Enquanto as condições continuarem se deteriorando o terreno será fértil para milícias de direita

JL Entrevista – Paul Prescod

O ano de 2020 foi marcado por acontecimentos até então impensáveis. Para além da pandemia global assistimos a maior potência bélica do planeta passar por situações nunca antes vistas – como o ataque não respondido a uma de suas bases militares em solo estrangeiro e a erupção de manifestações e distúrbios por enfrentamento racial espalhados de costa a costa do país. Dentro desse cenário de caos as eleições presidenciais de Novembro foram um capítulo (de literatura fantástica) à parte.

Da grande esperança popular, representada pela candidatura do Senador socialista Bernie Sanders (DSA), destruída pelo establishment conservador dominante entranhado no próprio Partido Democrata, passando por uma campanha presidencial onde a fanfarronice nonsense do ex-presidente Donald Trump atingiu novos patamares, até a inédita não aceitação da derrota por sua parte – as eleições ianques deixaram o resto do mundo entre a confusão e o estarrecimento.

Assistimos boquiabertos à invasão do Capitólio em Washington por parte de uma esquizofrênica brigada de weirdos e freaks armados até os dentes e “capitaneados” por um sujeito usando um chapéu de pelúcia com chifres. Tudo poderia ser apenas pitoresco não fossem as 5 mortes oficiais ocorridas no processo e a convocação pessoal do até então presidente Donald Trump ao bizarro ato. Mais grave ainda foi o vultoso apoio financeiro de diversas grandes corporações, como Walmart, Koch Industries e Amazon, aos movimentos que convocaram o ato assim como a suspeitíssima complacência das forças de segurança durante o assalto ao Capitólio.

Para compreendermos melhor toda essa confusão e termos um parâmetro da visão do próprio povo americano sobre essa exótica quadra histórica, entrevistamos Paul Prescod, professor da rede pública, articulista da revista Jacobin e presidente da comissão trabalhista do DSA (Democratic Socialists of America) de Filadélfia.

Jornalistas Livres: Gostaríamos de te pedir pra traçar um panorama geral resumido das eleições norte americanas de 2020 – da onda Bernie até a não aceitação do resultado por Donald Trump – quem foram os principais atores sociais desse pleito?

Paul Prescod: Vamos começar com Bernie Sanders. Sua campanha foi ainda mais forte desta vez (do que em 2016) e sua base de apoio mais entusiasmada. Provou que não era fogo de palha ou um modismo; as políticas sociais-democratas ressoaram profundamente em grandes grupos de trabalhadores de todas as raças. Sua base de doadores de campanha foi majoritariamente formada pela classe trabalhadora; trabalhadores de serviço, trabalhadores do Walmart, trabalhadores da Amazon, motoristas de caminhão, professores, etc…

Apesar das contínuas tentativas cínicas de usar o identitarismo como método de ataque, Bernie se saiu melhor desta vez com os eleitores não brancos. Ele surpreendeu todo mundo quando se tratava de apoio entre os latinos e teve o maior apoio entre os eleitores negros com 35 anos ou menos, ficando em segundo lugar, perto de Joe Biden, no voto negro em geral. É fácil esquecer isso agora após a derrota, mas ele foi a primeira pessoa a vencer as três primeiras primárias! Quando Sanders ganhou Nevada por uma margem enorme, o establishment entrou em pânico porque parecia realmente possível que ele conseguisse ser o candidato democrata.

Há muita especulação sobre o que causou a queda de Bernie. Acho que, no final das contas, tudo se resume ao fato de que todos os outros candidatos desistiram e se consolidaram em torno de Biden. Ficou óbvio que isso foi um movimento para impedir Bernie. Depois que Biden dominou a Superterça, a lógica da “elegibilidade” assumiu e começou a parecer inevitável que Biden fosse o indicado dos democratas. O surgimento da COVID-19 também deixou muitos eleitores democratas ainda mais ansiosos por ter um candidato que vencesse Trump a qualquer custo.

Embora possamos respirar aliviados pela derrota de Trump, esta não foi uma boa eleição para os democratas. Em muitos estados Biden teve desempenho pífio, mesmo com o fato de ser amplamente reconhecido que Trump tratou de forma grosseira a resposta à COVID-19. Os democratas esperavam obter grandes ganhos na Câmara, mas na verdade perderam cadeiras. Trump realmente ganhou apoio entre os eleitores negros e latinos.

