Querem uma boa notícia? O bolsonarismo está sendo derrotado!

O imaginário popular alimentado pelo reformismo petista está derrotando o bolsonarismo, ainda que esteja fortalecendo Bolsonaro
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É muito difícil para qualquer ser humano de boa vontade conseguir ver algo positivo neste Brasil dos nossos dias. Religiosos fazendo protesto em hospital para impedir que uma menina de 10 anos, violentada pelo tio, exerça o direito ao aborto legal. Médicos se recusando a cumprir ordem judicial e realizar o aborto legal na criança, ideologizando seu ofício.

Rodrigo Perez Oliveira, professor de Teoria da História na Universidade Federal da Bahia

O presidente da República disparando dia sim e dia também cascatas de selvageria que se capilarizam pela sociedade civil, chegando até às pessoas comuns, nossos irmãos, tios, pais e mães.

No Brasil de Bolsonaro, as pessoas comuns se sentem autorizadas a descumprir os ritos civilizados tão importantes para o nosso convívio comum.

Mas algo de bom vem acontecendo, pouco a pouco, desde o dia 18 de junho, quando Fabrício Queiroz foi preso pela primeira vez.

O presidente sabe que Queiroz é uma bomba relógio, que é o fio solto de um esqueminha de corrupção de baixo clero que enriqueceu o clã Bolsonaro.

Bolsonaro percebeu também que no século XXI, na era do “soft power”, golpe de Estado do tipo clássico, com canhões nas ruas, não é algo tão simples, ainda mais em país tão grande e tão internacionalmente conhecido como é o Brasil.

Não é que as ameaças de golpe fossem bravatas. Realmente, o núcleo do governo achou que seria possível uma intervenção militar no STF, como mostrou a reportagem publicada na edição de agosto da Revista Piauí, assinada por Monica Gugliano.

O golpe não aconteceu. Bolsonaro ficou acuado com a prisão de Queiroz. Moderou o discurso e passou a se comportar como algo próximo a um presidente normal. Fez mais por necessidade do que por convicção.

Investiu na formação de uma base legislativa, se aproximando do centrão. Ampliou sua base de apoio social para além do bolsonarismo orgânico, com o auxílio emergencial.

O país vive a maior crise sanitária de sua história. As pessoas estão assustadas, esgotadas com o colapso institucional que se arrasta desde meados de 2013. Nenhuma sociedade consegue viver eternamente no caos. Chega uma hora em que as pessoas cansam, e passam a desejar alguma tranquilidade, alguma estabilidade.

Independente de quem seja o governante, é como se a sociedade estivesse dizendo “chega, pelo amor de deus, deixa essa criatura governar”. É a paz dos cemitérios.

Soma-se a isso o carisma pessoal de presidente e o sucesso inegável do auxílio emergencial. Era meio que óbvio que a aprovação do governo cresceria.

Bolsonaro parece ter gostado dessa história de ser amado pela massa.

Em 2019, primeiro ano de mandato, Bolsonaro governou como líder revolucionário, convencido de que estava predestinado por Deus a construir um “novo Brasil”. Ao que tudo indica, 2020 acabará de forma bastante diferente.

Bolsonaro percebeu que a agitação fascista só serve pra fidelizar a malta já convertida, que, sim, é minoria. A maioria da população, especialmente os mais pobres, quer só uma vidinha tranquila, com orçamento folgado pra comer pizza no shopping e comprar danone pros meninos.

Os hábitos de consumo estimulados pelo reformismo petista ainda estão vivos no imaginário popular.

É, justamente, esse imaginário que está derrotando o bolsonarismo. Não é a esquerda, não é o Lula. É o imaginário forjado pelo reformismo petista. É uma boa notícia. Não deixa de ser.

Mas Bolsonaro está se fortalecendo! Sim, está! É que Bolsonaro não é, necessariamente, bolsonarista.

Jair Bolsonaro foi deputado federal por quase 30 anos. Tiozão, colocou a família toda pra mamar nas tetas da política institucional, nunca teve maiores ambições.

Já o bolsonarismo é afeto político-revolucionário recente. Ganhou corpo na conjuntura da crise democrática, alimentado pelo lava-jatismo.

Pra governar com alguma tranquilidade e se reeleger em 2022, Bolsonaro entendeu, intuitivamente, que precisará romper com o bolsonarismo e ir ao encontro do imaginário popular, fazendo concessões conceituais ao reformismo petista.

São 210 milhões de habitantes, quase 6 mil municípios, território continental, bolsões de miséria convivendo com oásis de prosperidade. Nos poucos momentos de nossa história em que arranhamos a ampliação de algum bem-estar social para os mais pobres, foram momentos, justamente, de protagonismo do Estado.

Nunca antes na história desse país tantos brasileiros viveram em situação de bem-estar social como nos anos do reformismo petista.

O bolsonarismo é ideologicamente ultra-neoliberal, como ficou claro na fatídica reunião de 22 de abril, cujo vídeo assistimos pela primeira vez em 22 de maio. Esse vídeo é o manifesto doutrinário do bolsonarismo. É o tratado que Olavo de Carvalho não escreveu.

O vídeo deixa claro que Paulo Guedes está longe de ser a “reserva técnica” do governo, como até hoje a grande imprensa tenta nos convencer, todos os dias. Guedes é ideológico, é religioso, é militante.

O presidente quer ampliar o Bolsa Família, no valor do benefício e no número de famílias contempladas. Quer retomar o Minha Casa Minha Vida, com linha de crédito especial para o Norte, Nordeste.

Pra isso, vai ter que romper com a religião de Paulo Guedes, vai ter que romper com o bolsonarismo também. E já está fazendo isso. Guedes já está sendo fritado.

A realidade desse país periférico, de modernização incompleta, exige que o Estado atue como potência provedora de direitos sociais. O reformismo petista ampliou, de forma inédita, essa demanda por direitos.

Quem passou a consumir, quem passou a comer três vezes por dia, não aceita retrocessos. Pode até não ir pra rua protestar, fazendo barricadas, como fetichiza parte da esquerda, colonizada até o último fio de cabelo. Mas sabe se vingar na urna. Sozinho, com a urna, o eleitor sabe se vingar. Sabe agradecer também. Não é bobo não.

É fácil, fácil acostumar a comer peito e coxa. Voltar a comer arroz e feijão puro, sem mistura, é difícil demais.

Sim, leitor e leitora, o imaginário popular alimentado pelo reformismo petista está derrotando o bolsonarismo, ainda que esteja fortalecendo Bolsonaro.

Não dá pra ter tudo na vida, né?

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornalistas Livres

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