Artistas e políticos veem na Carta pela democracia uma arma para vencer Bolsonaro

Douglas Belchior, Bela Gil, Marcelo Rubens Paiva, Renato Freitas, Marina Silva, Daniela Mercury, Leci Brandão e Sonia Guajajara usam a carta na luta contra Bolsonaro e o bolsonarismo
Leitura da Carta às Brasileiras e Brasileiros, no pátio das Arcadas - Foto de Caio Guatelli
Leitura da Carta às Brasileiras e Brasileiros, no pátio das Arcadas - Foto de Caio Guatelli

Não foi um ato político comum. Sentimentos e memórias jorravam na Faculdade de Direito da USP, na manhã deste 11 de agosto, à espera da leitura da “Carta às Brasileiras e aos Brasileiros”, que visa a por freio aos desvarios golpistas do presidente Bolsonaro. O documento atual foi inspirado na histórica “Carta Aos Brasileiros”, de 1977, escrita e lida no mesmo cenário, em plena ditadura militar, pelo professor Goffredo da Silva Telles (morto em 2009). O conteúdo denunciava a ilegitimidade do sangrento governo e pedia a volta do Estado de Direito.

Quarenta e cinco anos depois, testemunhas daquele episódio voltaram ao território livre do Largo São Francisco para denunciar retrocessos políticos, fome, genocídio, desmanche de direitos e grave risco para o processo eleitoral de outubro. “Eu estava aqui, eu vi o professor Goffredo ler a Carta”, recordou o advogado e ambientalista Fabio Feldmann, que cursava o terceiro ano de Direito aos 22 anos. “Foi um marco na minha vida”, contou. Eleito deputado federal em 1986, Feldmann participou da elaboração da Constituição de 1988 recordando o que escutara do mestre nas arcadas da faculdade. “O que eu não podia imaginar é que precisaríamos reafirmar a democracia com tanta firmeza, para salvá-la. Acreditava que havíamos enterrado o autoritarismo, a censura, o atraso”, explicou. “É estarrecedor perceber que, em tão pouco tempo, nos vemos numa situação tão crítica. Acho que a lição serviu para mim: luta democrática tem que ser feita todo dia”.

Na última quinta-feira, dos corredores, escadarias e janelas que davam para o pátio da faculdade de direito, muita gente falava na importância da nova carta assinada por um milhão de pessoas. Ela mostraria aos brasileiros desavisados o tamanho da encrenca que nos meteremos, caso a sociedade não ponha fim ao bolsonarismo. Os mais velhos recordavam o Brasil da falta de liberdade, as prisões, os desaparecidos nos sombrios porões da ditadura. Os nascidos depois de 1977 contaram como os anos de chumbo respingaram nas suas vidas. Relembrar onde estavam, o que sentiam sob o desgoverno dos militares ou após sua queda é uma forma de enxergar a urgência de afastar do Congresso Nacional e da Presidência da República tiranos delírios que hoje arruínam a vida do povo brasileiro. Veja o que os entrevistados disseram:

Marcelo Rubens Paiva, escritor

“Eu tinha 18 anos e atuava no movimento estudantil na Unicamp. Minha mãe, que se tornou ativista, duas irmãs e eu viemos ouvir a carta em 1977, com esperança de que o povo pudesse vencer. Participávamos de todos os atos de resistência desde que perdemos meu pai (o deputado Rubens Paiva, que havia feito um discurso convocando estudantes e sindicalistas a resistirem ao golpe militar dado na véspera, e em favor do presidente deposto, João Goulart. Ele teve o mandato cassado e, em 1971, sua casa foi invadida. Rubens foi levado preso e nunca mais apareceu). Eu discursei no palanque das Diretas e levei à Constituinte a defesa dos deficientes. Sempre militei para que o passado não volte nunca mais. Somos uma democracia nova, com um antidemocrata tentando criar um estado de tensão para alavancar um processo autoritário. Não dá para descansar, a vida é luta”

Marina Silva, ex-senadora, ex-ministra, candidata a deputada federal pela Rede-SP

“Eu vivia em Rio Branco em 1977, tinha acabado de sair do convento e trabalhava com as Comunidades Eclesiais de Base. Naquele momento, aprendia com Chico Mendes (ambientalista, sindicalista, assassinado em 1988) a lutar por dias melhores para o povo da floresta. Ajudei a fundar o PT e a CUT, mas não conhecia a carta lida pelo professor Goffredo. Posso afirmar que estou vivendo o lançamento da histórica Carta de 2022, tão necessária quanto a primeira, como integrante dela. Me sinto alegre. E também sinto o peso da responsabilidade: temos que interromper o retrocesso imposto por Bolonaro. Quero dizer para quem chama a Carta de cartinha, que, na verdade, ela é uma grande cartada da sociedade, um basta ao que não queremos mais.

Douglas Belchior, professor, articulador da Coalizão Negra Por Direitos e candidato a deputado federal pelo PT-SP

“Eu estava na barriga da minha mãe, vindo da região de Divinópolis (MG) para o Itaim Paulista, periferia paulistana. Como milhares de brasileiros, minha mãe não tinha noção da profundidade daquela crise política, mas sofria na carne as consequências, vivendo a dinâmica da pobreza. A vida estava muito ruim, sobretudo para os negros, sempre escorraçados, desacreditados e traídos.

Nós sabemos, por experiência, que a democracia não garante direitos iguais e efetivos para todos os cidadãos. Mas também é verdade que sem ela não podemos avançar para momentos melhores da nossa história. A carta, que reforça a democracia, visibiliza esta ideia. Por isto nós estamos correndo atrás dela. Ou com ela.

Bela Gil, apresentadora de TV, chefe de cozinha

“Não vi o povo nas portas desta faculdade em 1977, porque não era nascida. Imagino como foi, pelo que sinto agora: é bonito ver o povo reunido na rua pela democracia, querendo mudanças. Não sabia da Carta de 1977 até o pedido de assinatura na Carta de 2022. Sei que não é suficiente, sozinha não resolverá o problema, mas ela é uma forma de tirar a gente da passividade. Eu me sinto privilegiada por estar viva e ajudar a afastar o golpe. Hoje é um dia de luta. Muitos outros serão necessários.”

Leci Brandão, compositora, sambista, deputada estadual do PCdoB-SP

“Eu gravava Coisas do Meu Pessoal – talvez o LP mais político que eu tenha feito – naquele 1977, momento forte da minha carreira. Tive músicas censuradas, fui contestada por compor sobre LGBTs, mas não me ligava diretamente à política. O peso da ditadura caiu sobre mim quando vi meus amigos militantes sumindo ou sendo exilados. Que dor, era a nossa.

Hoje estamos começando uma nova independência. Para mim, a carta de 2022 significa renascimento. Se todos formos para a rua, mobilizados como espero, algo vai acontecer. O país entrou em coma e a gente precisa salvá-lo, urgentemente. Para isto estou contando especialmente com a juventude, que vi aqui, organizada e dando sinais de muita vitalidade política. A partir desta carta, eu creio, as coisas não serão mais as mesmas.”

Aloizio Mercadante, ex-ministro, coordenador do programa de governo e Lula

“Éramos muitos estudantes na frente da faculdade de direito em 1977. Vim como presidente do Centro Acadêmico da Faculdade de Economia da USP. Já havíamos participado da organização de atos por militantes mortos, como a missa na Catedral da Sé, em 1973, em memória de Alexandre Vannucchi (estudante de geologia preso pelo DOI-Codi em São Paulo, encontrado morto no dia seguinte sob a mentira de que teria sido atropelado por um caminhão). Também participamos do culto ecumênico por Vladimir Herzog (jornalista assassinado no mesmo porão em 1975). Vlado era professor da faculdade de Comunicação, um homem que levou muitos a refletirem sobre o mal da ditadura. Ouvir o professor Goffredo era mais um aprendizado. Tínhamos a sensação de que aquele era um dia histórico e que podia mudar tudo. Com a Carta de hoje as esperanças se renovam.

Renato Freitas, Pesquisador na área de Direito Penal, Criminologia e Sociologia, vereador cassado em Curitiba, candidato a deputado estadual pelo PT-PR

“Na periferia, a gente não entende bem o que foi a ditadura de 1964. Entende só a parte dela que persiste e é mais agressiva e violenta com os pobres e pretos.

Praticamente não tive pai. Ele ficou 14 anos preso, saiu e morreu logo depois. Perdi o convívio com amigos na adolescência que cumpriam medidas sócio-educativas pela prática de pequenos delitos. Ou acabavam presos aos 18 anos, se não eram assinados pela polícia. Estado de exceção nas quebradas é regra. Quando Bolsonaro se colocou no poder, o resultado foi o aumento da morte dos nossos. Por fome, doença ou bala. Conheço Bolsonaro antes dele ser presidente. O PM que tortura em nome de uma hipocrisia qualquer é o Bolsonaro antes do Bolsonaro.

A minha cassação faz parte desta lógica. Câmaras Municipais do Brasil inteiro aprovaram moções de repúdio à minha pessoa, baseadas na falsa notícia de que invadi uma igreja, quando a igreja me apoia. O que ocorreu com meu mandato foi um tipo de ditadura. Resquício que vem lá de trás, por não suportarem um preto no poder.

O que atingimos com a carta assinada por um milhão de pessoas é emblemático. Ela tem a capacidade de juntar diferentes atores que, mesmo sendo adversários na política partidária, se veem aliados na luta pela democracia. Até mesmo setores que derrubaram Dilma estão aqui. Isto é um avanço inegável.”

Adélia Farias, agricultora familiar assentada, agrônoma, candidata a deputada estadual pelo PT-SP

“Meus pais não tinham dinheiro para comprar a cartilha “Caminho Suave”, e a professora, sem sensibilidade ou compreensão, disse que se eu quisesse aprender a ler, que tentasse com o jornal que ela tinha na mão. Na ditadura, para um pobre estudar era um sufoco. Fiquei curiosa, queria entender o que estava escrito embaixo das fotografias, e aprendi rápido. Em 1977, menina ainda, estava lendo as notícias, me interessando por política. Não demorou para, na adolescência, assumir a luta pela terra. Em Americana, aos 14 anos, num encontro de rurais fiquei sabendo da existência da carta de 1977.

Eu acompanhei o ato de lançamento da carta atual no telão instalado no Largo São Francisco, no meio do povo. Quando tocou o Hino Nacional, uma mulher de uns 70 anos, me falou: ‘Eu não vou cantar. No impeachment da Dilma, fiz promessa de só cantar o hino quando o Brasil voltar’. Para ela, o país foi embora em 2016, acabou. Esta Carta, e os jovens que estavam ali gritando palavras de ordem, são a oportunidade de trazer o país à vida outra vez.”

Daniela Mercury, compositora, cantora e ativista

“Certamente eu estava brincando pelo bairro de Brotas, onde vivia em Salvador, quando a carta foi lida pelo professor Goffredo. Era uma criança que, aos 12 anos, não percebia a ditadura. Com a Carta de agora temos um argumento a mais. Vamos usar todos. O nosso potencial precisa ser usado por inteiro se quisermos barrar o autoritarismo, a censura, a falta de direitos a fome e o perigo que este governo representa. É nossa obrigação. O respeito por todas, todos e todxs tem que fazer parte da sociedade. Os LGBTs devem ser incluídos nas políticas públicas – o que só é possível se reconstruirmos o país e se ele for mais igualitário.”

Sonia Guajajara, mestra em Cultura e Sociedade, coordenadora executiva da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) e candidata a deputada federal pelo PSOL-SP

“Vivia no Território de Arariboia, no Maranhão, e tinha 3 anos quando divulgaram a carta que enfrentou a ditadura. As informações não chegavam lá. Só soube da existência dela agora. Quando a democracia é ameaçada lembramos do estado democrático de direito. Prestamos mais atenção porque ele tem sido barbaramente atacado pelo presidente da República.

Enfrentar as forças autoritárias neste evento é importante. Por uma razão: não dá para falar em direitos indígenas sem falar em direitos ambientais. Nem em política sem mulheres indígenas no parlamento. Mas só o ato é pouco. Vejo a carta como o pontapé inicial para a gente lotar as ruas, continuar gritando por liberdade e justiça.”

Kenarik Boujikian, desembargadora aposentada, integrante da Associação Brasileira de Juristas Pela Democracia e da Coalizão Para Defesa do Sistema Eleitoral

“Me lembro do impacto que a carta de 1977 me causou. Li a notícia, e pensei: ‘Que coragem!’ Eu terminava o segundo grau, não estava envolvida com política, mas sabia que havia prisões e assassinato de opositores dos militares. Para o país, foi a chance de colocar para fora a consciência, porque sob censura, ninguém conseguia se manifestar. A carta daquele ano abriu portas para a anistia, a discussão das Diretas, a elaboração da Constituição e fez toda diferença na batalha pelos direitos humanos.

Vendo estas pessoas no largo São Francisco, percebo que retomamos, em alguma medida, o espírito da primeira carta: realizar um sonho do povo brasileiro. Fazer o ato na academia é simbólico, porque tentou-se estrangular a universidade no Brasil. Hoje demos um recado para quem planeja algum tipo de trapaça ou golpe: Não admitiremos! Vamos proteger a soberania popular, o voto livre. Queremos democracia de conteúdo, não uma democracia como palavra solta ou vazia. Ela tem que ser de escolha, possibilidade de realização de um projeto de país que assegure direitos fundamentais, como comida, moradia, segurança, lazer, cultura, saúde. A democracia está na Constituição – que não pode ser rasgada por ninguém e por nada. Nós vamos defendê-la com unhas e dentes.”

Elaine Mineiro, geógrafa, arte educadora, liderança do movimento negro, vereadora do PSOL em São Paulo

“Moro na Cidade Tiradentes, último conjunto construído pelo BNH, precária e excludente política de moradia da ditadura militar. Minha família, de migrantes, foi expulsa da região central da capital e empurrada para lá, onde a infraestrutura era quase nada. Ainda existe na comunidade um grupo que se chama ‘Filhas da Dita’, em referência à ditadura e ao que ela representou para nós. Meu pai e minha mãe viveram sob violência a vida toda, resultado de governos autoritários que não enxergavam – e não enxergam – os mais pobres. Ao contrário, criminalizam.

Nossa história é ligada a esta democracia inconclusa. A leitura da carta da Coalizão Negra Por Direitos, aqui neste espaço da Faculdade de Direito, é para dizer que, neste momento de grande risco, a unidade é fundamental. Estamos todos juntos. É importante lembrar, porém, que enquanto existir racismo não haverá democracia. As organizações aqui presentes precisam se relacionar com os movimentos negros. Os que moram na periferia devem fazer parte, ser incluídos na festa democrática.”

Vanuza Kaimbé, técnica de enfermagem e assistente social, integrante do Movimento Kaimbé de São Paulo

“Eu tinha um radinho, aos 7 anos. Era de pilha porque na nossa casa, na Aldeia Massacará, em Euclides da Cunha, na Bahia, não chegava luz elétrica. Naquela época, eu brincava na cachoeira ou ouvia músicas do Caetano e do Gil. A política entrou em mim por aí. Os mais velhos me diziam: ‘Você não pode falar destas coisas, porque os militares te prendem’. Eu pensava: ‘Como me prendem se não roubei nem matei?’ Fui entender o prejuízo social e político que a ditadura representava nas Diretas Já. Achei que o Brasil seria outro depois daquele movimento grande.

Estou feliz aqui nesta universidade poderosa, vendo o lançamento de documento importante. Mesmo com uma vaga lembrança dos anos mais duros, não quero pensar em voltar à ditadura. Meu povo é sofrido desde a invasão do Brasil pelos europeus. Enfrentamos violência há séculos. Chega, queremos outro país, outra forma de viver nele.”

Leia mais sobre o ato pela Democracia AQUI

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