Por dentro da Sala-Cela

Relatos de uma experiência em um centro de ressocialização para menores em conflito com a lei - Por Flávio Muniz. Fotos: Gustavo Medrado e Karen Muniz

Desde muito jovem trabalho com juventude em situação de vulnerabilidade social. Estive recentemente conversando com jovens adolescentes privados de sua liberdade física em um Centro de Ressocialização do Menor. Tive a grata satisfação de falar com eles sobre a Consciência Negra e sobre o Racismo. O racismo estrutural; que faz com a maioria da população preta e pobre de periferia fique a margem da sociedade, ou pela ausência de uma Consciência Histórica de si e como nós que nascemos e crescemos em periferias podemos reescrever nossas histórias se pudermos reencontrar com nós mesmos.

Eu sou educador. Sim, sou cristão e acredito em redenção. Eu lhes disse que a história deles não poderia terminar ali. Nós somos sobreviventes em um mundo que nos segrega e mata. É preciso acreditar que o sonho é possível.No final percebi que um pedaço de mim também estava ali com eles. Pensei em meus filhos. Pensei em todos os meus alunos com quem convivi e convivo. Pensei em mim que quando ainda criança tive crescer rápido demais pra entender este mundo cão.Trabalho infantil e o malabarismo pra me manter vivo, na corda bamba da existência negra em um país profundamente racista.


Cerca de 66% dos jovens adolescentes na ressocialização são Negros e Pobres. Coincidência? Não. Um plano. Que começa quando um regime opressor nos faz desacreditar de nossos sonhos e capacidades. Quando oprimiu nossos ancestrais os mantendo sistematicamente na margem, em lugares com pouca ou nenhuma infra estrutura, desemprego, sem acessos a equipamentos sociais de educação cultura e lazer. Somente a névoa cinza de um existir sem futuro. Que pode fazer dos jovens, verdadeiros peões na orgia consumista, que leva a roubar pra ter, na ilusão de querer ser. Que criminaliza a pobreza, pois no geral, são jovens que não vem de “família rica”, mal podem pagar por suas defesas, enquanto o filho do rico, não vai pra cela,no máximo faz um passeio
Apesar desta condição é preciso tentar sobreviver e desvencilhar das armadilhas plantadas no terreno da marginalidade. Esperar o Estado? Cansei! Luto minhas lutas. Me esforço em minhas batalhas. Ignoro o menosprezo. Abro um livro, leio. Consumo conhecimento. Me embriago na lucidez, pra nunca me esquecer quem sou e de onde vim e pelo que luto. Sobre isto, conversamos.

Como podem perceber, não falei sobre o mundo deles, conversamos sobre o nosso mundo. Pois somos oprimidos pelo mesmo sistema. Por vezes em graus diferentes de forma deliberada pra fazer com que uns se sintam melhor que os outros.
Quase ao final de nossa conversa coloquei a musica: A vida é desafio, do Racionais. Chorei quando os vi cantarem juntos comigo dizendo o refrão:

“É necessário sempre acreditar que o sonho é possível
Que o céu é o limite e você, truta, é imbatível
Que o tempo ruim vai passar, é só uma fase”.

“O pensamento é a força criadora
O amanha é ilusório
Porque ainda não existe
O hoje é real
É a realidade que você pode interferir
As oportunidades de mudança
Tá no presente
Não espere o futuro mudar sua vida
Porque o futuro será a consequência do presente
Parasita hoje, um coitado amanhã
Corrida hoje, vitória amanhã”.

Dividir pra conquistar, esta estratégia é antiga. Querem que abandonemos os nossos. NÃO! Que nossas mãos estejam unidas, que nossos braços estejam estendidos, pra levantar aqueles que tropeçaram, ou àqueles a quem derrubaram. Ou pra evitar que nossos filhos caiam. Pois o sistema será implacável com eles. Mas não com os outros. A solidariedade é essencial pra que possamos ajudar os jovens.


Dentro daquela sala-cela, tentei provocar a consciência. A necessidade de reencontrar consigo e reescrever suas histórias. Um mãe me procurou outro dia na Escola da Vida e me pediu gibis para seu filho que estava lá como interno. Consegui e mandei dois livros. Achei que nunca mais a veria. Quando estava lá, um daqueles jovem se aproximou e perguntou se era eu que estava lhe mandando livros e cartas (por meio de sua mãe obviamente). Lhe disse que sim. Ele me agradeceu e depois retornou pra sua cela. Passado alguns dias da minha visita, sua mãe reaparece na Escola da Vida, me trazendo um carta. O que está escrito nela, sempre leio quando os ventos do desânimo sopram por aqui.
Nelson Mandela dizia que a educação é a ferramenta mais poderosa pra transformar o mundo. É nisto que acredito! É por isto que tenho lutado! Venha acreditar! Um mundo melhor, a gente não faz só!

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Um comentário
  • Inácio da Silva
    17 novembro 2018 at 6:40
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    Não devemos esquecer também da opressão dos portugueses aos povos nativos do Brasil…mataram, saquearam, estruparam, roubaram suas terras para depois mantê-los em reservas…o mesmo fizeram os espanhóis…os anglo-saxões na América do Norte…não esqueçamos dos “cristãos” que invadiam as terras dos mulçumanos para matar os “infiéis”…e são responsáveis pelo preconceito com mulçumanos existente até hoje…e podemos ir além para cobrar “reparações históricas”…

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