NÃO NOS PRECISAMOS

 

É triste oferecer à alguém uma chance de piorar as coisas. Alguns servidores da Funai escreveram uma carta, demonstrando indignação e preocupação com a situação de risco iminente a qual os povos indígenas em isolamento voluntário no Brasil, estarão sujeitos caso seja modificada a política de aproximação, o contato.

Será que a senhora futura ministra da “Cidadania”, Damares, sabe o que é uma frente etnoambiental? Seria ela capaz de mencionar o nome de um único povo indígena recém contatado no Brasil? É necessário e importante se conhecer os elementos de um contexto.

Localizados numa área de refúgio, entre os rios Cuminapanema e Erepecuru, norte do Pará, os Zo’é procuraram manter-se afastados tanto dos povos indígenas vizinhos, que consideram inimigos, quanto dos brancos, que conheciam através de contatos intermitentes. -imagem Acervo Projeto Xingu/UNIFESP

Os povos indígenas são à imagem e semelhança do que fomos, sei lá quando, em algum momento de nossa existência. O “grau” de contato desaparece no espaço de 500 anos, dando lugar à Historia. Éramos apenas uma possibilidade, acenando para um futuro difícil e provavelmente impossível, dependentes que fomos da boa vontade de um índio nos ensinar como se planta uma mandioca. O índio em sua plenitude cultural, produz tudo aquilo que precisa para sua sobrevivência; planta sua roça, pesca ou caça apenas o essencial para sua alimentação, fabrica suas armas, suas casas, seus objetos para as mais diversas funções, do cotidiano ao ritual, enfeita-se vaidosamente, adquire conhecimento sobre sua medicina e sua floresta, educa seus filhos e compreende seus velhos, tudo com “responsabilidade” social, adaptados biótica, eco e tecnologicamente às suas necessidades, possibilidades e vicissitudes. É uma sofisticada simplicidade. Damares certamente não compreende que os índios são o verdadeiro “Eldorado”, uma essência de humanidade, quase inacreditável. São sociedades paralelas à nossa, não nos cruzamos, não nos precisamos.

 

 

*Adelino de Lucena Mendes da Rocha é antropólogo, autor de  Guerreiros do Norte – Memórias de um tempo histórico. Imagens e artes por Helio Carlos Mello

 

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornalistas Livres

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