Meu amigo Ariano

a crônica de uma saudade

Meu amigo Ariano eu conheci ainda menino, mas fui conhecendo mais conforme fui crescendo.
Acho que tinha uns 11, 12 anos quando o acaso nos apresentou.
Foi na biblioteca da escola que a gente se conheceu.

Corria o ano de 1985.
No recreio do grupo escolar era fácil identificar três tipos de crianças: as poucas às quais os pais davam dinheiro para o lanche, as muitas às quais os pais não davam dinheiro para o lanche e tinha eu, que não tinha nem o dinheiro do lanche dado pelos pais, nem os pais.

Restavam duas alternativas possíveis, a fila da merenda oferecida pelo governo Montoro, que não era nenhum Lula lá, mas quebrou o galho naqueles tempos bicudos de redemocratização, e a biblioteca da escola, meu reino encantado particular.

Salvo quando tinha alguma sorte — coisa rara, e faturava um trocado de maneira honesta ou nem tanto, pontualmente as 16:00h a fila da merenda e a biblioteca da escola eram meus destinos certos de segunda a sexta-feira.

Foi numa dessas incursões ao meu reino encantado particular, mais conhecido como biblioteca pública, que conheci o meu amigo Ariano.
E o meu amigo Ariano me apresentou os seus amigos.

  • João Grilo, um rapaz pobre que vivia tentando se dar bem através de expedientes. Trabalhava para o Padeiro, e era o melhor amigo de Chicó.

  • Chicó era um rapaz bem covarde, que gosta de contar mentiras. Entre uma mentira e outra, deixava escapar a grande verdade, que na verdade tinha um bom coração. Também trabalhava para o Padeiro, que remédio? e era o melhor amigo de João.

  • O Padeiro era um homem avarento, dono da padaria onde trabalhavam Chicó e João Grilo. Padeiro era casado com Dora.

  • Dora era uma mulher muito infeliz. Adúltera, mas que se dizia santa. Tentava agradar seu marido, o Padeiro mas o enganava, e a si mesma também se enganava.

  • Padre João era o padre que chefiava a paróquia de Taperoá, cidade onde vivia quase todo mundo dessa crônica. Muito racista e avarento, Padre João só queria saber de dinheiro, e não era pouco dinheiro não.

  • O Bispo, que assim como o padre, era muito avarento, e difamava seu colega de batina, o Frade.

  • O Frade era um homem religioso, honesto e de bom coração. Nem sabia que era difamado pelo seu colega de batina, o Bispo.

  • Antônio Morais era um major ignorante e autoritário, que usava seu poder para amedrontar os mais pobres. Uma espécie de Jair Bolsonaro do século passado.

  • Severino era um cangaceiro que encontrou no crime uma forma de sobrevivência. Seus pais foram mortos pela polícia, e desde então Severino desacreditou da Justiça, e fez do Cangaço a sua própria Justiça.

  • Cangaceiro era um dos capangas de Severino que fazia de tudo para agradar seu chefe, Severino. Não era muito inteligente Cangaceiro, mas era leal ao seu chefe, Severino, e era só isso que importava aos dois.

  • A Compadecida era a própria Nossa Senhora, mãe de todos e toda bondosa. Delicada. Confesso que foi um choque conhecê-la, eu que não estava nem um pouco acostumado com essa coisa de mãe, menos ainda de bondosa e delicada então nem se fala.

  • Manuel era um juiz do povo, julgando sempre com sabedoria e imparcialidade, e que tinha o dom da misericórdia. Diferente dos juízes de hoje, principalmente um certo Sérgio Fernando. Aliás era diferente também na cor da pele, preta, o que causava espanto em alguns, mas em mim não. Simpatizei como ele na hora. Era pobre, como eu. Era dos meus.

  • Encourado era a encarnação do diabo. Desprovido de qualquer tipo de sensibilidade ou misericórdia, era uma versão mais diabólica do Bolsonaro.
    Pois é, o mal tem várias versões e faz tempo, há muitas gerações.

Pois bem, foi na biblioteca de um grupo escolar na Zona Sul de São Paulo, numa tarde em 1985, que o acaso me apresentou ao amigo Ariano Suassuna através de sua obra prima, “O Auto da Compadecida”.

Desde então Ariano passou a ser meu amigo, um dos melhores amigos que já tive.

Nunca cheguei a conhecer o amigo Ariano Suassuna pessoalmente, mas nos tornamos amigos inseparáveis desde aquela tarde, em 1985.

Ariano Suassuna nos deixou no dia 23 de julho de 2014, mas nossa amizade dura até hoje.

Um dia eu contarei para meu filho Fidel as histórias que Ariano Suassuna me contou através de suas obras.

Contarei para ele as vezes em que me sentia deprimido, absolutamente sozinho, e abria um vídeo do amigo Ariano no Youtube, e sua maneira simples de enxergar a vida e contar seus causos me enchiam o coração de alegria, espantando a tristeza e a depressão que insistiam em nele fazer morada.

Contarei todas essas histórias para Fidel, e muitas outras mais, e terminarei todas essas histórias como meu amigo Chicó terminava as suas, assim:
“só sei que foi assim.”

“Cumpriu sua sentença. Encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é a marca do nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo, morre.”
Trecho de “O Auto da Compadecida”

Ariano Suassuna, presente!

★Parahyba, Paraíba — 16 de junho de 1927
★Recife, Pernambuco — 23 de julho de 2014

Assessor de comunicação social, ativista político, defensor dos Direitos Humanos, pai do Fidel.

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Assessor de comunicação social, ativista político, defensor dos Direitos Humanos, pai do Fidel.
Um comentário
  • André Guerra Cotta
    26 julho 2018 at 22:07
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    Maravilhoso. Muito obrigado!

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