JOSELITA MORREU DE TRISTEZA

Leandro Barbosa do História Incomum, especial para os Jornalistas Livres

Joselita e Betinho que foi morto pela PM. Foto Arquivo Pessoal.

Quando a Chacina de Costa Barros aconteceu, em janeiro do ano passado, os familiares dos cinco jovens mortos souberam do ocorrido pelo WhatsApp. Nas favelas do RJ, o App se tornou ferramenta de sobrevivência, mas também o portador das más notícias, estas, conforme afirmou, na ocasião, Mônica, a mãe de Cleiton (18), um dos jovens assassinados, são cotidianas:

“Não é possível tanto sofrimento na vida de uma mãe. Aqui todo o dia morre gente e nunca sai na imprensa, quem garante que esses policiais não vão vir na minha casa e fuzilar todo mundo?”.

A impossibilidade de tal sofrimento, dita por Mônica, foi o que consumiu o emocional de Joselita de Souza, mãe de Roberto, o Betinho, de 16 anos. Ela foi internada por parada cardiorrespiratória, logo depois descobriram que ela também estava com pneumonia e anemia, mas não foi isso que a matou, para os seus familiares e amigos, ela morreu de tristeza. Na quinta feira, dia 7, como afirmou seu filho mais velho, Vinicius: “dignamente, ela se entregou”.

O remédio que era necessário para amenizar a sua dor se chama Justiça, algo que nos últimos meses ela passou a não acreditar mais, e se agudizou com a soltura dos policiais Antonio Carlos Gonçalves Filho, Thiago Resende Viana Barbosa, Marcio Darcy Alves dos Santos e Fabio Pizza Oliveira da Silva, acusados pelo assassinato de seu filho. Todos retornaram ao trabalho, agora, atuando administrativamente, sem prazo para o processo interno de exclusão, segundo a PM do RJ.

A mola propulsora da tristeza de Joselita, não foi apenas a morte do filho, a angústia da mulher se fez forte pela injustiça. O Estado matou Roberto e, em seguida, deu o golpe de misericórdia em sua mãe. A Chacina de Costa Barros carrega mais uma morte, Joselita é a sexta vítima. A mulher não morreu a tiros, mas o que a rasgou por dentro foi a omissão das autoridades responsáveis pelo caso.

No ano passado, estive no Complexo do Alemão e conversei com o Sr. Carlos, marido de Elisabeth Alves de Moura Francisco, que também foi morta pela Policia. Para ele, o coração de quem mora na favela é um coração amputado. E, nessa cirurgia, o cirurgião é o Estado, e o procedimento, sem anestesia, mata aos poucos, dói. Em sua última noite com o filho mais velho, Vinicius, em uma conversa franca entre eles, Joselita chorou. Era sobre o “Betinho” que eles conversavam e sobre ela não se entregar à tristeza, mas ela já havia decidido, enfim, descansar. A dor da amputação já não lhe cabia mais.

Joselita e os dois filhos dois filhos, vinicius e betinho. Foto Arquivo Pessoal.

Joselita e os dois filhos, vinicius e betinho. Foto Arquivo Pessoal.

Vá em paz, Joselita! No que depender nós, clamaremos por Justiça.

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3 comentários:
  • Alberto Lima Guarani-Kaiowá
    10 julho 2016 at 23:15
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    puts que triste e pensar que nada será feito é revoltante, depois como nos EUA, vem um pai desse revoltado faz uma chacina de policias ai cria um ciclo vicioso

  • Lílian Souza
    11 julho 2016 at 8:20
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    MUITO BOM Leandro… Continuemos clamando e lutando por Justiça, mesmo quando notícias como essa faz a gente perder a esperança no mundo. #continuemos #elesnãopodemmorreremvão

  • Poderia ser meu filho, poderia ser meu filho
    6 julho 2017 at 9:33
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    […] Costa Barros, zona norte do Rio, depois que o carro onde estavam foi alvejado por 111 tiros (!!!), morreu… de tristeza. Sim. Como aceitar a ideia de que seu filho foi lanchar com os amigos e não voltou para casa […]

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