofrem. “Enquanto, o capacitismo for algo moralmente aceito, nossas pautas e reivindicações continuaram restritas a nossa comunidade”, reflete.


ZANNANDRA. FOTO: ARQUIVO PESSOA

Falta de visibilidade dentro dos movimentos

O movimento das pessoas com deficiência está em todos os direitos humanos, são pessoas negras, mulheres, LGBTQIA+, mesmo assim têm suas demandas apagadas. “Nós somos a maior minoria do mundo e continuamos sendo excluídos de diversos projetos e narrativas. Quantas pessoas você vê falando sobre mulheres lésbicas com deficiência? Gays com deficiência? Pessoas trans com deficiência?”, questiona Eduardo Victor.

O criador de conteúdo e a professora Luciana, também debatem sobre o recorte de corpos negros com deficiência que são oprimidos na sociedade pela sua simples existência, além de terem os acessos negados, são mortos diariamente.

MUDANÇAS

Os militantes entrevistados desta reportagem acreditam que o Setembro Verde vem para conscientizar, mas é necessário começar a se ter práticas anticapacitistas da base, ensinando dentro de escolas e núcleo familiares sobre suas existências. E “obviamente que para isso os adultos terão que aprender sobre o assunto para as crianças terem como exemplo. E claro, não pode faltar a representatividade na mídia e nos meios de comunicação”, finaliza Stephanie Marques.

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornalistas Livres

COMENTÁRIOS

  • POSTS RELACIONADOS

    >