Oito anos

Em carta dirigida ao comandante Hugo Chávez, a jornalista e escritora venezuelana, Carola Chávez, lembra a importância do revolucionário para a Venezuela e seu legado para os latinoamericanos.

por Carola Chávez*

Esse 05 março de 2021 marca os oitos anos da morte do ex-presidente da Venezuela, Hugo Chávez. Nessa carta, a jornalista e escritora venezuelana, Carola Chávez, lembra a importância do comandante revolucionário bolivariano para a Venezuela e seu legado para os povos latinoamericanos.

Caracas, 3 de março de 2021

Achei que não poderia viver sem você. Pensei que não poderíamos viver sem você. O medo era tão grande que não me deixava pensar. Era tanto medo, tanta dor que aquele “Viveremos e venceremos” era como um chute no coração porque eu não sabia nem viver, nem vencer sem você. Oito anos se passaram.

Às vezes parece-me que passou um século inteiro, às vezes parece que passou apenas um dia. Na maioria das vezes, nem acho que você se foi, porque não foi embora de verdade, apenas mudou a forma de estar. Há que saber ver você. Há que saber que essa faísca que sentimos é você.

Você está aqui todos os dias, com uma palavra para cada ocasião. Quando você nos contava coisas no tempo presente, você estava nos falando sobre o futuro. Quando você desenhou o futuro, nos deixou um mapa para o nosso hoje.

Lembra quando você foi à China assinar acordos com aquele país do qual só conhecíamos o arroz “especial”, rolinhos primavera e o Kung Fu? Lembro-me da zombaria em todos os programas de TV, das sisudas análises que diziam que você tinha que ser louco para ir tão longe, quando aqui, logo ali em cima, estava o melhor dos mercados, “nosso mercado natural”, o mercado gringo, ” a maior economia do mundo” sob cujas asas deveríamos ficar como fracos pintinhos trêmulos e nos permitir domesticar. “Como íamos fazer feio assim com essas pessoas? Que pena desse senhor!”

O mesmo quando você foi à Rússia e ao Irã! Diga-me isso, você se tornou amigo de Ahmadinejad que, aliás, segue sendo “o cara” que sempre foi. “O que você vai procurar lá, além de problemas?” Diziam acalorados os porta-vozes da resignação submissa. “Se o mundo é como é, não temos que estar inventando… inventar é perigoso, vão ver!…” E nos mostraram os dentes e as garras e nós mostramos os nossos, lembra? “Vão para a merda Yankees! Vão para o inferno!”

O século XXI nos encontrou unidos, lutando para não ser dominados, como nos avisou nosso General Perón, mas não tão fortemente unidos que não nos quebrassem. Entre nossos líderes regionais pesava ainda aquele pudor, aquele cuidado de não tocar naquele espartilho feito sob medida para os outros, essa corda sagrada no pescoço dos nossos povos que chamam de “democracia” (burguesa) e que só se aplica a nós, nunca a quem nos impõe.

Mas o que estou dizendo que você já não saiba?! O que eu não sei se você já sabe, é que um a um os governos amigos foram dinamitados por dentro, com traições, erros de cálculo político, hesitações, enganos… e você não estava aqui…. Nicolás e nós, às vezes, muitas vezes, sofremos o descaso de nossos amigos regionais. Todos, um a um, iam caindo na armadilha imposta por nosso inimigo comum, de que a Venezuela era aquele país que ninguém queria ser. A Venezuela é a peste.

Sei que dá uma irritaçãozinha, mas mais que isso, tristeza, porque todos sabíamos que devíamos estar unidos para não ser dominados. E aproveitando a hesitação, a dissimulação, sei lá o que passou pelas cabeças desses irmãos , o inimigo formidável não hesitou em lhes meter sua garra furiosa sobre eles e agora seus povos pagam as consequências.

Nós, povos, sempre pagamos, você sabe. Lá, porque a oligarquia voltou e com vingança. Voltou à Argentina para cagar em poucos meses com a “Década Ganha” [período com maioria de governos progressistas na América Latina] e amarrar o povo argentino com uma dívida impagável de cem anos. Voltaram ao Equador e o mesmo. No Brasil, voltaram e pulverizaram Lula e tudo que cheirava a Lula. Voltaram até para a Bolívia! A virada mais dolorosa de todas, que vimos em câmera de lenta muito antes de acontecer. Essa eu acho que você não teria imaginado em nenhuma de suas visões do futuro.

Voltaram e devolveram os pobres à desesperança, ao desespero. Voltaram e entregaram nossos países como se deles fossem. Voltaram e fraturaram a unidade para que seu dono pudesse nos controlar melhor.

Nós, povos, sempre pagamos. Lá porque voltaram, aqui porque nós não os deixamos voltar. Aqui finalmente oficializaram e endureceram o bloqueio inevitável que corresponde aos povos insubmissos.

Chegaram todos os ataques que você nos avisou. E adivinha quem não nos deixa morrer? Você sabe, justo aqueles países que não tinham “nada a ver” conosco. Aqueles que em seu delírio futurista redefiniriam a ordem imposta e conformariam um mundo multipolar. Mas o louco era você, você sabe…

Nos castigam e a cada golpe crescemos, nos reinventamos. Se eu disser que estamos vivendo sem a receita do petróleo, você acreditaria em mim? Claro que você acreditaria. Se você sabia que poderíamos fazê-lo. Éramos nós que não nos atrevíamos a acreditar.

Não acreditávamos, e alguns ainda não acreditam, quão grandes podemos ser, quão fortes, corajosos, porque contigo à frente, como escudo, todo mundo era valente, todos super “Pátria ou morte”, mas quando foi preciso colocar o corpo à frente, quando cada um de nós tinha que ser um pouco como você, as coisas ficaram mais complicadas, mais angustiantes…

Lembro-me de quando estávamos passando por Charallave de caminhão e você me contou a angústia de sentir a angústia de um povo inteiro que contava contigo. Foi nessa mesma época que eu também te sobrecarreguei com minha angústia de acreditar que não poderia viver sem você, que não poderíamos viver sem você…

Oito anos se passaram desde que você mudou a forma de estar conosco, desde que tivemos de ser todos um pouquinho de você… oito anos se passaram de ataques ferozes, decepções, dores, tristezas, saudades, mas aqui estamos de pé, lutando com toda alma, com aquele “ardor”, aquela chama que não se apaga… aqui estamos nós, meu querido Presidente, chegando ao Bicentenário de Carabobo como você nos disse: “vivendo e vencendo”.

Porque você acreditou em nós antes de nós, e em cada uma de nossas lutas e vitórias, grandes ou pequenas, você está vivendo.

Oito anos sempre contigo, chavistamente

*Carola Chávez é jornalista e escritora venezuelana

Link para original em espanhol: https://www.vtv.gob.ve/opinion-chavistamente-ocho-anos-por-carola-chavez/

Tradução: Juliana Medeiros

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