É preciso matar a fome de nosso povo primeiro

Não há preocupação dos exportadores com o abastecimento global, mas, sim, com o lucro

Por Renê Gardim*

A diretora-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Ngozi Okonjo-Iweala, visitou o Brasil na semana passada e aproveitou para falar uma frase de efeito espetacular.

A nigeriana, primeira mulher a comandar o órgão, disse textualmente que “o mundo não sobrevive sem a agricultura brasileira”. E mostrou grande interesse em saber o quanto nosso país pode ajudar para evitar uma iminente crise alimentar mundial.

Em entrevista ao jornal “Valor Econômico”, Ngozi chegou a afirmar que “se o Brasil exportar adicionalmente alimentos, poderá ajudar a frear a espiral de alta dos preços globalmente”.

É compreensível o discurso da dirigente da OMC, afinal estamos em um período de alta global nos preços dos alimentos devido à sérios problemas provocados pela pandemia e pela guerra na Ucrânia.
Mas ela resolveu visitar o Brasil e fazer seus apelos num dos piores momentos.

Afinal, o atual governo federal destruiu as políticas voltadas para a segurança alimentar e 116 milhões de pessoas — mais da metade dos lares brasileiros — estão em situação de insegurança alimentar e mais de 20 milhões passam fome. Esses números são da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssan).

Portanto, não é o momento para se falar em alimentar o mundo. Primeiro precisamos cuidar de nossa população. Talvez Ngozi tenha sido mal assessorada ou mesmo enganada por um governo que insiste que nós alimentamos 1 bilhão de pessoas no mundo.

Embora eu mesmo tenha caído nessa teoria, estava errado. Vou explicar…. O erro está em considerar os números absolutos da produção de grãos e proteína animal (carne de boi, aves, suínos e caprinos brasileiros). Se levarmos em conta apenas o volume total desses produtos, realmente produzimos o suficiente para alimentar 10% (um décimo) da população mundial.

imagem: redes sociais

Mas isso realmente acontece??? Claro que não. É preciso primeiro considerar a desigualdade social. Tanto no Brasil como no mundo. A quantidade de alimentos que produzimos seria suficiente para dar de comer a todo o Brasil, com larga sobra e também uma parte considerável da população mundial. Isso é fato!

Mas, esses alimentos chegam à mesa dessas pessoas? A resposta é simples: nem mesmo na mesa do brasileiro. E os números acima mostram isso. Precisamos lembrar também que a alimentação não se restringe às commodities (soja, milho, trigo, carne). Portanto, até mesmo Ngozi está muito enganada.

O prato na mesa das pessoas é muito mais diverso e precisa ter legumes, verduras, outras proteínas. Assim, o Brasil não é celeiro do mundo. A produção de alimentos precisa de outros “celeiros”.

Não temos como evitar uma iminente crise global alimentar. Também não temos como aumentar a exportação de alimentos (commodities) sem ampliar o desabastecimento que tem causado a elevação da fome e o recrudescimento da insegurança alimentar no país.

E a diretora-geral da OMC também se esqueceu de outro fato. O exportador de commodities agrícolas não tem nenhum interesse na redução dos preços de produtos agrícolas globais. Prefere manter os grãos estocados e o gado no pasto à ampliar a oferta de forma a superar a demanda.


Traduzindo, tudo não passa de uma preocupação em lucros cada vez maiores. E a população…..

(*) Renê Gardim é jornalista há 36 anos, atuou na Folha de Londrina, Jornal de Londrina e RBS. Foi editor de economia e agronegócio no DCI. Contato pelo e-mail [email protected]

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