O que significa o Golpe de Estado na Bolívia

Por áudio ativista Aymara del Feminismo Comunitario Antipatriarcal enviou essas informações

Evo Morales renuncia (Reprodução/TELESUR TV)

Companheiros e irmãs, desde Bolívia sei que existe muita informação confusa e por isso estamos tratando de informar e pedir que nos acompanhem e sigam denunciando.

Primeiro é importante ter bem claro que isso é um golpe, um golpe de estado e um golpe contra as organizações sociais. Um golpe, como já dissemos, organizado e encabeçado por organizações cívicas do Oriente, organizações empresariais e de terra-tenentes e oligarcas.

É um golpe fundamentalista, porque pretende “devolver a bíblia ao Palácio”, “colocar o país nas mãos de Deus” e todas essas coisas… É um golpe profundamente racista, porque busca e identifica as mulheres e homens originários dentro das organizações e os hostiliza.

A noite a polícia se amotinou. Essa manhã terminaram de se amotinar todos os regimentos, por um pedido específico de coisas para esse setor. Mas além disso, eles se uniram a esse golpe cívico e exigem também a renúncia de Evo Morales. A polícia já não está resguardando as cidades, já não está nas ruas.

Esta manhã os militares fizeram uma declaração, desconhecendo seu comandante e depois dizendo que não vão sair o que significa que se declararam em desacato ao presidente Evo Morales. Não sairão para resguardar as pessoas, não sairão para desmobilizar, quer dizer que eles também estão com o golpe. Um golpe de civis, empresários e oligarcas.

Algo que não se está difundindo porque internamente na Bolívia os meios são propriedade dos empresários, dos grupos de poder e não está claro que é um golpe de estado e um golpe contra as organizações sociais, um golpe racista. Não estão divulgando o que está ocorrendo agora no país, que estão queimando as sedes das organizações sociais e camponesas, as sedes de organizações sociais indígenas, estão queimando espaços do Movimento ao Socialismo (MAS), que é um instrumento conformado por organizações sociais. Estão queimando as casas de autoridades indígenas, estão queimando a casa de dirigentes sociais, estão perseguindo nossas companheiras, nossas irmãs e irmãos, nos estão perseguindo nas ruas.

Estivemos nas ruas buscando formas de resistir e nos perseguiram e amedrontaram nas ruas. Esses grupos civis, grupos que dizem que pretendem recuperar a democracia, o que é falso pq não vivíamos em uma ditadura. Dizem que são organizações em resistência civil, o que é falso porque são grupos armados. São grupos que têm lanças, capacetes, escudos, que tem gases, explosivos, e que além disso estão utilizando também a violência sexual. Eu suponho que utilizam essas armas para dizer que esse é um suposto golpe civil, mas não duvidem que atrás disso estão as armas da polícia e dos militares. Então é todo um teatro que estão fazendo. E para dizer depois que não foi um golpe, mas sim, é um golpe de estado. Sim, é com violência. Sim, está gerando terror. Sim, há uma hostilidade racista pq estão indo a todas as organizações sociais indígenas, originárias e camponesas.

Tomaram a Confederação de Trabalhadores Campesinos, amarram um companheiro jornalista, diretor da Rádio que ainda estava transmitindo. Até esse momento, segue sequestrado, segue amarrado, saquearam e destruíram a emissora. Na sede da Confederação, baixaram a bandeira Whipala, içaram a bandeira tricolor, da Bolívia rezaram e cantaram o Hino Nacional. O mesmo fizeram em todas as organizações que tomaram. Baixaram a Whipala, rasgaram, queimaram, rezaram e colocaram aí a bandeira da Bolívia. Essa é uma punição racista, colonialista é um castigo contra nossas organizações por conta desse processo de mudanças. É uma perseguição e isso não está saindo nos meios.

O único que está se tentando mostrar é que toda violência foi gerada pelo MAS e pelo governo. Nesse momento o governo não tem mais o apoio da polícia, nem dos militares. Nós, das organizações sociais, estamos nos reorganizando para resistir e as organizações que mais possibilidades tem de fazer pressão, são as que estão preparando um cerco às cidades. E essas são as organizações camponesas, originárias e que já expuseram que vão tentar fazer um cerco, que vão cortar a provisão de água. É não temos outra possibilidade. Isso também vai ser denunciado seguramente como violência, mas não temos outra possibilidade.

O que se está pedindo é que vá embora da cidade Luis Fernando Camacho, que é quem está encabeçando esse golpe cívico. E todas as pessoas que chegaram no Comitê Cívico de Sta Cruz de La Sierra, que tomaram a cidade, algo que não esperávamos, não tínhamos visto que tanta gente tinha tomado a cidade. Tomaram as instituições, a televisão nacional, as rádios comunitárias com toda a violência, promovendo o terror. Ou seja, hoje eles nos tem escondidas, perseguidas, e isso não está saindo nos meios.

Peço a vocês para compartilhar que é um golpe de Estado, com violência, com perseguição às mulheres e homens indígenas, que há uma punição voltada às organizações sociais e necessitamos da pressão e denúncia internacional das organizações.

Evo convocou a um diálogo, acreditando como feministas, como militantes anti patriarcais que isso está fora de tempo, além disso a direita não vai querer nenhum diálogo. A direita quer tirar Evo nas piores condições, humilhantes, e dar a ele e seu corpo e às organizações a punição exemplar para todo o país para que siga existindo esse país sob o colonialismo, sob o racismo, controlado por oligarcas, controlado por empresáios.

Pedimos que nesse momento possam difundir essas informações, que é muito importante a pressão internacional.

Obrigada a todos

Tradução Juliana Medeiros

Categorias
América Latina e MundoBolíviaDestaquesDireitos HumanosDireitos SociaisDitaduraEspañolEstado de ExceçãoGeopolíticaGeralGlobalGolpeManifestações
Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta