Me perdoe, Dona Marisa, mas eu não consigo conter a raiva em certas horas

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Dona Marisa, não conheci a senhora. E olha que até poderia, se eu fosse um pouquinho mais insistente. Várias vezes a senhora passou bem perto, mas não arranhei o protocolo e não a cumprimentei. Teve uma vez que a senhora ficou sozinha sentada num sofá a poucos metros de mim, por alguns segundos intermináveis, mas eu envergonhado, titubeei. E perdi.

Com seu marido foi mais fácil. Apesar de toda a lenda, foi fácil me entrepor em seu caminho e ele mesmo veio me cumprimentar, apertou a minha mão com força, olhou nos meus olhos e sorriu. Mas com a senhora, não consegui perder a timidez, que, sim, a tenho por perto em alguns momentos consideráveis.

E hoje, chorei. Chorei de raiva. Me perdoe, dona Marisa, mas eu não consigo conter a raiva em certas horas. É um defeito meu. Eu perco a razão constantemente. Provavelmente a senhora ralharia comigo se a gente se conhecesse. Mas não tenho como controlar essa minha natureza.

Eu socaria quem viesse me abraçar solenemente, depois de ajudar na tortura diária de destruição de uma história inteira. Lembro dos pedalinhos que a senhora deve ter se divertido com seus netos, lembro do tal triplex que sumiu no anonimato, de tudo que não tinham como provar, mas tinham convicção.

Fiquei sabendo do seu estado de saúde, em Fortaleza, durante a 10ª. Bienal da UNE. Nossa, como meus olhos se encheram de água quase instantaneamente. Olhei para os lados para procurar algo ou alguém que me confortasse. E vou dizer o que vi, dona Marisa: uma Bienal negra, completamente negra, dona Marisa. Estudantes negros e negras de todo canto do país. E muitas mulheres, muitas mesmo. A força das lideranças tinham vozes femininas, em sua maioria. E isso tem nome: ProUni, FIES, Pronatec, Política de Cotas, Políticas de Inclusão. E muita potência e muito amor. Isso tem muito a ver com a senhora, com seu marido. Sinta-se acarinhada com essa imagem, por favor, dona Marisa!

Imagino a dor e preocupação da senhora, vendo a possibilidade de ter seu marido e seus filhos presos sem nada que os incriminasse legalmente, explorada até a última gota por essa grande pequena mídia que se esforçou minuto a minuto em transformá-los nos inimigos número 1 da nação brasileira. Falaram até da senhora, como último ato para atacar o Presidente Lula.

Essa cultura do ódio que a mídia golpista, os juízes apadrinhados e os burocratas do poder semearam sem nenhum pudor, devem tê-la deixado muito nervosa, né, dona Marisa? Quem aguentaria tanta ira? Eu não aguentaria.

Fico pensando se isso acontecesse com minha mãe, como eu agiria? Com certeza a calma não seria minha companheira e o meu instinto seria expulsar cada traidor que viesse se avizinhar de nossa dor. Ah, dona Marisa, se eu visse aqueles bandoleiros chegando em bando perto da senhora, com aquela baba no canto da boca e pousassem a mão sobre a senhora, eu gritaria com todos os meus pulmões: Tirem suas mãos sujas daí, seus porcos safados! Assassinos de gabinete, caiam fora antes que o vinho escorra de suas caras de pau!

E o que deixa mais puto com esses pilhadores da vida alheia, é que não me deram o tempo necessário para combater minhas fraquezas e finalmente chegar na sua frente e dizer com a voz baixa e respeitosa: Oi, Dona Marisa, meu nome é Sato. Posso fazer uma foto da senhora?

COMENTÁRIOS

  • Belo texto. Com tantas bobagens escritas por aí atacando , acusando, que somos obrigados a ler até no grupo de wats , é reconfortante ler essas palavras .

  • Nossa! Emocionante. Desculpe a inveja, mas queria ter escrito este artigo. Parabéns Sato.

  • Perfeito seu texto, Fernando Sato. Traduz todo o meu sentimento, qdo vi aquela corja, chegando para prestar “solidariedade”. Hipócritas, golpistas e traidores.

  • Chorei aqui a cada frase escrita. talvez porque traduziu exatamente o que estou sentindo… e agora sou eu que gostaria de dizer obrigada… materializou meu sentimento…..

  • Apesar de passado muitos dias, preciso comentar . Esse texto me deixou super emocionada, e como já postaram anteriormente com uma inveja danada de não ter o talento pra escrever coisas lindas assim. Parabéns Sato !

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