“Nariz negroide” é critério para cirurgia reparadora gratuita em hospital do Rio

A característica está enquadrada na mesma categoria de tumores, nariz fissurado, malformações e sequelas de trauma

Via Alma Preta

De acordo com informações do departamento de cirurgia plástica do Hospital Geral de Bonsucesso (HGB), no Rio de Janeiro, o nariz negroide – característica comum em pessoas negras – é um dos critérios para correção facial cirúrgica e reparadora. O documento, disponível no site da instituição, afirma que os critérios de inclusão para que a pessoa seja elegível para uma cirurgia plástica gratuita são: tumores nasais, sequelas de trauma, malformações, rinomegalia, nariz fissurado e nariz negroide.

Para o médico de família e comunidade Henrique de Azeredo Mirenda, que atende na Clínica da Família Sérgio Vieira de Melo, no Rio de Janeiro, o fato do nariz tipicamente negro ser considerado passível de correção é um critério de cunho racista.
O médico, que trabalha em uma UBS (Unidade Básica de Saúde), explica que as unidades especializadas – em cardiologia, cirurgias, tomografias, etc – têm critérios de agendamento, que são as situações em que os pacientes devem se encaixar para ter determinado atendimento. Logo, os serviços de cirurgia plástica têm seus respectivos critérios de encaminhamento, como cicatrizes de queimadura, deformidades após acidentes, reconstrução de mama após câncer, desvio de septo nasal para rinoplastia, entre outros.
“O que aconteceu aí nesse caso é que, no meio desses critérios de inclusão para atendimento, eles listaram ser portador de nariz negroide como uma situação passível de tratamento”, avalia.Henrique ainda destaca que quem quem elabora essas listas de critérios é o próprio serviço, não o hospital em si, “apesar do hospital também ser responsável por gerir essas informações”.
“Então, dentro de um hospital com vários setores, como o HGB, cada setor sabe seus critérios de atendimento e publica isso para que a regulação – o setor de gestão de encaminhamentos – direcione corretamente os pacientes para o serviço que contempla o atendimento necessário”, ressalta.
Nariz caucasiano ainda é considerado o padrão
Para a médica Tatiana Novais, considerada a primeira cirurgiã plástica negra do Brasil, a “ditadura do nariz fino” é algo que está longe de acabar. A especialista, que é dona de uma clínica de harmonização facial em Salvador (BA), explica que diversos fatores sociais contribuem para a não aceitação dos traços tipicamente negros, como o formato do nariz, lábios, e mandíbula.
“O sucesso das redes sociais e seus filtros voltaram a enfatizar que o nariz deve ser estreito e com ponta fina. A realidade atual é que encontramos cada vez mais meninas muito jovens, pré-adolescentes, exigindo ir ao consultório médico para operar o nariz”, destaca.
No início de sua carreira como cirurgiã plástica, a médica relembra que lhe causou estranheza o fato de os traços faciais serem baseados em números. Ela explica que, no ramo estético, existe uma medida exata do que é aceitável para um nariz, por exemplo, ou do que é considerado proporcional em uma face padronizada como bonita. Consequentemente, esses cálculos excluem a estética negra.
“Existe um padrão numérico caucasiano. Estes números foram brilhantemente calculados por Leonardo da Vinci, há 500 anos, e se mantêm até hoje. Baseado nestes números, a grande maioria dos negros está fora do padrão estético ideal e com necessidade teórica de alguma intervenção”, avalia a especialista.
Para a médica, os traços negros têm suas características marcantes, que devem ser preservadas como herança ancestral, e modificar um nariz negro não significa deixá-lo com características caucasianas extremas.
Alma Preta Jornalismo entrou em contato com o Hospital Geral de Bonsucesso para repercutir as informações e compreender as razões pelas quais o nariz negro é considerado passível de correções cirúrgicas. Até o momento desta publicação, a entidade não se pronunciou a respeito. Caso respondam, o texto será atualizado.

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