Eleições na Baixada Cuiabana ainda são retrato do Brasil do passado

Ruralistas devastadores de terra, oligarquias políticas de séculos, militares seduzidos pelo poder, corruptos históricos, novos ricos, juízes e promotores se dizendo heróis e até carne com Covid-19 sendo exportada pra China... Que país/estado é esse?
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Ninguém sabe que Brasil vai sair das urnas na noite desse domingo 15 de novembro. Disputas de narrativas, fake news, Covid-19, eleição nos EUA (será que é o começo do fim da onda neofacista global?), violência política e ativismo do judiciário tornam o cenário imprevisível. De fato, se tomarmos como exemplo a “Capital do Agronegócio”, as perspectivas não são das melhores. Na calorenta cidade que passou mais de três meses com o céu encoberto pela fumaça das maiores queimadas da história do Pantanal, preservação do meio ambiente não foi exatamente o tema mais popular nas campanhas.

Com a política local dominada há séculos por poucas famílias, especialmente as ligadas à agricultura e pecuária, como a Maggi, do ex-governador e ex-ministro Blairo Maggi, cuja empresa (Amaggi) foi acusada de adquirir bois de produtores responsáveis pelos incêndios criminosos desse ano, a expansão sem limites é a palavra de ordem. A ideia é “passar a boiada” mesmo, ainda que sobre terras indígenas!

E com a cumplicidade de multinacionais como a Marfrig, que possui uma planta frigorífica em Várzea Grande, na região metropolitana de Cuiabá, de onde, soubemos ontem, saiu o lote de carne congelada com Coronavírus exportado para a cidade de Wuhan, na China, local de início da pandemia.

Na frente da disputa em VG está, aparentemente (a última enquete foi barrada na justiça porque apresentava resultado acima de 100% na soma das intenções de voto, Kalil Baracat, apoiado pela família Campos, da atual prefeita Lucimar Campos, esposa do senador Jayme Campos. Sobre ele e o irmão Júlio Campos, que teve o mandato de deputado federal cassado em 2014 por compra de votos pendem acusações até de assassinato político “investigadas” pelo antigo Sistema Nacional de Informações (SNI) da ditadura, como apontou levantamento realizado pelo repórter Lázaro Thor para o Congresso em Foco.

Essas acusações de crimes, contudo, não parecem comover os eleitores da região metropolitana de Cuiabá. Entre o candidato dos Campos e “Emanuelzinho”, filho de Emanuel Pinheiro, candidato à reeleição do outro lado da Ponte Sérgio Motta, a escolha é mesmo difícil. O pai, não se sabe exatamente como, saiu ileso da CPI do Paletó, criada para investigar a denúncia de propina paga a ele, quando era deputado, por Sílvio Corrêa,  ex-chefe de gabinete do ex-governador Silval Barbosa, preso por corrupção e lavagem de dinheiro. O atual prefeito ficou famoso nacionalmente em agosto de 2017, quando foram divulgados os vídeos com a distribuição de propinas no gabinete. Diferente de outros corruptos precavidos, que levaram mochilas e pastas para carregar o dinheiro, Pinheiro estava desprevenido e ria ao perceber que os maços de notas caíam para fora dos bolsos cheios do paletó.

No horário eleitoral, Pinheiro e Roberto França, condenado há mais de oito anos de prisão por crime de responsabilidade e falsidade ideológica durante a última das três vezes que foi prefeito, parecem disputar quem tem a ficha mais suja. Se aproveitando dessa briga, corre na ponta das pesquisas o vereador Abílio Júnior, chamado de “louco” e “desequilibrado” pelos colegas da casa a quem “chamou pro pau” várias vezes em pleno plenário da Câmara, tendo quase sido cassado por isso. Mas na campanha ele se destacou mesmo por ter dito no primeiro debate na TV que a única concorrente feminina ao pleito, a advogada negra Gisela Simona, é uma boa candidata “mesmo sendo mulher” .

Machismo, racismo, ruralismo, militarismo e falso moralismo, apontando a corrupção alheia como se fosse se tivesse a exclusividade da honestidade, é um pacote que casa bem com a extrema-direita e, portanto, com o bolsonarismo. Não à toa isso é bastante comum na quinta capital que mais apoia o governo fascista, com 45% de ótimo e bom em pesquisa recente do IBOPE e em todo o estado. Daí a ter muitos candidatos que se enquadram nesse perfil é quase consequência. Um exemplo claro é a disputa pela vaga no Senado, que terá nova eleição depois da cassação por caixa dois da ex-juíza Selma Arruda, que usou durante a campanha de 2018 o slogan “Moro de Saias” e antes de cair acusou o político que a substituiu provisoriamente, o ex-governador Carlos Fávaro, de também ter feito uso do mesmo mecanismo ilegal de financiamento.

Fávaro é novamente candidato ao Senado e vai disputar com 10 outras candidaturas. Além do cargo em si, diferente do que tem acontecido em cidades como Rio de Janeiro e São Paulo, vários também lutam pela maior “proximidade” ao presidente. Assim, quando Nilson Leitão, o deputado que em 2017 tinha um projeto de lei para que os proprietários rurais pudessem pagar seus trabalhadores com comida e moradia ao invés de salário (é escravo que chama?), diz que tem o apoio do presidente, Fávaro contesta dizendo que ele é do mesmo partido do governador de São Paulo e, portanto, é inimigo de Bolsonaro. Outros já preferem se alistar nas fileiras bolsonaristas pela via militar. Esse é o caso da coronel Rubia Fernanda Siqueira e do sargento Elizeu Nascimento, ambos da Polícia Militar de Mato Grosso.

Nesse quadro, a possibilidade de vitória de candidaturas de esquerda é pequena e, aí sim infelizmente como outros lugares no Brasil, ainda mais quando não há uma união entre os partidos e mesmo disputas internas nas agremiações. Entretanto, eleições como a de Lula em 2002 e vitórias improváveis como a de Luiza Erundina em São Paulo em 1988, provam que isso não é impossível. Mas é preciso, sim, formação, organização e unidade. Talvez as lições do resultado domingo ao menos apontem rumos e possibilidades.

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