Por nós, só nós mesmas.

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Eu não fui Beatriz, nem Luana, Rayzza, Eloá, Maria – nem da Penha, nem do Rosário, muito menos Madalena. Não fui Aurora, Etienne, nem Anas ou Luizas. Não ainda. Não hoje. Não nos últimos onze minutos. Sei que vou ser, quando os homens vierem por mim, porque eles virão. E quando os eles vierem, quando meu choro dolorido e angustiado não sair da garganta,vão me culpar.

Vocês vão olhar pro meu passado e dirão: ela tava pedindo por isso. Ela dava pra qualquer um, pra vários. Fumava maconha, cheirava pó. Usava o short enfiado no rabo nos bailes de sexta a noite. Andava com marginal, com um bando de vagabundo, tudo comunista. Traiu o namorado. Era uma puta. Feminista, mal comida.

Porque o meu corpo não nasceu pra ser meu, pra ter tesão, é objeto de desejo que não deseja. Helena de Troia. Geni, territórito do Estado – não tão laico assim.

Fotografia por Max Vilela, feita 06/01/16, durante o ato Por Todas Elas - Belo Horizonte, MG.
Fotografia por Max Vilela, feita dia 06/01/16, durante o ato Por Todas Elas – Belo Horizonte, MG.

Se fosse moça direita não tinha acontecido.

Porque moça direita não faz essas coisas, não exibe o corpo, não fica se oferecendo. Moça direita fala baixo, senta de perna cruzada e não retruca. Não fuma, não bebe, não trepa. Namora, fica noiva e casa. E segue a vida, sem retrucar, porque mulher que é mulher, não revida, segue calada e de contrato firmado. Daí depois de dona de casa, parabéns vai ser mãe! E tem que ficar feliz, é um presente de Deus. E tem que se dar o respeito. Bela recatada e do lar.

E mesmo assim, os monstros vem. E quando vierem: Acabou. Você tava pedindo.

Pedido que foi selado antes mesmo que a gente tivesse a mínima ideia de como as coisas funcionam no mundo, quando nos furam as orelhas e sentenciam: é uma menina. E nos ensinam que a culpa é nossa, e que garotos serão garotos.

E a prece de minhas irmãs manda: Endureçam seus corações e aprendam a matar.

Fotografia por Max Vilela, feita DIA 01/06 -no ato Por Todas Elas - Belo Horizonte, MG.
Fotografia por Max Vilela, feita durante ato Por Todas Elas – Belo Horizonte.

E eu me recuso a aceitar até o dia que 33 homens destroem uma menina, queimam viva uma irmã de luta, violentam e arrancam o coração de uma criança, espancam outra, e outra e mais outra. E os jornais noticiam: foi por ciúme, por amor demais, por um fim de relacionamento que não foi aceito. Eu conheço e sinto a dor delas. Conheço suas culpas, que não são suas, mas nos foram dadas desde Eva. É nosso pecado original que nos condena carregar as culpas alheias.
Culpas que são de uma sociedade que não discute gêneros e sexualidades nas escolas, onde pornografia é pedagogia, em que estupradores ganham premios, fazem piadas com a nossa dor e seguem como se nada tivesse acontecido, enquanto permanecemos destruídas.

Culpas de uma sociedade onde homens que agridem suas companheiras são representantes políticos, em que meu direito de escolha não é respeitado. Uma sociedade que romantiza estupro na TV. Que tem um aparato policial despreparado que desacredita as vítimas e as assediam, relativizam seus traumas.

Uma sociedade que se recusa a acreditar que estupradores são homens sãos, na plenitude de suas faculdades, e por isso os chama de doentes, uma classe, um tipo totalmente direferente.

São homens como meu pai, avô, namorado, primos, amigos e professores. Não tem estrelinha na testa, seta de neon, aviso de mantenha a distância. Uma sociedade que diz que meu medo de homens é irracional, é exagerado – como fazer um escândalo, revidar, ousar ter uma voz. Uma sociedade que acredita que é só denunciar e tudo bem, pronto acabou. Vida que segue. Sociedade que aplaude Woody Allen, Marlon Brando, Bill Cosby e vira a cara pra Keshas, Ambers, Marilyns, Beatrizes, Luanas, Rayzzas.

A culpa não é minha. Nem do meu short, do meu batom vermelho ou da minha sexualidade.
Não é de Eva, de Maria, Beatriz, Rayzza, nem de Luana e de Eloá também não.
Não é de nenhuma de nós.
E é inacreditável que em 2016 a gente ainda tenha que explicar isso.

Endureçam seus corações e defendam suas irmãs.
Pois por nós, só nós mesmas.

Fotografia por Max Vilela, feita 01/06/16, no ato Por Todas Elas - Belo Horizonte, MG.
Fotografia por Max Vilela, feita 01/06/16, durante o ato Por Todas Elas – Belo Horizonte, MG.

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornalistas Livres

COMENTÁRIOS

  • texto muito bem feito! Abrange com sensibilidade fantástica o universo real da mulher, os rótulos, as castrações, as culpas, que todas passam em algum momento de suas vidas!

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