Os democratas contaram principalmente com uma base de eleitores suburbanos ricos para colocá-los no limite de uma vitória apertada. Esta é uma coalizão muito instável e pouco confiável. Trata-se de um eleitorado que geralmente se opõe a qualquer tipo de redistribuição de riqueza. O partido não conseguiu recapturar pessoas descontentes da classe trabalhadora em número significativo.

 JL: Em sua opinião existe alguma viabilidade no “esperneio” pós-eleitoral de Donald Trump? Qual o grau do potencial disruptivo de Trump e seu núcleo duro – incluindo milícias e grupos radicalizados e também seu aparato jurídico e financeiro – para a desacreditada democracia norte americana?

PP: É muito difícil prever com exatidão. Não sabemos se Trump realmente se tornará uma força consistente na política nos próximos anos ou se ele irá lentamente desaparecer e retornar ao setor privado. Mas mesmo que sua tentativa de manter o poder tenha sido desajeitada e incompetente, parece que os republicanos lançaram suas bases testando os limites do que eles poderiam fazer para violar a democracia no futuro.

Enquanto as condições continuarem se deteriorando, sem uma resposta ousada do estado, o terreno será fértil para esses grupos de milícia de direita. Novamente, não vou fazer previsões específicas, mas está claro que se não houver uma resposta de esquerda para esses problemas sociais fundamentais haverá uma de direita. Incluindo milícias perigosas.

JL: No campo progressista brasileiro, possivelmente devido a conhecida simbiose Trump-Bolsonaro, a vitória de Joe Biden foi encarada de diferentes maneiras por diferentes setores de esquerda. Observamos desde entusiasmo pela vitória do Partido Democrata, o “menos conservador”  (e subsequente enfraquecimento de Bolsonaro) no sistema binário dos EUA, até desalento pela vitória de uma suposta direita mais “profissional” – representada pelo Sistema Obama – e estrategicamente mais daninha à esquerda global. Qual é a posição de grupos como o DSA sobre esse aspecto? Nas pautas políticas de maior peso a rota dos EUA está traçada pelo chamado “deep state” ou existem frações antagônicas dentro do famoso e obscuro “poder de bastidor” norte americano?

PP: Para grupos como o DSA, era importante tirar Trump, mas a eleição de Biden representa a restauração do poder tradicional do establishment. Biden deixou muito claro que quer “voltar ao normal”, ou a forma como as coisas eram feitas durante os anos Obama. Ele está trazendo de volta muitas das pessoas que serviram no gabinete de Obama e foram a espinha dorsal de sua política externa. Acho que o Deep State prefere uma figura mais estável e previsível como Biden. De certa forma, Trump não tinha uma visão coerente da política externa e era suscetível a voltas repentinas ou desviar-se do consenso estabelecido.

JL: Se por um lado Biden venceu em contrapartida os democratas não foram bem nas disputas eleitorais locais. A ala moderada do Partido Democrata está culpando as alas socialistas e o movimento Defund the Police (“cortem verbas da polícia”, movimento reivindicatório descentralizado, semelhante ao Black Lives Matter,  que exige a diminuição da participação do aparato policial nos orçamentos estaduais e municipais. Em muitas cidades dos EUA o aparato policial representa quase metade do orçamento público total). Qual é a sua opinião sobre isso?

PP: Não há muita base empírica para essas afirmações das alas moderadas dos democratas. Os representantes que apoiaram o Medicare for All e o Green New Deal, por exemplo, venceram a reeleição. Os candidatos que perderam eram centristas que não ofereceram nenhum tipo de proposta econômica popular mais atraente. A questão do Defund the Police é um pouco mais complicada. Não falo por toda a esquerda aqui e, na verdade, minhas opiniões podem ser impopulares entre muitos esquerdistas dos EUA. Mas acredito que o slogan não é bom porque confunde as pessoas e significa coisas diferentes para pessoas diferentes. Acho que é possível que em algumas raças o medo desse slogan tenha alienado alguns eleitores. No entanto, não houve nenhuma prova definitiva disso, e certamente esta não é a principal razão pela qual os democratas se saíram tão mal nas eleições locais.

