E-mails vazados da Cambrige mostram poucas ações no Brasil, mas confirmam democracia hackeada

Brittany Kaiser, ex-funcionária da empresa que interferiu nas eleições norte-americanas, revela reunião entre representante da Cambrige Analytica com um "candidato à presidência"

A campanha eleitoral de 2018, que elegeu o atual des-presidente Jair Bolsonaro, foi essencialmente marcada pela disseminação indiscriminada de informações falsas. Os métodos de manipulação adotados pela equipe do então candidato de extrema-direita foram baseados nas práticas da empresa Cambrige Analytica fundada em 2013. Nas eleições americanas de 2016, o supremacista branco Steve Bannon (amigo pessoal da família Bolsonaro e de Olavo de Carvalho) usou seus métodos para influenciar a campanha de Donald Trump.

Apesar de não ser novidade que a Cambrige Analytica fez negociações para se instalar no Brasil com objetivo de manipular as eleições de 2018, por intermédio do publicitário baiano André Torretta, novos e-mails vazados na última quinta-feira, dia 3, pela ex-funcionária da empresa Brittany Kaiser revelam grandes intenções dos marketeiros, que fizeram até uma reunião com um candidato ao pleito para presidência (cujo nome não é citado). Os arquivos, que datam de maio de 2016 a janeiro de 2017, mostram o tamanho da ambição da Cambrige Analytica para interferir no Brasil: “Nos próximos 18 meses, teremos 28 campanhas políticas e, pelo menos, 84 candidatos com orçamento em torno de R$ 2 milhões. Isso sem mencionar os contratos com governo federal e os 27 estados”, escreve Pedro Vizeu-Pinheiro, diretor brasileiro da SCL Group, empresa que era a controladora da Cambrige Analytica, em 29 de setembro de 2016 .

Ao mesmo tempo em que Vizeu-Pinheiro tentava cooptar políticos, ele orientou Mark Turnbull, diretor responsável pelo setor de campanhas eleitorais dentro da Cambridge Analytica, a orquestrar uma parceria com alguma empresa de marketing brasileira. Em um e-mail ele explica que “não há ‘estrangeiros’ trabalhando em consultoria política aqui. O último foi James Carville [estrategista político do Partido Democrata dos EUA] em 1996. Para entrar no ‘segundo maior mercado político do mundo em gastos de marketing’, é necessário um parceiro local”, escreveu.

No mesmo e-mail, Vizeu-Pinheiro recomenda André Torretta, dono da empresa de marketing Ponte Estratégia, como um possível parceiro. A associação, que levou o nome de CA-Ponte, seria anunciada pouco menos de seis meses depois, em março de 2017. Em entrevista à BBC, Torretta explicou que a parceira teria como foco a transferência e a “tropicalização” da metodologia de segmentação psicográfica, que traça o perfil psicológico dos eleitores. A intenção não era saber o perfil político e demográfico dos brasileiros, mas sim identificar do que as pessoas têm medo, o que as inspira, quais temas rejeitam e quais apoiam para adaptar a mensagem do candidato ao público. “O cara pode ser um medroso de direita ou um medroso de esquerda. Com qualquer um desses dois eu vou poder conversar sobre armamento, por exemplo, sobre controle de fronteira”, disse o marketeiro à época. Ele também divulgou suas intenções em usar do WhatsApp para as campanhas.

Entre maio e setembro de 2016, as negociações para interferir nas eleições brasileiras seguiram por e-mail — a intenção era que Turnbull viajasse ao Brasil para encontrar com os possíveis interessados em adotar os métodos da Cambrige Analytica em suas campanhas. A visita aconteceu, de fato, em 26 de outubro de 2016. No entanto, as conversas revelam que, apenas um dia antes, Vizeu-Pinheiro não havia fechado nenhuma reunião entre políticos e Turnbull, o que deixou o responsável pela Cambrige Analytica desapontado: “Eu pouso na quarta pela manhã e estou livre até a tarde de quinta. Será uma tremenda oportunidade jogada fora se eu fizer toda essa viagem e tiver de ficar sentado em meu quarto de hotel atrás de um computador!”, escreveu Turnbull a Vizeu-Pinheiro. Em seguida, ele pede que Brittany Kaiser — que administrou todas as trocas de e-mail — tentasse agendar algumas reuniões. “Brittany, eu me lembro que você tinha contatos em São Paulo que [talvez] eu pudesse encontrar? Não se preocupe se não tiver. É que o Pedro tem sido um tremendo desapontamento em organizar as coisas para mim”. Segundo as mensagens, ela consegue apenas um encontro com a cônsul-geral do Reino Unido em São Paulo, Joanna Crelin, e a responsável pela área de comércio, Lauren Frater.

Nesse momento, não há mais registros do que se sucedeu após essa visita de Turnball ao Brasil. No entanto, sabe-se que a empresa CA-Ponte foi anunciada seis meses depois, além de um e-mail de reunião de andamento dos contratos da Cambrige Analytica, datado de 25 de janeiro de janeiro de 2017, que revela pré-acordo com quatro prefeitos brasileiros. Não há detalhes sobre as negociações. O contrato de Vizeu-Pinheiro, segundo planilha vazada, termina apenas em 19 de julho de 2017.

Todos os métodos usados pela Cambrige Analytica foram replicados pela equipe de campanha de Jair Bolsonaro, que recebeu, inclusive, orientações de Steve Bannon. Tanto que, na primeira viagem que fez aos EUA, assim que eleito, Bolsonaro se reuniu com o estrategista de Trump. Outra evidência de interferência é que, na semana passada, o Ministério da Justiça e Segurança Pública multou o Facebook em 6,6 milhões de reais por conta do compartilhamento indevido de dados de mais de 400 mil brasileiros. No documentário Privacidade Hackeada, disponível na Netflix, a eleição de Bolsonaro é apresentada como exemplo de fraude eleitoral comandada pela empresa de análise de dados. Em uma mensagem publicada após o vazamento dos e-mails, Brittany Kaiser escreve: “Nos últimos dois anos, dei evidências a pesquisadores, jornalistas e acadêmicos para analisar o que aconteceu na Cambridge Analytica e como nossos dados foram usados ​​para influenciar democracias em todo o mundo. Em nome da divulgação dessas práticas obscuras, estou liberando documentos e e-mails na íntegra para o bem público”. Ela revela que foram, ao menos, 65 países influenciados pelas práticas criminosas da empresa.

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