Inflação dos alimentos seria contida se estoques públicos estivessem cheios

Alta de preços poderia ser freada para conter a inflação se governo não tivesse ignorado estratégia que evitaria prateleiras vazias no próximo ano
O alimento está caro enquanto o agronegócio lucra
O alimento está caro enquanto o agronegócio lucra

coluna NEM TECH, NEM POP, NEM TUDO

Por Renê Gardim (*), especial para os Jornalistas Livres

Os lobistas do Agronegócio, reunidos na Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), tomaram café da manhã com o presidente Jair Bolsonaro na quarta-feira, 6 de outubro, e saíram satisfeitos com o que ouviram. E reafirmaram o apoio ao desastroso governo.

No dia seguinte, o presidente, que havia dito durante o encontro que “o agro vai muito bem” fez sua live semanal e afirmou que o Brasil deve enfrentar “problemas de abastecimento de alimentos” no ano que vem. O motivo disso seria uma crise energética na China.

Mas, se o agronegócio vai bem, qual o motivo de faltar comida para os brasileiros no próximo ano?

Agronegócio só exporta. Não alimenta o povo

Primeiro, que o agro que ele citou durante a reunião com a FPA é o agronegócio das commodities agrícolas. A Frente Parlamentar é formada por lobistas dos grandes latifúndios (o pleonasmo é intencional) que plantam soja, milho ou produzem carne para a exportação.

Não é para o mercado interno. A agricultura familiar, que responde por 70% da produção de alimentos que abastecem o mercado interno, não estava representada neste “café da manhã”.

Em segundo lugar, o país, desde o Império, depende da importação de insumos para a agricultura. Nossa produção de adubos e agrotóxicos é, de longe, insuficiente para atender a crescente demanda.

E, por último, mas mais importante, o governo atual nunca se preocupou com os estoques públicos de alimentos, que estão zerados. Nos últimos anos, essa reserva que a União deveria manter para garantir o abastecimento interno teve uma redução de 96% na média anual, considerando seis diferentes tipos de grãos. Principal produto no aumento da cesta básica, o arroz está entre os que mais puxaram a queda na armazenagem.

Considerado item indispensável na mesa do brasileiro, o feijão sumiu dos estoques públicos há mais de três anos. Já a soja, um dos principais itens no recorde da produção de grãos do país, não é armazenada desde 2013. Outros produtos que apresentam níveis baixíssimos de estoque são o café, o trigo e o milho. Os dados são públicos e podem ser acessado no site da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).

Essa situação deixa os preços internos dos alimentos sujeitos à oferta e à procura no mercado e à oscilação do real frente ao dólar, enquanto o governo se omite na sua obrigação da garantir o abastecimento e os preços para atender a população.

Portanto, os estoques públicos de alimentos são uma opção de regulação de mercado. Ou seja, se tivesse estoque elevado, o governo teria uma importante ferramenta para regular os preços.

Para formar o estoque, a Conab deve comprar o produto quando o valor de mercado (pago ao produtor) está abaixo do preço mínimo (remuneração mínima a um mercado, suficiente para cobrir ao menos os custos de produção).

A atual “política”de estoques públicos nasceu em 1966, depois de ter passado por dois “ensaios”: em 1906, com estoques de café, e em 1939, com a criação da Conab em 1939 e em 1950 com a Comissão Federal de Abastecimento e Preços (Cofap). E em nenhum momento os armazéns da União estiveram em uma situação tão crítica quanto agora.

Portanto, se os preços continuarem subindo (e tudo indica que continuarão) e se houver desabastecimento no próximo ano, a China não será a grande vilã e sim o governo Bolsonaro e o agronegócio, que “vai muito bem” enquanto o povo passa fome.

(*) Renê Gardim é jornalista há 36 anos, atuou na “Folha de Londrina”, “Jornal de Londrina” e RBS. Foi editor de economia e agronegócio no DCI.

Renê Gardim também publicou este artigo nos Jornalistas Livres. Leia AQUI

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