Relações internacionais, análises maniqueístas e “opiniões prontas”

Francisco Fernandes Ladeira

De acordo com um jargão acadêmico, bastante difundido, porém de autoria incerta, é muito difícil compreender a “história em marcha”, ou seja, “no calor do momento”. Isso significa que, na emoção dos acontecimentos, há uma forte tendência em realizarmos análises superficiais, descontextualizadas e sem avaliar diferentes pontos de vista e possibilidades (sobretudo em relação a assuntos aos quais não temos muita familiaridade).

No entanto, em tempos de redes sociais – com tuítes de duzentos e oitenta caracteres substituindo reflexões aprofundadas – muitos querem expressar suas opiniões publicamente, na mesma velocidade com que recebem a enxurrada de informações cotidianas.

Atualmente, a grande temática dos “comentaristas virtuais” é o conflito entre Rússia e Ucrânia. Nesse sentido, quando o assunto é geopolítica, duas linhas de análise se destacam como exemplos de posicionamentos precipitados.

Independentemente dos atores geopolíticos envolvidos num determinado conflito, ambas as linhas analíticas oferecem “opiniões prontas”, a partir de preceitos maniqueístas (isto é, dividem o mundo entre “bem” e “mal”).

O primeiro grupo de “opiniões prontas” se refere aos indivíduos que aderem acriticamente aos discursos difundidos pela grande imprensa. Ou seja, em seus posicionamentos, vão defender os interesses geopolíticos dos Estados Unidos e aliados.

Nessa lógica, em qualquer foco de tensão, as intervenções dos Estados Unidos (direta ou indiretamente) representarão sempre o lado “bom” e seus adversários, consequentemente, serão o lado “mau”.

Assim, compactuam, mesmo que inconscientemente, com estereótipos e tipificações, como o “muçulmano terrorista”, “o caudilho sul-americano” ou o “ditador cubano”. No caso da guerra Rússia e Ucrânia, somente um lado será levado em consideração: o ucraniano, aliado às grandes potências imperialistas.     

Não se trata de legitimar uma guerra, mas, nas narrativas dos principais veículos de comunicação do país, o ataque russo à Ucrânia não teve “causas”, somente “consequências”. São negligenciados fatores como o golpe de Estado na Ucrânia em 2014 (que instituiu um governo fantoche dos EUA e aliados), as atuações de milícias neonazistas em território ucraniano (com apoio tácito do governo) e a possibilidade de ingresso da Ucrânia na Otan (uma clara provocação a Moscou, pois abre espaço para a instalação de mísseis próximo ao território russo).

Diante dessa realidade, o governo do Kremlin está certo em se preocupar com seu país. Quanto à invasão militar à vizinha Ucrânia, evidentemente, é algo condenável. Como bem sintetizou o ex-presidente Lula, “a humanidade não precisa de guerra, precisa de emprego, de educação”.

Por outro lado, há aqueles que “torcem” para um determinado ator geopolítico, somente pelo fato de ele se opor aos Estados Unidos em um conflito.  Difundido por alguns “gurus” da esquerda sem relevância política e seus fiéis seguidores, este tipo de posicionamento (tão maniqueísta quanto a visão citada nos parágrafos anteriores) apoia, por exemplo, as ações do Talibã, sem levar em conta que este grupo fundamentalista afegão oprime seu próprio povo, sobretudo as mulheres.

No tocante ao atual conflito no Leste Europeu, esse tipo de interpretação sobre a geopolítica global considera que a invasão russa à Ucrânia é “uma guerra de libertação dos povos oprimidos do planeta contra o imperialismo”.

No entanto, como a realidade nos mostra, Putin está muito distante de ter esse tipo de objetivo; tampouco pode ser considerado um político minimamente à esquerda. Os antagonismos entre Rússia e Ocidente não são entre capitalismo e socialismo. A Guerra Fria já acabou há três décadas. A referência histórica de Putin sobre sua nação é a “Rússia Czarista”, não a “União Soviética Socialista”.

De acordo com a professora Luci Nascimento Fuser, “na ausência de uma perspectiva de revolução real, as pessoas ficam entusiasmadas vendo um país capitalista invadindo outro país capitalista […]. A guerra na Ucrânia não é ideológica, é geopolítica. […] Nem todo inimigo dos Estados Unidos é herói, e não é canonizando esses inimigos ou demonizando quem faz a crítica que se combate imperialismo. Ou viraremos fanáticos religiosos dividindo as ações do mundo entre deus e o diabo”.

Não obstante, a equivocada concepção de que Putin seria “comunista” também é utilizada por setores à direita do espectro político para se posicionarem sobre a geopolítica do Leste Europeu. Segundo uma publicação no Instagram, feita pela professora Kemily Rodrigues, “Vladimir Putin não é e nem nunca foi conservador. […] Na verdade, ele nunca deixou de ser comunista. O comunismo é a história de seu país e isso, para ele, sempre estará acima de qualquer democracia”.

Em suma, geopolítica é uma temática muito complexa para ser discutida a partir de “opiniões prontas” e de forma passional. Mencionar os aspectos negativos da Rússia não significa apoiar o governo ucraniano ou a Otan. Muito longe disso.

Se tiver que “torcer” para algum lado, fico com as palavras do docente da UFABC, Antonio Marcos Roseira: “a única possibilidade para todo cidadão com um mínimo de ética humanista é exigir o fim de qualquer conflito que leva ao sofrimento e a morte de inocentes”.

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Francisco Fernandes Ladeira é doutorando em Geografia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Autor de dez livros, entre eles “A ideologia dos noticiários internacionais” (Editora CRV)

desenhos por Hieronymus Bosch

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornalistas Livres

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