A Lenda do Faz-me-rir

Bem-vindos e bem-vindas ao “Café com muriçoca” - espaço de compartilhamento literário dos Jornalistas Livres. No texto de hoje, "A lenda do faz-me-rir", Dinha conta a história de um rapaz nordestino que, cansado de ser discriminado no sul por causa do seu sotaque, encontra um jeito nada pacífico de impor respeito.
Lenda do Faz-me-rir. Imagem masculina sobre paisagem com mandacaru
A Lenda do Faz-me-rir.

Esta lenda é do tempo em que, nas quebradas de São Paulo, toda treta se resolvia no berro. Hoje não é mais assim. Com o acesso às armas restrito e o monopólio da violência nas mãos da polícia e do PCC, quase nada é razão pra tiroteio.

“Meu nome é José. José Maria do Povo. 
Eu ontem queimei um busão.
Mas por que o senhor fez isso? - O repórter perguntou.
Eu pensei que fosse a Babilônia, oxi… Respondi.
Não era lá que se fazia o olho por olho, dente por dente?”

Maria do Povo - Seu José na Babilônia 

“Não existe amor em SP
Os bares estão cheios de almas tão vazias
A ganância vibra, a vaidade excita
Devolva minha vida e morra
Afogada em seu próprio mar de fel
Aqui ninguém vai pro céu”

Não existe amor em SP - CRIOLO

Depois de um minuto de silêncio, e da minha recusa em escrever, essa semana eu sofri de excesso. Sabe quando você quer falar de tudo ao mesmo tempo? Fiquei entre uma história de terror frustrado, como a d’O Fantasma de Canterville, de Oscar Wilde, e entre recontar a lenda urbana da “loira do banheiro”, ou a dos “Músicos do Bristol” ou, ainda, só inventar mais um texto que botasse pra fora o sal dos meus olhos, de novo.

O “Fantasma de Parque Bristol”, inspirada no conto de Wilde, eu pensei que poderia ser a história de um fantasma que vai de porta em porta, de janela em janela, tentando nos assustar. Só que ele vem de um passado “distante” – de um passado em que o Bozo era um palhaço somente… De um tempo em que febre e espirro era sintoma de resfriado ou gripe, e mel com limão já curavam. Um tempo sem covid, sem redes sociais que roubam nossa endorfina e onde os preservativos não eram usados no rosto. 

Esse fantasma viria às nossas casas e ia encontrar um povo tão calejado que não se assustaria mais com nada e, porta atrás de porta, seria enxotado por tentar trazer terror a uma vida sem espaço para novos medos.

Sobre a loira do banheiro,  pensei em contar uma versão que discutisse o machismo por trás da evolução da história… e eu pretendia caprichar no terror.

Minha terceira opção era um conto, “ Os músicos de Parque Bristol”… Essa seria uma história engraçada e lírica… Sobre como o Cidão e o falecido Senhor Benedito, duas figuras queridas daqui do meu bairro, divertiam a quebrada com sua cantarolagem. 

No fim, decidi mesmo foi contar pra vocês sobre a lenda do Faz-me-rir. Já ouviu?

Faz-me-rir Tutambém

Faz-me-rir Tutambém.

Esta lenda é do tempo em que, nas quebradas de São Paulo, toda treta se resolvia no berro. Hoje não é mais assim. Com o acesso às armas restrito e o monopólio da violência nas mãos da polícia e do PCC, quase nada é razão pra tiroteio.

Dizem que um belo rapaz, que morava ali na Viela Brasil, bem pertinho da Boca da Onça… na Praça Lucíola, manja?  Olha no maps aí….

Então, ele se chamava José e vinha fugindo da desgraça politiqueira que mais uma vez ressecou sua cidade natal.  

José era um moço amável,  mas  sério.  É que a dureza da vida tinha secado até sua saliva e, sem saliva, o sorriso do rapaz desertou.  

Sem jeito pra brincadeiras, entretanto, até que sobrava energia pro trampo que ele veio buscar, enquanto sua própria cidade não se renascia das cinzas. 

O problema é que a seriedade do moço era incompatível com a maldade que se criava solta feito preá no matagal paulista,  calango no semiárido… E toda vez que ele abria a boca pra pedir informação,  água ou emprego,  alguma voz se erguia acima da dele e mangava da sua fala apressada,  do sotaque que ele nem sequer sabia que tinha. 

Toda vez que o Zé falava alguém lhe arremedava e todo mundo ria, ria, ria…

E tanto mangaram que, um dia, revoltado, ele comprou um tresoitão, atirou  em uns trouxas no baile e, pra alívio geral da nação favelada, errou.

Ele errou. Só que,  depois desse dia, o seu Zé nunca mais foi zuado.

Dizem que o Senhor Seu José,  sertanejo arretado, até ganhou certo senso de humor. Que foi visto dançado com o amigo revólver, sorrindo e chamando o objeto de Faz-me-rir Tutambém. 

Desculpa aí, pessoal… tô mentindo…. Faz-me-rir é dinheiro… Diz a lenda que é um deus muito malvado, perseguido pelas pessoas e que,   quando elas  acham que o pegaram, ficam sendo suas escravas.

Moral da história:  

Lenda não tem moral. 

Nem eu. 

Nem você. 

Dinha (Maria Nilda de Carvalho Mota) é poeta, militante contra o racismo, editora independente e Pós Doutora em Literatura. É autora dos livros "De passagem mas não a passeio" (2006) e Maria do Povo (2019), entre outros. 
Nas redes: @dinhamarianilda

LEIA TAMBÉM algumas das crônicas anteriores:

São Paulo é uma cidade-palafita

Olha nos olhos e enxerga o bebê

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornalistas Livres

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