Desemprego: como distorcer sem mentir

Por César Locatelli, especial para os Jornalistas Livres

A taxa de desemprego de setembro de 2015, calculada pelo IBGE, embute uma notícia boa: nos últimos três meses o desemprego se estabilizou, parou de aumentar. Os jornais tradicionais não transmitem isso em suas matérias sobre o assunto e são criticados por ressaltarem, sempre, o lado negativo dos fatos.

Vamos ver primeiro o dado divulgado pelo IBGE?

O gráfico abaixo, elaborado pelo próprio IBGE, mostra que a curva, que era fortemente ascendente desde dezembro de 2014, mostrou uma tendência de estabilização. Ainda não temos dados suficientes para afirmar que a tendência de queda do emprego se inverteu, mas podemos ter esperança de que a reversão começou.

Vamos ver os meses de setembro dos últimos anos?

O gráfico a seguir, também elaborado pelo IBGE, mostra que durante oito anos, de 2002 até 2009, a taxa de desemprego foi superior a de hoje e que em 5 anos, 2010 a 2014, foi inferior. Nosso recorde foi em setembro do ano passado quando a taxa de desocupação chegou a 4,9%. A média dos últimos 14 meses de setembro ficou em 8,2%. O desemprego de hoje, portanto, ainda está abaixo da média e é muito menor do que os 13% de 2003.

Vamos ver como os jornais tradicionais noticiaram isso?

“O Globo” foi o primeiro a colocar sua manchete: “Desemprego tem a maior taxa para setembro desde 2009, diz IBGE”.

Depois veio a manchete do UOL: “Desemprego se mantém estável em setembro, mas tem alta em um ano”. Até que é equilibrada, não é? Mas tem que ter um “mas”.

Na mesma linha está o jornal “O Estado de S.Paulo”: “Desemprego fica estável em 7,6%, a maior taxa para setembro desde 2009”.

O “Valor Econômico”, que já foi um jornal menos engajado politicamente, publicou: “Taxa de desemprego é a maior para setembro desde 2009, aponta IBGE”. A manchete não contém nenhuma indicação sobre a possível estabilização da tendência. No meio da matéria, dizem que consultores ouvidos apontavam expectativa de que a taxa ficaria em 7,8%. A manchete, então, poderia ser: “Desemprego fica abaixo das expectativas do mercado”. Bem, para uma manchete assim ser publicada seria necessário mudar o resultado das eleições do ano passado.

Podemos ficar deprimidos com a notícia de hoje do IBGE ou termos uma ponta de esperança de que o emprego, certamente o indicador mais relevante da economia de um país, tenha se estabilizado. A escolha é nossa.

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