Pecado capital: vaidade colocou Luana Araújo na mira do ódio

Infectologista é ameaçada de morte por milícias digitais, apesar de não ter questionado o bolsonarismo no curto período em que o abraçou

Por Homero Gottardello, jornalista

Os sete pecados capitais foram listados pela primeira vez pelo monge Evágrio Pôntico, sendo uma expressão do cristianismo que remonta ao séc. IV. Muitos não se dão conta, mas ao classificá-los como imperdoáveis, a então nascente Igreja Católica colocou um freio na concupiscência contida em cada sacrilégio da lista, de modo a “facilitar” o cumprimento dos Dez Mandamentos ordenados pelo próprio Deus. São Tomás de Aquino (1225-1274), pai da Escolástica e “Doctor Universallis”, considerava a vaidade o mais condenável de todos os pecados capitais, já que a soberba e a arrogância seriam, em tese, a base sobre a qual os demais emergiriam. Bom, 12 séculos depois de sua classificação, a vaidade segue como um pecado mortal, pelo menos é o que apontam as ameaças dirigidas à infectologista Luana Araújo, recentemente eleita uma espécie de “musa da CPI da Covid” pela mídia hegemônica, após seu depoimento na Comissão Parlamentar de Inquérito, no dia 2 deste mês. A médica achou que o secretariado no Ministério da Saúde – que lhe foi oferecido em maio e tirado dez dias depois – era o pedestal sobre o qual seus atributos seriam venerados, mas foi apenas sua vã glória.

É exatamente por isso, e não por outra razão, que Luana Araújo não se vangloria da passagem meteórica pelo estado bolsonarista. Porque mais do que a imodéstia, mais do que a presunção necessária para aceitar tamanha responsabilidade em um momento tão delicado (ela seria secretária especial de Enfrentamento à Covid, do Ministério da Saúde), foi exigida da infectologista a mais cega subserviência aos preceitos médicos do Paracelso do Palácio do Planalto, em relação à pandemia. Daí, não foi a convicção médica, não foram os princípios terapêuticos e nem a consciência iátrica que se interpuseram às ações sanitárias. Foi o narcisismo, o orgulho que colocou um ponto final nessa história, que mal começava a ser escrita.

Enquanto o convite para assumir a secretaria especial lhe conveio, enquanto a posição de destaque frente a seus pares lhe animou, não houve nada de impróprio no desgoverno. Como a própria infectologista fez questão de frisar, em seu depoimento à CPI, nos dez dias em que integrou o quadro ministerial por conta própria, sem receber “um centavo” pelo trabalho na Saúde, não houve nada no “contato muito rápido, com poucas pessoas” que motivasse seu imediato declínio em relação ao cargo. Pelo contrário, a médica afirmou que desconhece a razão verdadeira do veto à sua nomeação oficial, sugerindo que isso teria decorrido em função da sua posição contrária ao uso de medicamentos e terapias ineficazes contra a doença. Ou seja, no intervalo em que esteve, efetivamente, no governo, a vaidade pautou sua atuação. Afinal, não houve fratura, não houve um momento de inflexão, de ruptura na sua relação com o bolsonarismo.

Não é preciso ser um experiente criminalista para extrair de seu depoimento que, se tivesse sido nomeada normalmente, Luana Araújo estaria se equilibrando no cargo até hoje. É difícil de imaginá-la exteriorizando suas opiniões sobre “hecatombe”, “mistura de falta de informação e arrogância” e “polarização esdrúxula” à cúpula do governo. Até mesmo a “perda de confiança”, que ela citou aos parlamentares da comissão, não deve ter sido posta ao alto escalão da hoste. Em sentido oposto, ela disse que, comunicada da dispensa, agradeceu “profundamente a oportunidade” e voltou para Belo Horizonte. Ou seja, não tivesse sido convidada – e não intimada – para depor na CPI, todas as impressões negativas que teve e, ao que parece, ainda tem sobre a estratégia de combate à pandemia ficariam guardadas, quiçá esperando para serem publicadas em um livro de memórias. Foi o chamado da comissão, e não o Juramento de Hipócrates, que motivou sua defesa enfática – e posterior – da ciência.

Luana se divide entre a medicina sanitária e a música

Cloroquina em vacina

Mas o pior de tudo é o viés machista, cafona, empregado pelos jornalões e pela TV para, como espécie de prêmio de consolação, içarem a infectologista ao título de “musa da CPI”, na base do sexismo barato de que é “uma mulher bonita e inteligente”, como se a beleza e os atributos intelectuais fossem coisas dissonantes, que só se combinam em mulheres raríssimas, especialíssimas. O mais baboso jornalão de Minas Gerais retratou a médica de forma pieguíssima, proclamando que ela foi uma criança prodigiosa, que “aprendeu a ler e escrever sozinha, aos dois anos de idade”, e que “aos 15 anos, já com o ensino médico concluído, foi estudar Música na Áustria”, terra de ninguém menos que Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791). Fê-la parecer a mais qualificada infectologista do mundo, a única qualificada para reorientar as diretrizes manicomiais do atual desgoverno, como se tivesse uma varinha de condão capaz de transformar cloroquina em vacina.
Ocorre que, na outra ponta estão milícias digitais que não admitem que mulher nenhuma, nem feia e nem bonita, nem esclarecida e nem ignorante, se digne a contestar os planos do “mito”. São tresloucados que rezam por uma cartilha editada a partir de retalhos das mais insólitas superstições religiosas, de tiras xenofóbicas, de pedaços do fascismo e remendos de intolerância, tudo isso refugiado no mais canalha dos patriotismos – é uma perseguição insuportável, da qual pouquíssimos homens dariam conta. Mas a vaidade é o ponto fraco de Luana Araújo e, convocada desta vez pelo “G1” e pela “Globo News”, ela voltou a se expor na última semana numa série de oito vídeos chamada “Vacina e Covid-19 – Perguntas e respostas”. E o pecado capital da infectologista volta a fazer dela, que não tem atuação docente ou em pesquisas representativas, nem possui produção acadêmica ou científica referenciais, um prato cheio para a fúria daqueles que, um dia, achou que conseguiria encantar pela função, pelo cargo.

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornalistas Livres

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