Não, pode mais meu coração.

A capital é meu destino e o tempo é pouco. Procuro entender o que une movimento por moradia e movimento indígena em um governo de esquerda, a morada como direito de aldeia e sonho das famílias urbanas.

Brasília

 

No sábado parti para Brasília em carona com o movimento pela moradia e ao encontro dos índios, sempre em movimento, contra o impedimento da presidente e contra a  PEC 215. Casa é coisa feminina e moradia é coisa séria, e as mulheres, em maioria, ocupam o ônibus, deixando seus maridos, filhos e tanques em defesa da democracia. Ah, as mulheres, sempre as mulheres a rimar coração com valentia. O vermelho delas aqui é vida, fardo que se carrega na cabeça apaixonada e no interior das opções , não é dor nem confronto. Valentia é sangue de aorta e regra, é urucum na pele e batom na boca, esmalte de unhas.

 

Amanhece em nossas janelas o domingo, após longa noite em curso na rodovia. Pão com mortadela é tudo de bom diante de nossa vontade, e a alvorada se mostra plena anunciando um seco dia. De todas as cores, essa gente se reúne na esplanada árida, dividida por lata suja de muro terrorista  nas linhas do arquiteto. Um rio vermelho de gente desce o eixo esquerdo do Plano, rio doce de todos os cantões do país, enquanto uma lagoa verde e amarela se represa na margem direita da via obstruída.

Brasília

 

O tempo dessa gente é acostumado aos ventos contrários e ao sol quente do campo, viver sempre foi um grande sertão. Os indígenas que aqui encontro estão sem muito entender essa confusão dos brancos, tempo de índio é outro e aqui estão preocupados com suas terras e protestam contra a PEC 215. Há muito cobram da presidente Dilma a demarcação e homologação de seus territórios tradicionais e o fim dos assassinatos. Sabem bem as mulheres indígenas os riscos que correm com uma mudança repentina de governo.

Brasília

Sobre nossas cabeças vão as bandeiras, no céu os helicópteros, no chão a guarda a conter as emoções das multidões. Solitária uma senhora porta a Nossa Senhora nos braços diante do peito perante o Congresso, me diz que mulher não se avexa, e que esses homens deputados não sabem o que dizem, conclui.Brasília

Enfim a longa noite finda e cai como cunha lágrima no asfalto. Apesar de todo paradoxo político desse momento, de toda deselegância dos homens feios que encheram a grande bacia da Câmara dos Deputados no cálido domingo, apesar da pouca determinação do governo em demarcar terras tradicionais, assentamentos e ocupações, elas choram e olham firmes para o horizonte, sabendo que muito há por se fazer ainda.

É um país que foge de nós agora, são bocas femininas, milhares de bocas que gritam aos falos do congresso e que, em pura provocação, os incautos projetam seus desaforos. Não há de ser nada, sabem indígenas, negras, brancas e seus companheiros. Não passarão minha querida, a luta continua, afirmam todas.

Brasília

 

6jl Brasília Brasília Brasília Brasília Brasília

 

COMENTÁRIOS

POSTS RELACIONADOS

A cor do golpe

Os discursos de ódio a conta gota, institucionalizaram-se. Eles destilam o ódio a negros, mulheres, LGBTIQIA+, nordestinos e pcd’s.

Democracia para sempre

Em seu primeiro discurso como presidente da república pela terceira vez, Lula destaca seu compromisso com a democracia