O PT na encruzilhada, como em 1983

"Hábitos de lideranças que se acostumaram a usar o rolo compressor para se impor acabam por viciar práticas. Admitir erros para aqueles com boca torta exige um esforço hercúleo. Exige mudança de comportamento. E coragem"

Muitas movimentações internas já ocorriam no PT quando o desastre eleitoral se prenunciava. Algumas lideranças diziam que preferiam aguardar o final das eleições para não serem acusadas de contribuir para a derrota eleitoral. Mas, foi Genoíno que saiu à frente.

Por Rudá Ricci, cientista político e presidente do Instituto Cultiva

Em suas recentes entrevistas, Genoíno coloca o dedo na ferida.
Numa delas, criticou duramente os governadores do PT no Nordeste. Genoíno mira na recente fala do ex-governador Jacques Wagner: “Esse pessoal do PT que quer aposentar o Lula, é para poder preparar o caminho para um grande acordo. Por exemplo: faz um acordo no Congresso Nacional para que o país tenha um Banco Central independente”.

A burocracia e líderes da corrente majoritária do PT se defendem. Não conseguem entabular argumentos coerentes ou minimamente profundos. Reproduzem uma leitura matemática das eleições em que a derrota evidente é apresentada como vitória.

Em outra entrevista, é ainda mais direto: “”o PT enfeita o bolo das elites”.
Em Belo Horizonte, o ex-candidato a prefeito, Nilmário Miranda, sugere que “estávamos apanhando nas cordas. Agora estamos reagindo perto do centro do ringue. ” Avaliações de quem se acostumou a sustentar um clima de euforia entre militantes, sem muito compromisso com uma leitura crítica ou com a necessária correção de rumos. A corrente majoritária petista errou e desgastou o partido. Sua postura defensiva vai além.

Parte da bancada federal do PT, vinculada à CNB (a corrente majoritária), já esboça aliança com Rodrigo Maia em seu projeto de reeleição para “não ficar de fora da mesa diretora no próximo período”. As correntes minoritárias divergem. Querem proposta e candidatura próprias.

O que ocorre com esta direção ou corrente majoritária, afinal? Parece estar em ponto morto. Desde a ofensiva da direita, com apoio do Centrão que ingressou nos governos lulistas, a CNB não consegue sair do enredo que construiu. A CNB foi responsável pela subordinação do partido – e da militância – ao lulismo, ao governo federal. Em nenhum momento sugeriu uma ofensiva partidária autônoma, uma avaliação de pontos críticos ou lacunas dos governos petistas. Ao contrário: em 2013, a juventude petista publicou apoios às manifestações de junho que, logo em seguida, foram rechaçadas pela corrente majoritária. No ano seguinte, algumas correntes da juventude petista esboçaram um documento que citava o esgotamento da primeira geração. Novamente, os jovens rebeldes do PT foram calados.

Para quem ainda acredita que 2013 foi contra o PT, recordo que a Juventude do PT declarou apoio aos protestos contra o aumento das tarifas de transporte, incluindo o de ônibus, feito pelo então prefeito Fernando Haddad. Nota da juventude petista publicada no período afirmava: “O governo do Estado e a prefeitura da capital, ao elevarem o preço da tarifa de ônibus, trens e metrôs, prejudicam a locomoção de jovens e trabalhadores”. E “conclama a militância petista a participar ativamente das manifestações”.

Retomo 2013 para sugerir que esta narrativa defensiva da corrente majoritária do PT vem de longa data. Ao invés de dar a volta por cima, procurou um inimigo externo para alinhar a militância de base. Procurou, com todas as suas forças, coibir qualquer crítica interna.

Agora, não há mais como fugir. Derrotada da maneira mais vexatória possível na capital mineira e na capital paulista, vencendo em apenas quatro cidades das 15 que disputou no segundo turno, com candidaturas de correntes não majoritárias se destacando, não há como negar os erros.

Numa moral de esquerda mais clássica, seria o caso das direções partidárias que fracassaram de maneira incontestável na condução dessas eleições colocarem à disposição seus cargos. Para que provocassem um intenso debate interno e o filiado decidisse sobre os rumos partidários. Em 1983, logo depois do fracasso eleitoral do ano anterior, surgiu um manifesto procurando colocar o partido novamente nos trilhos. O “Manifesto dos 113”, como ficou conhecido internamente, destacava os desacertos das direções do partido. Parece que é o caso atual.

Genoíno foi o primeiro líder histórico do PT a atingir o ponto fraco. Espera-se que várias outras lideranças se somem à necessária leitura crítica dos erros cometidos há anos que acabaram se cristalizando numa derrota eleitoral evidente.

Muitas das direções atuais, altamente burocratizadas e sem conseguir esboçar qualquer elaboração de estratégia que coloque o PT na ofensiva política ou até mesmo disputar a agenda nacional, tentam se defender. Derrotados, resistem em admitir a derrota.

Lá no fundo, todos dirigentes e lideranças petistas sabem da responsabilidade do seu partido na construção de um projeto nacional democrático e na liderança do bloco de esquerda do país.

A tentação para a defesa de cargos e hegemonia ser prioridade ainda é grande.

Dizem que “o uso do cachimbo entorta a boca”. Hábitos de lideranças que se acostumaram a usar o rolo compressor para se impor acabam por viciar práticas. Admitir erros para aqueles com boca torta exige um esforço hercúleo. Exige mudança de comportamento. E coragem.

OBS. A foto de José Genoino acima é de autoria de Sérgio Silva/Rede PT Ribeirão

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornalistas Livres

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