No Brasil, fogo não é para estátua de bandeirante, é para índio!

Grupo Revolução Periférica, que ateou fogo na imagem de Borba Gato, enfrentará repressão muito maior do que os jovens brasilenses que incendiaram e mataram o pataxó Galdino, em 1997

Por Homero Gottardello, jornalista

De uma coisa ninguém tem dúvidas: que o entregador de aplicativos e ativista do grupo Revolução Periférica, Paulo Roberto “Galo” da Silva Lima, preso na tarde de hoje acusado de atear fogo na estátua de Borba Gato, em São Paulo, depois de se apresentar espontaneamente à polícia e franquear a entrada em seu domicílio, vai enfrentar uma barra muito mais pesada do que os cinco delinquentes da alta sociedade brasiliense que, há 24 anos, incendiaram e mataram o índio Galdino Jesus dos Santos.

Afinal, ninguém precisa de bola de cristal para prever o futuro de um trabalhador pobre, da periferia, quando este ousa atrapalhar o sossego da elite paulistana. É que foram homens como Manuel de Borba Gato que prepararam o terreno para o desembarque e a instalação dos antepassados desta burguesia pós-bandeirantista e, todos sabem, o fizeram na base do extermínio dos índios que tinham a posse milenar das terras que, depois de tomadas à força, foram loteadas e vêm sendo vendidas por até R$ 14 mil o metro quadrado. E isso não é de hoje.

Paulo Roberto Galo da Silva Lima – Foto de Rafael Vilela

Quando o índio Galdino foi “confundido com um mendigo” e, então, queimado vivo, em 1997, os filhinhos de papai que o assassinaram não fizeram melhor do que bandeirantes como Borba Gato fizeram, quatro séculos antes. Aliás, fizeram “pior”, já que enquanto ao bandeirantismo é atribuído o genocídio de até 10 milhões de nativos, os mauricinhos fizeram apenas uma vítima – e, sejamos francos, uma vítima que não teve nem a oportunidade de se defender. A história se repete de forma tão correlata que, da mesma forma que todos os cinco assassinos do índio Galdino ocupam, hoje, funções públicas – ou seja, vivem do dinheiro dos impostos pagos por todos os contribuintes –, Borba Gato ocupou o cargo de juiz ordinário em Sabará (MG), cidade que chegou a ser a capital da província de São Paulo e Minas do Ouro – ou seja, cidade que, na época, chegou a ser a capital do equivalente ao Estado de São Paulo.

Portanto, há que se perguntar com toda a franqueza: as pessoas, a mídia, a polícia, a aristocracia que põe acento circunflexo e til em tudo o que fala, o governador e os desembargadores do Egrégio Tribunal de Justiça de São Paulo, além dos varredores de rua e da torcida do Corinthians, estão espantados com o quê?!?
Por um acaso, o establishment instaurando no período colonial e que se perpetua até hoje foi ferido, em algum de seus braços?!?
Alguém acha, de verdade, que o trambolho de uma estátua cafoníssima não tem mais valor do que a vida de um pataxó-hã-hã-hãe, um coitado que se abrigava em um ponto de ônibus, quando foi covardemente atacado com o mesmo fogo que chamuscou o Borbinha Gato?
A sociedade paulista, muito metida a boa de cela, não avaliza o neoliberalismo, adotando orgulhosamente seus preceitos morais, desde 1995 – portanto há mais de 26 anos?!?
Não é esta mesma sociedade que passa recibo a Malufs, Marins, Quércias, Alckmins, Serras e Dorias?!?
Esse povão assustado, impressionado, escandalizado provém, por um acaso faz parte do grupo com mais de 20 mil descendentes indígenas de 38 etnias diferentes, que ainda teima em viver na terra da garoa?!?

As respostas para todas estas questões levam a uma única conclusão: que antes a polícia, o Exército, as milícias tivessem matado todos esses desgraçados que, lá atrás, escaparam do fio da espada dos bandeirantes, do que uma estátua tão “importante” como a de Borba Gato sofresse um ataque. É porque aquela estátua se ergue ali, altiva e ufana, ostensivamente, para mostrar aos pobres qual é o lugar que eles devem ocupar na sociedade mais capitalista do Brasil. É para eles se sentirem pequenos diante da nobreza e da soberba de um autêntico desbravador, ou melhor, de um “empreendedor”. Sim, porque Borba Gato foi um homem que descobriu minas, que tinha uma habilidade reconhecida à época em como administrar os negócios.

De modo que só a imagem de um “herói” desta estirpe já vale mais do que a periferia paulistana todinha, do que todos os entregadores de aplicativo e todos os índios que já pisaram neste solo – até porque, para estes últimos, a mãe nunca foi gentil. Ainda que qualquer pessoa com o mínimo de noção da realidade sabe que não há momento mais apropriado do que este, do que o agora, para trancafiar Paulo Galo na cadeia, para jogá-lo às cobras, aos leões. Porque este sujeito é um subversivo, é daquelas vozes contagiantes que emergem da multidão, que desafia os ricos conquistando uma parcela de seus jovens com um discurso simples, honesto, fundado e, o pior, razoável. Porque este é um pobre íntegro, digno, honrado e é bom trucidá-lo antes que ele tenha o respeito de cada vez mais gente.

E mais perigoso é este grupo que, agora, passa a ser conhecido nacionalmente: Revolução Periférica. O nome já diz tudo e trata-se, certamente, de uma fagulha que ameaça tocar fogo no celeiro da pobreza, de incendiar o populacho, de atiçar até mesmo os mendigos, os miseráveis à revolta. É preciso calar esse povo, aniquilar essa revolução seja lá do que, antes que, amanhã mesmo, alguém crie uma logomarca e as pessoas passem a usar camisetas com este nome estampado, desafiando os patrões, os síndicos, os gerentes e todos os leões-de-chácara da elite do atraso. Ao passo que algum vereador deve propor, pela manhã, um projeto de lei para construção de mais 20, 50, 100 estátuas de Borba Gato e de outros bandeirantes, cuja bravura tenha sido esquecida por uma falha imperdoável, lapso de memória administrativa do Poder Público.

A sociedade paulistana tem que entender, de uma vez por todas, nem que se tenha de obrigá-la a usar pingentes de Domingos Jorge Velho, de Antônio Raposo Tavares, de Fernão Dias e Bartolomeu Bueno, dentre outros, que este é o “Estado Bandeirante”, onde índio, preto e pobre não têm vez. É aceitar, calado, ou se sublevar… A escolha é sua, é de todos.

Obs. A foto de abertura é de Sato do Brasil

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornalistas Livres

COMENTÁRIOS

  • Sim, diga-se de passagem, aqueles filhinhos de PAPAI que atearam fogo e assassinaram o índio Galdino, são já há algum tempo servidores públicos, no Senado, na PRF dentre outros órgãos e ganham acima de R$20.000,00 mensais, afora demais e extensos benefícios.

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