Deus e o Diabo

ensaio de Helio Carlos Mello - fotos de João Bittar e Helio Carlos Mello

Quando nasci fui Getulina. Em São Bernardo do Campo me percebi. Em Bauru fui jovem. Em São Paulo me entendi homem.

Meu pai bancário, na borda do campo, me deixava correr entre a molecada e nos prédios em construção que ele nem sabia. Eu, certa vez fui suspenso por um homem barbudo, em monte de areia que brincava, nas fundações de sede de sindicato dos metalúrgicos, que entre minha casa e a fábrica da Brastemp, se erguia no ABC. O barbudo era Luis Inácio, Lula vim a saber, em fotos dos jornais nos tempos das assembleias na Matriz Nossa Senhora da Conceição da Boa Viagem e no estádio da Vila Euclides. Naquele tempo tudo fantasiava entre as multidões nos largos e os desfiles militares nas avenidas que via e meu pai me conduzia em passeios para passar o tempo.

Uma entre muitas imagens, do fotógrafo João Bittar, no percurso do sindicalista Lula.

Uma entre muitas imagens, do fotógrafo João Bittar, no percurso do sindicalista Lula.

Tempos depois mudei com a família para Bauru e lá descobri a fotografia e os jornais impressos que estampavam fotografias de João Bittar, Juca Martins, Nair Benedicto e Jorge Araújo, entre outros. No cinema da cidade tive o primeiro emprego como auxiliar de projeção, abrindo grandes latas de rolos de filme e, me lembro bem, que Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, foi a primeira película que vi exibida em minha estreia fugaz no mundo das recompensas.

Lula e Glauber passaram muitas vezes, costuraram pensamentos e entendimentos em minha geração que transitou lucidez. Mais nos colaboraram nos momentos decisivos do que nos furtaram no futuro presente .

Mudei para São Paulo nos anos 80 já querendo a fotografia como ofício e João Bittar me acolheu durante ensaio em  funeral de Tancredo Neves, que entre populares em pranto no Incor, me entregou um cartão da Folha, após meu primeiro free lancer.

Muitos foram os anos e os caminhos no exercício da comunicação e seus pareceres. Em  cinquentenário da vida, fico pensando  na imagem que se solidifica em nós como guia e aquelas que se  cunham hoje, por outros meios, e conduzem outras legiões.

Lula

Candidato à reeleição, Lula se pronuncia na convenção do PT, em Brasília, durante o lançamento da campanha.

Lula o vi muitas vezes, Glauber apenas na grande obra e herança. Com João Bittar aprendi a olhar. Hoje tudo se assenta e polariza. Meu caminho é o da geração nascida em golpe. O que definir? Ao que me desanima e infla angústia, meus heróis derrubados, também me leva ao encontro de algo novo em cena, uma nação, cercada pelos jacarés do fascismo, pelas piranhas do atraso, pelas sequelas da falta de coragem.

O que resta dos últimos cinquenta anos de um país? Não sei fazer poemas de guerra, dizia Manoel Bandeira no Rio antigo. Na tarde nublada de hoje pego as Cartas ao Mundo, de Glauber Rocha, empoeirada na estante, enquanto Lula mostra o umbigo em foto de Bittar na parede.

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Intervenção sobre fotografia de Ronaldo Theobald, em determinante ensaio de Glauber Rocha.

Dos nascidos no golpe fica a convicção e a meta da igualdade de direitos e a democracia como paradigma, mesmo que alguns a neguem e definam a ditadura e o militarismo como desejo. Esses não passarão.

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