Chame o ladrão

A declaração do General e a música de Chico Buarque

reprodução do site Sustentabilidade e Democracia

Tomando um café na manhã de quatro do quatro. Despretensiosamente olhando pela janela. Encosta um furgão cinza na frente da minha casa. Coração e mente disparam. Meu corpo revive tempos escuros, tempos da completa ausência de liberdade para pensar ou agir ou falar. A música de Chico Buarque quebra a linha de raciocínio.

Acorda, amor
Eu tive um pesadelo agora
Sonhei que tinha gente lá fora
Batendo no portão, que aflição
Era a dura, numa muito escura viatura
Minha nossa santa criatura
Chame, chame, chame lá
Chame, chame o ladrão, chame o ladrão

Lembrei-me dos livros que foram queimados ou enterrados pelo medo de serem vistos como subversivos e se tornarem motivos para as pessoas serem presas. Quem definia o que era subversão ou não eram os militares, sem discussão. E o 477? Foi um decreto-lei de 1969 que determinava o seguinte:

Art. 1º Comete infração disciplinar o professor, aluno, funcionário ou empregado de estabelecimento de ensino público ou particular que:

I – Alicie ou incite à deflagração de movimento que tenha por finalidade a paralisação de atividade escolar ou participe nesse movimento;
II – Atente contra pessoas ou bens tanto em prédio ou instalações, de qualquer natureza, dentro de estabelecimentos de ensino, como fora dêle;
III – Pratique atos destinados à organização de movimentos subversivos, passeatas, desfiles ou comícios não autorizados, ou dêle participe;
IV – Conduza ou realize, confeccione, imprima, tenha em depósito, distribua material subversivo de qualquer natureza;
V – Seqüestre ou mantenha em cárcere privado diretor, membro de corpo docente, funcionário ou empregado de estabelecimento de ensino, agente de autoridade ou aluno;
VI – Use dependência ou recinto escolar para fins de subversão ou para praticar ato contrário à moral ou à ordem pública.

Acorda, amor
Não é mais pesadelo nada
Tem gente já no vão de escada
Fazendo confusão, que aflição
São os homens
E eu aqui parado de pijama
Eu não gosto de passar vexame
Chame, chame, chame
Chame o ladrão, chame o ladrão

Chico, ao imaginar a quem poderia recorrer caso fosse preso, só encontrou uma saída para sua canção: chamar o ladrão! Posto que não havia ninguém a quem recorrer, mesmo que não se tivesse praticado qualquer ato que representasse risco ao regime. Você podia ser levado a qualquer momento, sem qualquer explicação e sem qualquer satisfação posterior à sua família.

Se eu demorar uns meses
Convém, às vezes, você sofrer
Mas depois de um ano eu não vindo
Ponha a roupa de domingo
E pode me esquecer

Quem ia não sabia se voltava. Por isso Chico, na música, pede que a mulher o esqueça depois de um ano. O período, talvez, mais violento aconteceu quando o país comemorava a vitória na Copa do Mundo do México em 1970. Sem que a maioria se desse conta, o verde-amarelo daqueles que exaltavam o tri se misturava com o vermelho do sangue que corria nos porões do regime.

Acorda, amor
Que o bicho é brabo e não sossega
Se você corre, o bicho pega
Se fica não sei não
Atenção!

As políticas econômicas prejudicavam os trabalhadores com alto desemprego e violento arrocho salarial. Qualquer manifestação contrária, no entanto, era violentamente reprimida. Num certo momento, as políticas adotadas para o país começaram a resultados que causavam prejuízos a todos, também à elite econômica: ausência de crescimento, alto desemprego, inflação altíssima, uma dívida impagável com bancos estrangeiros. E mesmo os partidários da extrema direita não podiam se manifestar. Os jornais que apoiaram o golpe tentaram mudar de lado e foram censurados. Havia censores nas redações. Censores nas editoras, nas gravadoras. A maior parte da população não sabia o que ocorria.

Não demora
Dia desses chega a sua hora
Não discuta à toa, não reclame
Clame, chame lá, chame, chame
Chame o ladrão, chame o ladrão, chame o ladrão
(Não esqueça a escova, o sabonete e o violão)

O tuíte do Comandante do Exército Brasileiro, general Eduardo Villas Bôas, trouxe à vida fantasmas que julgávamos definitivamente extintos. O carro na porta da minha casa, hoje dia quatro do quatro, era um furgão cinza onde se lia em preto sobre fundo amarelo: ESCOLAR!

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