NO RIO, UM SHOW DE FUNK FAZ A ZONA SUL SURTAR

Imprensa tradicional foca cobertura nos roubos e confusões

Quem mora (ou não) na cidade do Rio sabe que o Arpoador, na ponta da praia de Ipanema, é um local frequente para shows de música de vários tipos. Ali se apresentaram nos últimos meses cantores como Nando Reis, Pitty, Paralamas do Sucesso, Ivete Sangalo, entre outros.

Esta quinta (17) foi a vez de Mc Juninho do FSF, filho do funkeiro Mr. Catra. E a reação em nada lembra a de apresentações anteriores, sendo difícil distinguir a cobertura artistica do evento (que na prática não houve) das páginas policiais dos principais jornais da cidade.

Em vez das tradicionais notas de Nelson Motta sobre o repertório dos artistas, para festa de funk – organizada desde a periferia, e não por empresários da zona sul – o tratamento foi todo com foco em roubos e confusões. O jornal Extra, por exemplo, trouxe vídeos dos crimes cometidos no entorno, ouviu banhistas que reclamaram que o lixo boiando seria de responsabilidade do evento e até um representante da Associação Arpoador Surf Club, que se disse indignado e relatou que “deixou de ir à praia” devido à festa que atraiu milhares de pessoas, a maioria negras.

Não se trata de tratamento atípico. A verdade é que a receptividade para um show de música na cidade do Rio depende muito do ritmo de que se trata. Se é um evento de música ao gosto da classe média, com direito a letras que falam da delícia de ser adolescente até os 30, não há problema e os colunistas de imprensa são escalados para falar da qualidade do repertório. Se é show de funk, soa um alerta na vizinhança, e os jornais transferem o assunto da parte de cultura para as páginas policiais ou a discussão sobre ordem pública.

Que há furtos e brigas em eventos que reúnem milhares de pessoas ninguém tem dúvida. Uma experiência no Rock’n Rio bastaria para comprovar. Ou uma simples virada de ano nas areias de Copacabana. Mas a persistente marginalidade do funk, ainda associado a bandidos, gera um tipo de reação particular que faz especialmente os moradores da zona da cidade surtarem.

O evento de MC Juninho obteve sucesso e fez a alegria de mais de 5 mil pessoas no verão da cidade. E o poder público, ao invés de banheiros químicos e transporte, como é da sua obrigação providenciar, enviou a intervenção da Policia Militar em ação conjunta com a Guarda Municipal, a Secretaria Municipal de Ordem Pública (SEOP) e a Superintendência da Zona Sul.

A pergunta óbvia para ser respondida é: seria este o mesmo tratamento das autoridades se o evento não fosse de cantores e público majoritariamente negros?

Rodrigo Veloso especial para os Jornalistas Livres

Categorias
DestaquesGeral
Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta