Lula em BH: comício foi bom, mas podia ser melhor

Está na hora de sair da bolha. O povão gosta do Lula mas precisam se aproximar para garantir a vitória no primeiro turno
Lula abriu a campanha fazendo seu primeiro comício público em Belo Horizonte - Foto de Ricardo Stuckert

Por Aloísio Morais, jornalista

Alguém pode me chamar de chato, mas mesmo não tendo vocação para ‘desmancha prazeres’ tenho algumas críticas ao comício do Lula, o primeiro de uma série na campanha em evento aberto ao público, na noite da última quinta-feira em Belo Horizonte. É isso, foi bom, mas podia ser melhor. Por que, se metade da Praça da Estação ficou cheia e todo mundo saiu de lá satisfeito, animado com o evento comandado pelo jornalista Chico Pinheiro e a cantora Aline Calixto?

Porque faltou povão e sobrou militância. Isso mesmo, saí de lá com essa nítida impressão, aquele sentimento de ‘me engana que eu gosto’. Mas, por que teria acontecido isso? Porque a divulgação do comício foi precária, ficou restrita praticamente aos grupos (muitos deles de militantes políticos/partidários) das redes sociais e feita em cima da hora. Aliás, como tem ocorrido intensamente nestes tempos de isolamento e pandemia. Alguém divulga algo nas redes sociais e sai achando que todo mundo vai tomar conhecimento. Não vai.

Até mesmo petistas roxos ficaram confusos diante da convocação interna para o comício. No dia 9 de maio Lula privilegiou também Belo Horizonte como primeira cidade a visitar para um encontro com a militância, no Expominas, no bairro Gameleira, distante do centro da capital mineira. Naquela ocasião, Lula ainda não estava oficializado como candidato e, portanto, não podia fazer um evento aberto como o de agora. Por isso, quem se interessou a participar do encontro teve de se inscrever com antecedência, inclusive por questões de segurança. Agora, em cima da hora do comício, começou a circular nos grupos de zapzap uma convocação para o evento informando que também seria necessária a inscrição, numa barberagem da organização. Até que o equívoco fosse desfeito correu muita água debaixo da ponte, e é possível que muita gente tenha desistido de ir.

Pode me chamar de saudosista também, mas bons tempos aqueles da campanha das Diretas Já, em meados da década de 1980, quando era nítida a presença do povão nos comícios em plena ditadura. Não tinha internet, mas tinha faixas colocadas estrategicamente nas ruas e avenidas chamando o povo para os comícios – de fazer inveja aos que são realizados hoje. Havia também inserções nas emissoras de rádio chamando o povo para o evento, além de panfletagem nas ruas, nas portas de fábrica etc. O povão ficava sabendo e lá comparecia.

Acho que está faltando um pouco disso para os eventos de nosso campo, a esquerda, o que é facinho, facinho de fazer. Quem compareceu lá na Praça da Estação como eu, com um certo olhar crítico pôde ver claramente que ali estava presente maciçamente a militância partidária, que foi convocada pelos seus partidos e lá compareceu. Mas após uma transmissão ao vivo na minha página no Facebook pude ver nos comentários que muita gente, até mesmo jornalistas, não sabiam do comício do Lula em Belo Horizonte.

E foi isso mesmo que aconteceu, confirmando o que já apontava meu desconfiômetro antes do comício. Sim, tinha muita gente na Praça da Estação, mas era nítido que a multidão era formada de militantes políticos. Podia ter muito mais gente. Encerrado o evento, ao rumar para o Viaduto da Floresta, pude ver que realmente era grande o número de militantes que vieram em caravana do interior. Eram vários os grupos que se organizavam antes de tomarem os ônibus rumo às suas cidades de origem. E quem estava preso dentro dos veículos não entendia por que o trânsito estava lento. Os moradores desconheciam a presença de Lula no coração de BH. Por pura falta de informação.

Ou seja, está passando da hora de sair da bolha. O povão gosta de Lula e se o candidato à presidência quiser mesmo ganhar no primeiro turno os dois precisam se aproximar em eventos como os comícios.

Pronto, falei!

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornalistas Livres

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