 JL: Trump em 4 anos causou muito estrago aos direitos trabalhistas dos norte americanos. É razoável esperar postura diferente de Joe Biden nesse quesito?

PP: Não devemos esperar muitas mudanças com Biden. Ele pode indicar pessoas melhores para o National Labor Relations Board (NLRB), e acho que ele fará isso. Eles podem derrubar algumas das piores decisões do NLRB da era Trump. O movimento trabalhista está em um estado muito fraco, então eu não diria que eles estão em uma posição forte para enfrentar o governo Biden. No entanto, há um crescente interesse e apoio da opinião pública aos sindicatos. É possível que possamos ver um modesto ressurgimento nos próximos anos.

 JL: No Brasil existe um vivo debate sobre estratégia nos partidos e movimentos de esquerda. De um lado materialistas de pensamento mais clássico e de outro movimentos de viés identitário. Sabemos que nos EUA tal debate também está posto. Em sua opinião quais foram os reais pesos de movimentos como BLM e do velho establishment democrata que encamparam o viés propagandístico identitário e de movimentos como o DSA ou de sindicatos que se centraram mais nas condições materiais dos trabalhadores para “puxar votos” para Biden?

PP: Em minha opinião, Black Lives Matter é amorfo e sua infraestrutura como movimento social não é clara. Isso o torna vulnerável ao uso pelas elites. A chapa Biden inclinou-se fortemente para a identidade e diversidade oca como parte de sua estratégia eleitoral. Por outro lado, fez muito poucas promessas quando se tratava de interesses de classe. Mas essa estratégia não teve muito sucesso no sentido de que a vitória de Biden dependia de pessoas brancas ricas, não de pessoas de cor da classe trabalhadora.

JL: Durante toda a segunda metade do século XX e inicio deste século, os EUA foram muito eficazes em vender a visão para o mundo de que possuíam um sistema eleitoral e – subsequentemente, uma democracia – modelo. Parece ponto pacífico que as eleições 2020 escancararam para o Mundo as graves falhas do sistema norte americano. Qual foi o tamanho do estrago geopolítico e da perda em softpower da superpotência causado por essa eleição?

PP: Por um lado, esta eleição foi embaraçosa, mas, por outro, parte do público pode acreditar que a legitimidade foi restaurada com a eleição de Biden. Acho que o desenvolvimento de potências globais como a China será mais significativo geopoliticamente do que a forma como as eleições de 2022 se desenrolaram. Outro fator será se Biden tentar perseguir aventuras bélicas estrangeiras equivocadas da mesma forma que Barack Obama fez. Ele está enchendo seu gabinete com muitos dos mesmos falcões da política externa do governo Obama, o que não é um bom presságio para a vida das pessoas em todo o mundo.

JL: O que você acha que a esquerda americana precisa fazer para evitar que outro Trump, ou alguém pior, tome o poder novamente em 2024?

PP: O difícil é que a esquerda não tem hegemonia no Partido Democrata, e ainda não temos muito controle sobre o que o establishment do partido faz. Em termos gerais, precisamos começar a abordar as profundas necessidades econômicas e sociais dos trabalhadores. Esta é a única maneira de evitar o populismo de direita. Precisamos gerar algumas vitórias ou avanços para mostrar que é possível e que esse é um caminho melhor do que eleger um palhaço demagógico.

Não é uma tarefa fácil. Não devemos estar pensando em quem será o candidato em 2024. Devemos estar pensando em como construir nossa força em nível estadual para resistir ao impulso de austeridade brutal, e a partir desse movimento gerar candidatos fortes da classe trabalhadora no nível local. A campanha de Sanders demonstrou que não podemos reconstruir nosso peso social na sociedade ao longo de apenas um ciclo eleitoral. Vencemos a batalha das ideias, agora é a tarefa mais difícil de vencer a batalha da organização e da força social. A boa notícia é que agora sabemos que a política social-democrata é amplamente popular com muitas pessoas, mesmo que neste momento não pareça ser alcançável.

Paul Prescod durante ato do sindicato UAW

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