Comunidades de Refugiados e Imigrantes Iniciam Articulação Inédita em São Paulo

Por Karla Portes, Hélio Carlos Mello e Mauro Lopes. Fotos: Hélio Carlos Mello.

Pitchou Luambo, Hortense Mbuyi e Christo Kamanda

O restaurante/bar/refúgio Al Janiah, no centro de São Paulo, uma referência para a comunidade de refugiados e imigrantes palestinos, sírios e árabes da cidade. Tornou-se um centro de eventos, debates, expressão artística e cultural. Na noite de ontem (2), o Oriente Médio encontrou-se com a África. O Al Janiah recebeu refugiados-amigos do Congo que apresentaram aos mais de 150 presentes, em uma aula-testemunho emocionada, um emaranhado das histórias do país e de alguns congoleses e congolesas.

A iniciativa insere-se numa nova articulação que começa a tomar corpo, um processo de diálogo e interação das comunidades de refugiados/imigrantes de diversos países e nações capaz de conferir aos seus integrantes protagonismo que muitas vezes lhes é negado nas organizações de acolhimento brasileiras.  Jobana Moya da equipe de base Warmis (imigrantes da América Latina) e Hasan Zarif, do [email protected], Movimento palestina para todos, abriram a roda de conversa.

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“Podemos conversar entre nós, aproximar, conhecer uns aos outros, e assumir nossos destinos no Brasil com mais autonomia e protagonismo” diz Pitchou Luambo, congolês refugiado no Brasil há seis anos e um coordenador geral do GRISTI (Grupo de Refugiados e Imigrantes Sem-Teto de São Paulo).

Ele foi um dos que apresentaram a realidade do Congo ontem à noite. Em seu país, era advogado e sua atividade era centrada na defesa de vítimas de estupro. Em São Paulo, além de ativista do GRISTI, cursa pós-graduação lato sensu em política e relações internacionais na FESPSP.

Pitchou apresentou um documentário sobre o Congo que surpreendeu todo mundo. “Sangue no celular” – veja aqui em inglês com legendas em espanhol: http://www.teledocumentales.com/sangre-en-el-movil-subtitulado/

O Congo é palco do mais sangrento conflito do mundo desde a Segunda Guerra Mundial, com mais de 6 milhões de mortos nos últimos 20 anos –uma guerra escondida aos olhos do Ocidente. No centro da disputa, que envolve o próprio Congo, Ruanda, Uganda e Burundi, está um metal, o coltan. É um metal de alta resistência térmica, eletro-magnética e corrosiva e, por isso, fundamental na composição dos chips utilizados nos celulares, notebooks, desktops e outros eletrônicos. O Congo tem nada menos que 80% das reservas mundiais do metal e os três países que lhe movem guerra tornaram-se exportadores sem ter nenhuma mina de coltan.

Hortense Mbuyi e Ptichou Luambo durante a projeção do documentário “Sangue no celular”

Hortense Mbuyi e Ptichou Luambo durante a projeção do documentário “Sangue no celular”

É uma guerra especialmente sangrenta; sequestros, estupros, chacinas são rotineiros. Pitchou apresentou ontem à noite um panorama sobre a guerra e o interesse da indústria tecnológica no coltan. Ele relatou algo dramático, que acontece desde o tempo da colonização pelos belgas: mata-se com especial afinco os mais velhos nas tribos. Como a cultura no país é fortemente oralizada, a morte dos mais velos significa um ataque direto aos transmissores da cultura e tradições do povo.

Depois de Pitchou falou Hortense Mbuyi, também congolesa e advogada. Ela é ativista pelos direitos das mulheres e apresentou uma dramática denúncia da violência sofrida por elas no Congo. “O estupro é arma das guerrilhas. Além da violência física há uma violência psicológica feroz. Muitas mulheres e crianças são estupradas diante dos homens da família.  Isso abala psicologicamente todos na tribo.” Para Hortense,  “a globalização de que tudo mundo fala, significa o bem estar de uns poucos à custa de milhões e milhões que estão sofrendo, com as guerras, violências , explorações.”

Por fim, falou Christo Kamanda, jornalista congolês e ativista pelo direito de expressão dos imigrantes. Ele apresentou a importância da mobilização da comunidade internacional para o mundo entender e se sensibilizar com o drama da guerra do Congo.

Hélio Carlos de Mello, dos Jornalistas Livres, que foi lá acompanhar o encontro depois de um almoço muito animado e revelador ao redor de Pitchou Luambo, também ontem, escreveu um breve texto sobre a noite:

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“A PALAVRA REFUGIADA

Meu ato se recolhe em noite úmida. Em porão de viaduto e bares refugiados na cidade encontro homens vindos de antigo reino. Descubro na cidade soturna o espírito do grande Reino do Congo, e desvelo que o solo retalhado pelos colonizadores europeus, que habita nossos celulares e toda eletrônica da comunicação, tornou-se o solo sagrado dos enterros, talvez a história mais feroz da intolerância humana e ferocidade do capitalismo, onde países disputam a golpe de facão e tiros de fuzil o minério que nos permite sermos países desenvolvidos.

Saio meio envergonhado da palestra, pensamento vago na noite fria, acanhado de ser gente e consumidor. A dor não se refugia na alma, fica estampada nos olhos, na pele, nos gestos, apenas migra e nos comunica seu pesar. Imigrar é vontade de vida, é desejo de prosseguir e plantar. Quando se foge da morte vencemos a noite, mas não da história que nos condena todos à reflexão.”

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3 comentários:
  • Lili Angelika
    5 junho 2016 at 20:29
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    E assim segue como na antiga história dos diamantes de sangue…

  • Eduardo M P Silva
    6 junho 2016 at 16:27
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    só para corrigir um pouco uma informação: onde se menciona que o “coltan” é um metal usado etc… na verdade é o nome dado a uma mistura de dois outros (columbite e tantalita) de onde se extraem dois metais (nióbio e tântalo). Esses sim são usados na indústria de tecnologia.

  • Guilherme DiAS
    19 junho 2016 at 12:47
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    Pergunta ao editorail como O Movimento Palestina Para Todos pode realmente ser para Todos ???

    Se existe um aparthaid Islamico na Palestina Faixa de Gaza :

    1) nao ha nenhum bar GAY
    2)As mulheres vao para cadeia ao desobedecerem os seus maridos
    3) Os cristao pagam Jizya Imposto islamico da humilhacao que eh cobrado de todo nao mulcumano ate que ele se converta ao islam
    4) Pena de morte execucao publicas para crimes em jugamento. A maioria foram pessoas que se opuseram ao regime

    Eh isto o modelo de democracia e pais de diretos iguais a todos LGBT ou minorias etnicas que eles propoem neste Palestina para todos?

    Como eu vou visitar a Igreja no Santo sepulcro se eles “lutadores para igualidade ou liberdade assumirem o poder?”

    Refugiado sim !!!

    Terrorista nao. !!!

    O brasil ja tem probelma de mais sem estes “guerrilehiros “”revolucionarios”” do apartheid islamico”

    Sou fa do Dailalama por sua luta sincera, pacifica e honesta
    Sou fa do Gandih pela sua luta pacifica e exmplo a humandide

    Sou contra a movimentos Facistas e violentos ocomo ISIS e seu comparcas

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